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Corpo da Letra Editora
Intrigas da CorteIntrigas da Corte - Murilo Cesar Ramos

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Leia Intrigas da Corte
Prof. Murilo César Ramos, especialista em Política da Comunicação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        Intrigas da Corte

 

               Maria da Penha Vieira
               Agosto, 11/2001

                 

O jornal diário serviu para embrulhar o peixe e depois foi para o lixo. O livro está nas prateleiras, é eterno e está sempre revelando o inaudito.

O fato já quase que desaconteceu, é notícia velha. Por isso mesmo, as versões do fato distanciadas no tempo propõem melhores condições para reflexões.

Recentemente o jornalista e repórter político, Ricardo Boechat, foi acusado de prática desonrosa da profissão, que teria beneficiado interesses de grandes grupos econômicos, segundo acusações. Perdeu o emprego e a coluna no jornal O Globo, assim, de uma hora para um minuto.

Neste caso, o importante é o personagem principal ( seria mesmo o principal? ). Ricardo Boechat. Um repórter calejado pela vivência e experiência. Corajoso e competente. Melhor do que isso, uma pessoa capaz de indignar-se diante de injustiças e porque não, do próprio poder.

Ao ler o Artigo de Ricardo Boechat publicado no Jornal do Brasil, em 17 de Julho/2001, não fiquei insensível, como leitora e admiradora do jornalista, aos argumentos apresentados que são absolutamente passíveis de compreensão e aceitação, principalmente para uma geração muito especial. Para uma redação muito mais especial como muito especial é o velho Jornal do Brasil, o JB.

Só é capaz de sentir as razões apresentadas pelo jornalista Richardo Boechat, quem tem a vocação jornalística e quem fez parte da geração JB, ao menos como leitor. Não basta o numerozinho que licencia a prática.

Quando se tem conhecimento da vida, da profissão de jornalista, quando se sabe o que é contrariar o mais forte, quando se sabe ler entrelinhas, o artigo assinado por Ricardo Boechat tem a força necessária que faz com que ele alcance o objetivo.

Em seu artigo, Boechat escreve que o empresário Tanure ao comprar o Jornal do Brasil convidou-o a transferir-se para lá.

‘O desafio de fazer reviver o diário que marcou minha geração me seduziu." A partir daí, envolvi-me crescentemente nas discussões com Tanure e com pessoas ligadas ao projeto de reerguimento do jornal.’

 

Boechat reconhece que

‘A cada consulta feita por Tanure, a cada conselho meu aceito por sua equipe, a cada troca de idéias sobre quais caminhos seguir fui ultrapassando os limites dentro dos quais, como funcionário de O Globo, deveria permanecer. Mas não cruzei essas fronteiras por dinheiro. Não o fiz por dolo.

Cruzei a fronteira da boa conduta profissional por um motivo tolo: vaidade. A vaidade em me supor em posição de prestígio...’

 

No que diz respeito a afirmação de dizer-se vaidoso, possivelmente caberia — reconhecendo o desassombro do repórter — imaginar que movia-o a paixão pelo desafio profissional. Ser convidado para reerguer é mais desafio do que ser convidado para erguer.

No mesmo artigo, revela-se a elegância profissional, capacidade de saber ser grato e melhor, dá uma lição de como se veste uma camisa.

‘Passei 31 dos 49 anos de minha vida, incluindo domingos, feriados e madrugadas, ligado a O Globo. Saí de lá há três semanas, demitido a sangue frio, por um delito que O Globo, até agora não conseguiu explicar nem aos muitos amigos que lá deixei.

Não se pense, entretanto, que a casa que me criou foi injusta comigo. Eu mereci ser demitido. O que O Globo escondeu foi a verdadeira razão que o levou a punir-me.’

 

Boechat é uma dessas raras pessoas e profissionais que não delimita aproximação na mesma proporção do talão de cheques nem números de cartão de créditos. Que é capaz de não misturar opiniões estritamente pessoais com posições profissionais. Se em algum momento alguém sentiu arrogância na maneira de ele falar, muito mais foi pelo estresse causado por falar em dois ou mais telefones ao mesmo tempo, correr para checar a veracidade da notícia, do que por exibição de poder. Esse não é o jeito de ser dele.

É fato conhecido que o jornalista Ricardo Boechat atende a todos que o procura passando notícias independendo da projeção social ou política. Entende-se que nem sempre um jornalista dispõe de espaço para tanta notícia e tem que priorizá-las de acordo com a relevância dentro do interesse do seu público leitor.

É sabido, também, que o tratamento que esse profissional dispensa ao seu interlocutor é em clima efervescente pela correria que exige o fechamento de uma editoria dentro de um jornal. Ainda e apesar disso, o tratamento que Boechat dispensa faz com que qualquer desconhecido sinta-se íntimo. Mas nem pensem em abusar por que ele não é de meias palavras e vai direto ao ponto. Não dá pra tentar alugar ouvido de jornalista no meio de uma redação.

‘...olha aqui, você me liga a essa hora e ainda vem no pescoção!’disse ele, certa vez, para um desatinado incauto que telefonou na hora de fechamento da coluna.

 

Só para mostrar um pouco do que esse profissional é capaz. O livro << Intrigas da Corte – O jornalismo político das colunas sociais >>, do Dr. Professor Murilo Ramos, da Universidade de Brasília, publicado pela Corpo da Letra Editora, incomodou publicamente a maioria dos colunistas sociais que trabalham com o jornalismo político dentro de suas colunas. Sem dúvida a publicação foi boicotada. Jornalistas afirmavam que nada havia contra a Editora e garantiam que "vai sair matéria". Bom, então havia alguma coisa contra alguém. E havia. Contra o conteúdo da publicação.

Naquela ocasião, na noite de autógrafos do livro Intrigas da Corte – O jornalismo político das colunas sociais, Affonso Romano de Sant`Anna pretigiou o evento. Estava lá e comentou que o livro iria dar muito o que falar. Ouviu como resposta que não iria acontecer por que simplesmente estava acontecendo o silêncio. Em alguns casos o silêncio acontece.

Até aqui já dissemos que o conteúdo político da publicação desagradava, absolutamente. Houve by pass, o diabo.

Enquanto todos os colunistas dos maiores jornais do país silenciavam, Ricardo Boechat peitou e noticiou em sua coluna em O Globo, não apenas a notícia sobre o lançamento do livro mas repicou na véspera da noite de autógrafos. Nunca se soube se ele sentiu-se ofendido com a tal publicação ou não, até porque o bom profissional não passa recibo nem o bom cabrito berra. Nem poderia deixar transparecer, porque é um profissional como nenhum outro jornalista político de coluna aparentemente social.

Ilustrando a largura da barreira do boicote, houve até quem escrevesse artigo sobre a temática tratada na publicação, com destaque, sem sequer citar a publicação que estava indo para umas poucas prateleiras. Matéria assinada e tudo. Nenhuma linha sobre o título da obra com o objetivo de esvaziamento.

Mesmo com o socorro vindo da TV Manchete, através do amigo Fernando Barbosa Lima, apesar da página inteira no Correio Brasiliense, Jornal de Brasília, Revista Ele e Ela e outros veículos, o livro encalhou por falta do tambor do Rio de Janeiro, que soou baixo. Em termos de venda não houve sucesso; foi sucesso em termos de audácia editorial e coragem.

Outro fato reforça o bom caráter de Ricardo Boechat e revela o ser humano ainda não dormente, por isso mesmo capaz de indignar-se.

Um pequeno empresário disposto a investir numa livraria, artigo de luxo do Brasil, encontrou o ponto dos sonhos dele. Uma casa magnífica. Parecia que o destino havia desenhado a casa para o projeto empresarial.

Durante as negociações, apesar do alto preço do aluguel, em dólares, lá pras tantas a proprietária, uma advogada, tentando entender, pergunta ao pequeno empresário – "Mas é uma livraria mesmo?... que entra e sai livros? Diante do fato a proprietária negou-se a alugar o imóvel alegando que depois quando quisesse pedir o imóvel ela não poderia. A tal senhora fez um ‘munzungu’, ou melhor, uma confusão dos diabos. A lei não permitiria que ela retomasse o imóvel, afirmava ela. Confundiu as coisas e misturou creches e escolas com livraria.

O pequeno empresário abismado e furioso com tamanho disparate, desapontado e frustrado tentou por uma semana digerir o fato. Ao final de uma semana, com o caso atravessado na garganta tomou coragem e telefonou para a redação de O Globo e falou pessoalmente com o Ricardo Boechat a quem não conhecia pessoalmente.

Para surpresa do pobre e desconhecido empresário, o Boechat mostrou-se mais do que sensibilizado. Mostrou-se indignado e no outro dia a notícia estava na coluna.

 

O Globo - Sexta-feira, 13 de maio de 1994

Swann

Ricardo Boechat

Classicultura

 

Vice-presidente da Associação Comercial do Rio, a empresária Dora Carvalho recusou-se a alugar para um pequeno empresário, ontem, uma ampla casa que possui em Botafogo.

Ela encerrou a conversa sobre o assunto ao saber que seu potencial cliente instalaria no imóvel uma livraria.

— Esse tipo de cliente é difícil de despejar — justificou.

 

Resta dizer que, se o empresário era um ilustre pobretão e desconhecido, a senhora proprietária do imóvel era vice-presidente da nada mais nada menos do que a Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Cabe ressaltar que a citação da respeitável instituição é feita apenas para reiterar a veracidade do fato, da mesma maneira como foi citado o nome do não menos respeitável e querido poeta, cronista e professor de literatura Dr. Professor Affonso Romano de Sant`Anna.

Vamos respeitar, porque é mesmo preciso muita coragem para sair do conforto já tão plantado, sair de um veículo como O Globo, para renovar-se, arriscando-se em um projeto ainda que apaixonante.

Nada melhor do que um dia atrás do outro.

Boa sorte Ricardo Boechat e se você conseguir, com sua capacidade de trabalho, destemor e paixão, colaborar para reerguer o centenário Jornal do Brasil, as centenas de profissionais de imprensa, hoje desempregados e a memória histórica do Brasil, todos terão tudo a ganhar. Com certeza, muito mais do que você não ganhou.

 

Ao iniciar este artigo não pretendia citar o título da publicação. No entanto se não o fizesse estaria criando uma situação de risco.

Clique — Título do Livro: Intrigas da Corte — O jornalismo político das colunas sociais, do Dr. Em Comunicação, Professor Murilo Cesar Ramos (UnB)

 

 

 

 

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