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            A difícil tarefa de
            ser empresário
            privado no Brasil
               Angela Riore
               05, Março/2002



Parte 01            Parte 02           Parte 03

Mil maneiras de matar pequenos empresários



Creio que a tarefa mais difícil que alguém se impõe, depois de torcer pelo América-RJ ou pelo Bangú-RJ é ser empresário privado no Brasil — pequeno empresário, então, nem pensar! Não basta mais, você pegar seu rico dinheirinho , quase sempre oriundo de uma suada poupança a custa de privações pessoais, ou indenização daquele emprego do qual foi injustamente demitido após anos de dedicação e suor da camisa e a única justificativa que lhe deram foi a tal de reestruturação da empresa, down size, e outras modernidades, e ao invés de desfrutá-lo aproveitando seu "dolce farniente" você corajosamente decidiu investi-lo, abrindo uma empresa, gerando empregos e impostos e, principalmente, iria colocar em prática suas idéias que seus chefes nunca acatavam. Quando o faziam, se desse certo, assumiam a paternidade e as conseqüentes promoções, elogios e aumento de salário, claro, pois ninguém é de ferro.

Mas, agora, seria diferente pois você era o patrão ou a poderosa chefe e não permitiria que acontecesse aquilo que você mais repudiou nas empresas em que trabalhou: os incompetentes, puxa-sacos, antiéticos, desonestos, corruptos e outros adjetivos bem conhecidos .Você está pronto para começar sua carreira de empresário. Reuniu-se com seu advogado, contador, despachante , registrou a empresa na Junta, tirou o CNPJ, alvará, enfim, tem a papelada necessária e o local onde vai funcionar a empresa foi decorado com todo o capricho e conforto. Os micros estão lá , brilhando, os poucos funcionários contratados ansiosos para começar o trabalho e já torcendo para chegar o fim do mês no primeiro dia.

Foi dada a largada e você abre sua pasta cuidadosamente arrumada com todas as pesquisas de mercado que você havia feito, sobre fornecedores, mercados e principalmente seus concorrentes diretos. Para estes tinha tomado o cuidado de analisar seus pontos fracos, porte de clientes, pesquisado por várias fontes fidedignas o target de cada um. Após tudo isto montou seu plano de negócios e planejamento estratégico , buscando um nicho de mercado e evitando a todo custo "trombar" com os concorrentes mais musculosos.


Inicialmente as coisas estavam andando bem, com os percalços normais dos novatos. O faturamento nos dois primeiros meses haviam ficado pouco abaixo do estimado , mas ainda dentro da margem de erro. As despesas é que estavam além do orçamento e necessitavam de maiores apertos para não fugir do controle. Ao cabo de um ano de operação, ao fazer o balanço anual você está satisfeito consigo mesmo pois sua empresa tinha fechado o ano com um pequeníssimo lucro. Mas lucro, o que já era motivo de satisfação para uma empresa tão nova, especialmente se levar em conta o alto índice de mortalidade das micro e pequenas empresas no Brasil. 45% morrem no primeiro ano .65% no segundo e somente 10% chegam a completar cinco anos.


Bem, vamos agora para mais um ano e você já mais por dentro do mercado em que atua redimensionou seu negócio para alçar vôos mais altos .Refez o plano de negócios e o planejamento estratégico , contratou mais funcionários e aumentou sua frota de veículos. Afinal você estava no ramo de transporte de encomendas e a Internet era uma realidade. Os grandes portais virtuais necessitavam entregar as mercadorias compradas pelos internautas pontualmente e o mais rápido possível.

Credibilidade era o principal produto que eles vendiam e esta necessidade era uma questão de logística que você poderia suprir angariando assim novos clientes e aumentando seu faturamento numa proporção maior que as despesas adicionais que teria. As margens seriam reduzidas, mas compensadoras. Afinal era a sua política de negócios: ganhar menos sobre mais e não o que era normalmente praticado no País em quase todos os segmentos, e razão principal da quebra da maioria das empresas além de outras claro, como juros estratosféricos, financiamento de curtíssimo prazo ou falta dele, má gestão, confundir o caixa da empresa com o caixa da família )

Mas o fato principal é que se você não tem preço, não vende, se não vende , não tem faturamento, se não tem faturamento, não tem dinheiro e se não tem dinheiro, você não tem nada. Era imperativo na nova empreitada de aumentar o seu market-share e faturamento que os custos fossem rigorosamente controlados e se possível reduzidos. A conquista de novos clientes da internet exigia competitividade e preço e estava preparado para isto. Foi a luta e alguns meses depois descobriu que um fator em todo o seu planejamento não havia sido considerado. O governo como seu concorrente. Espera aí! O governo tem transportadora também? Lamentavelmente, tardiamente você descobre que nesta área de transporte tem.

Nada menos que o velho, conceituado e poderoso CORREIOS DO BRASIL. Aí você corre para sua papelada e descobre que você havia colocado o CORREIOS NO SEU MAPA DE CONCORRENTES. O que você não havia (e nem podia) previsto era o baixíssimo preço dos serviços do Correio, especialmente do e-sedex concorrente direto no novo mercado que pretendia conquistar. Mas você não desistiu e foi à luta para tentar descobrir qual era a mágica do Correios para custo tão baixo, mesmo com o imenso "volume-fruto" do monopólio estatal de entrega de correspondências transportado.


Depois de muito buscar inclusive através do Associação Nacional dos Transportadores de Carga(NTC) você descobre a grande mágica: O CORREIOS DO BRASIL não paga impostos e está dispensado do rodízio de automóveis, além de desobrigada de fiscalização a folha de pagamento já está paga. Ah bom! Assim é fácil e até os incompetentes que mencionei antes eram capazes de ganhar dinheiro neste negócio com estas facilidades.

Mas fica o consolo. Se até a TOTAL EXPRESS empresa de logística controlada pelos fundos de investimentos dos gigantes GP INVESTIMENTOS e J.P. MORGAN PARTNERS que prestava serviços para os sites Americanas.com e Submarino, além das empresas Natura e C&A, jogou a toalha (Gazeta Mercantil, Quinta-feira, 28.02.02 página C5), se eu jogar a minha, brasileira e empresária nanica, não terei feito feio, nem me sentirei incompetente .

Foi apenas um azar, com o governo pelo meio.

 

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