Creio
que a tarefa mais difícil que alguém se
impõe, depois de torcer pelo América-RJ
ou pelo Bangú-RJ é ser empresário
privado no Brasil pequeno empresário, então,
nem pensar! Não basta mais, você pegar seu
rico dinheirinho , quase sempre oriundo de uma suada poupança
a custa de privações pessoais, ou indenização
daquele emprego do qual foi injustamente demitido após
anos de dedicação e suor da camisa e a única
justificativa que lhe deram foi a tal de reestruturação
da empresa, down size, e outras modernidades, e
ao invés de desfrutá-lo aproveitando seu
"dolce farniente" você corajosamente decidiu
investi-lo, abrindo uma empresa, gerando empregos e impostos
e, principalmente, iria colocar em prática suas
idéias que seus chefes nunca acatavam. Quando o
faziam, se desse certo, assumiam a paternidade e as conseqüentes
promoções, elogios e aumento de salário,
claro, pois ninguém é de ferro.
Mas,
agora, seria diferente pois você era o patrão
ou a poderosa chefe e não permitiria que acontecesse
aquilo que você mais repudiou nas empresas em que
trabalhou: os incompetentes, puxa-sacos, antiéticos,
desonestos, corruptos e outros adjetivos bem conhecidos
.Você está pronto para começar sua carreira
de empresário. Reuniu-se com seu advogado, contador,
despachante , registrou a empresa na Junta, tirou o CNPJ,
alvará, enfim, tem a papelada necessária e
o local onde vai funcionar a empresa foi decorado com todo
o capricho e conforto. Os micros estão lá
, brilhando, os poucos funcionários contratados ansiosos
para começar o trabalho e já torcendo para
chegar o fim do mês no primeiro dia.
Foi
dada a largada e você abre sua pasta cuidadosamente
arrumada com todas as pesquisas de mercado que você
havia feito, sobre fornecedores, mercados e principalmente
seus concorrentes diretos. Para estes tinha tomado o cuidado
de analisar seus pontos fracos, porte de clientes, pesquisado
por várias fontes fidedignas o target de cada
um. Após tudo isto montou seu plano de negócios
e planejamento estratégico , buscando um nicho de
mercado e evitando a todo custo "trombar" com os concorrentes
mais musculosos.
Inicialmente as coisas estavam andando bem, com os percalços
normais dos novatos. O faturamento nos dois primeiros meses
haviam ficado pouco abaixo do estimado , mas ainda dentro
da margem de erro. As despesas é que estavam além
do orçamento e necessitavam de maiores apertos para
não fugir do controle. Ao cabo de um ano de operação,
ao fazer o balanço anual você está satisfeito
consigo mesmo pois sua empresa tinha fechado o ano com um
pequeníssimo lucro. Mas lucro, o que já era
motivo de satisfação para uma empresa tão
nova, especialmente se levar em conta o alto índice
de mortalidade das micro e pequenas empresas no Brasil.
45% morrem no primeiro ano .65% no segundo e somente 10%
chegam a completar cinco anos.
Bem, vamos agora para mais um ano e você já
mais por dentro do mercado em que atua redimensionou seu
negócio para alçar vôos mais altos .Refez
o plano de negócios e o planejamento estratégico
, contratou mais funcionários e aumentou sua frota
de veículos. Afinal você estava no ramo de
transporte de encomendas e a Internet era uma realidade.
Os grandes portais virtuais necessitavam entregar as mercadorias
compradas pelos internautas pontualmente e o mais rápido
possível.
Credibilidade
era o principal produto que eles vendiam e esta necessidade
era uma questão de logística que você
poderia suprir angariando assim novos clientes e aumentando
seu faturamento numa proporção maior que as
despesas adicionais que teria. As margens seriam reduzidas,
mas compensadoras. Afinal era a sua política de negócios:
ganhar menos sobre mais e não o que era normalmente
praticado no País em quase todos os segmentos, e
razão principal da quebra da maioria das empresas
além de outras claro, como juros estratosféricos,
financiamento de curtíssimo prazo ou falta dele,
má gestão, confundir o caixa da empresa com
o caixa da família )
Mas
o fato principal é que se você não tem
preço, não vende, se não vende , não
tem faturamento, se não tem faturamento, não
tem dinheiro e se não tem dinheiro, você não
tem nada. Era imperativo na nova empreitada de aumentar
o seu market-share e faturamento que os custos fossem
rigorosamente controlados e se possível reduzidos.
A conquista de novos clientes da internet exigia competitividade
e preço e estava preparado para isto. Foi a luta
e alguns meses depois descobriu que um fator em todo o seu
planejamento não havia sido considerado. O governo
como seu concorrente. Espera aí! O governo tem transportadora
também? Lamentavelmente, tardiamente você descobre
que nesta área de transporte tem.
Nada
menos que o velho, conceituado e poderoso CORREIOS DO BRASIL.
Aí você corre para sua papelada e descobre
que você havia colocado o CORREIOS NO SEU MAPA DE
CONCORRENTES. O que você não havia (e nem podia)
previsto era o baixíssimo preço dos serviços
do Correio, especialmente do e-sedex concorrente
direto no novo mercado que pretendia conquistar. Mas você
não desistiu e foi à luta para tentar descobrir
qual era a mágica do Correios para custo tão
baixo, mesmo com o imenso "volume-fruto" do monopólio
estatal de entrega de correspondências transportado.
Depois de muito buscar inclusive através do Associação
Nacional dos Transportadores de Carga(NTC) você descobre
a grande mágica: O CORREIOS DO BRASIL não
paga impostos e está dispensado do rodízio
de automóveis, além de desobrigada de fiscalização
a folha de pagamento já está paga. Ah bom!
Assim é fácil e até os incompetentes
que mencionei antes eram capazes de ganhar dinheiro neste
negócio com estas facilidades.
Mas fica o consolo. Se até a TOTAL EXPRESS empresa
de logística controlada pelos fundos de investimentos
dos gigantes GP INVESTIMENTOS e J.P. MORGAN PARTNERS que
prestava serviços para os sites Americanas.com e
Submarino, além das empresas Natura e C&A, jogou
a toalha (Gazeta Mercantil, Quinta-feira, 28.02.02
página C5), se eu jogar a minha, brasileira e empresária
nanica, não terei feito feio, nem me sentirei incompetente
.
Foi apenas um azar, com o governo
pelo meio.
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