Favelização do Brasil
   Cultura da Miséria

 

      Maria da Penha Vieira
      03, Janeiro/2004



 

Ao contrário do Brasil atual, o Brasil Colônia, agrário, as cidades eram povoadas por pessoas pobres — prostitutas, trabalhadores braçais dos portos, mendigos, polícia e toda "escória social", nas mesmas condições de hoje, com o agravante de que, mesmo tendo ultrapassado versões econômicas, os relatos dos séculos passados continuam atuais —, o que não significava que as classes abastadas ali tivessem seu pouso fidalgo, porém estas pessoas viviam no interior cuidando das suas fazendas e engenhos e só iam à cidade por necessidade comercial, para despachar a produção ou adquirir mantimentos não produzidos em sua localidade. Portanto, os historiadores já no Século XVII registram censos com descrições e análises sobre as condições de vida dos habitantes brasileiros, que chegam a fazer inveja aos "preocupados" de hoje, acadêmicos cheios de "inovações" metodológicas que em nada têm acrescentado no que concerne a soluções efetivas. Haja vistas que estamos em pleno 3º Milênio.

Revelam-nos ainda, aqueles historiadores ( já sociólogos ) que as cidades eram monótonas e pachorrentas, só revelando vida alegre quando em dias de feiras grandes e festas religiosas. As cidades e vilas serviam apenas como escoadouros da produção agrícola, sustentáculo econômico único. A qualidade das moradias no Brasil Colônia está registrada com fartura, por viajantes e estudiosos estrangeiros e por membros da Igreja Católica:

Debret registrou as péssimas construções das casas ( térreas ) que ainda hoje margeiam a quase totalidade das ruas do Rio de Janeiro.

Pohl escrevendo sobre Vila Boa, capital de Goiás:

' ...a cidade inteira tem cerca de setecentas casas, a maioria construída de madeira e barro, de um só andar. Na estação chuvosa frequentemente nelas penetra água e então desabam muitos desses casebres mal construídos.

Ainda o naturalista Johann Emanuel Pohl, sobre o Rio de Janeiro, observando a situação colonial que não se alterava através dos tempos:

'As casas dos subúrbios, como também as da cidade, são igualmente construídas de pedras e cobertas de telhas, porém apenas têm o andar térreo com uma ou duas janelas no máximo para a rua. Nessas mesquinhas residências moram muitas vezes de dez a 12 inquilinos, apertados em pequenas dependências e alcovas ' .

 

O modelo do planejamento urbanístico e da arquitetura medieval introduzidos no Brasil Colônia, pelos portugueses, que, por sua vez traziam influências da cultura Árabe ( e Moura, africana por excelência ) justificavam-se em sua época pelo ângulo da ótica do colonizador. Contudo, havia uma dose grande de pouco caso com a Colônia Americana. O desprezo pelas cidades e pela coisa pública deixou para trás a simbologia cultural e passou a ser instrumento de corrupção e manipulação. Não mais porque o Brasil é habitado por "passageiros" de além-mar. Boa parte do século XIX foi todo dedicado ao estímulo de em nada se alterar no quadro das preocupações com as cidades e o traçado de seus projetos urbanísticos.O novo conceito de planejamento inserido no projeto para a construção de Brasília apenas horizontalizou a cultura das favelas, em topografias semelhantes.

Dentro da perspectiva de segurança militar o padrão de edificações do Brasil Colônia aconteceu nas partes altas das cidades, nos morros. Ruas estreitas e íngremes, casas mal edificadas, vazadouro de lixo não-disciplinado, tudo só pensado para deter tentativas de invasão territorial. Nesse Brasil Colônia os mais abastados construíam suas casas em madeira ou pedras, mas mesmo estes tinham, não raro, suas casas cobertas com folhas de coqueiro. O padrão das habitações da população comum era a construção de pau-a-pique coberta com folhas de coqueiro ou sapé. O inacreditável é que um País onde a argila nunca foi matéria-prima escassa, ninguém se habilitava a produzí-las para comercialização, e o motivo era a falta de demanda em concomitância com a extrema pobreza da população, registro de baixo poder aquisitivo que nos persegue por tantos séculos.

À propósito da grave situação sobre a salubridade das moradias no Brasil de hoje, onde 54,1% da população habita, cristalizaram-se nas favelizações, no mesmo estado do período Brasil Colônia:

Em Salvador, a inglesa Maria Graham especifica:

'...as cabanas dos pobres são feitas de estacas verticais com galhos de árvores trançados entre elas, cobertos e revestidos seja com folhas de coqueiros, seja com barro. Os tetos são também cobertos de palha.'

Em 14 de Agosto de 1671 a municipalidade oficiava ao rei a morte de trinta pessoas e solicitava verbas para se realizarem obras de contenção nas encostas pois " tudo nasce das imundícies que no despenhadeiro das ladeiras se botam ". A ver o Governo Municipal daquela época e o de nossos dias, a transigência ressalta uma das mais fortes características da formação cultural do povo brasileiro.

Em 1808, mesmo após três séculos de observações sobre os problemas habitacionais do povo brasileiro por outros estrangeiros, John Luccock observava sobre a ausência de planejamento urbano:

"as ruas são sem calçar, as casas de um só pavimentos, baixas, pequenas e sujas e tanto portas como janelas são de rótula e abrem-se para fora, com prejuízo dos transeuntes".

Mais uma contribuição de Debret:

Descrevendo um modelo habitacional típico brasileiro' ...se compõe de duas peças de tamanho diferente; a menor, no fundo, deve ter servido de cozinha, a julgar pelo fogão, hoje inútil; a maior, a única habitada, tem apenas, sobre o chão úmido, um estrado velho e quase podre'.

Moritz Rugendas, alemão :

"Nos bairros mais feios, na costa setentrional, na vizinhança do Saco do Alferes, e finalmente nos arrabaldes de Mata-Porcos e Catumbi as ruas são bastante irregulares e sujas. As residências não passam em geral de miseráveis choupanas, esparsas ao acaso ou empilhadas umas contra as outras, entre a colina e o mar".

Barlaeus sobre Filipéia ( hoje Paraíba ):

"quando vão construir uma casa, levantam primeiro os esteios e escoras, estendem sobre eles um ripado sobre o qual armam o telhado coberto de telha ou folhas de coqueiro...'

Forçado pelo exôdo rural, o Brasil hoje, tem 40% da sua população habitando nas grandes cidades como resultado do despretígio, empobrecimento e corrupção ( corrupção essa, fomentada pelos modelos estabelecidos por instituições estatais ) dos que investem no campo. Após travessia de inúmeras revoluções econômicas até chegar aos nosos dias, no bojo, as mesmíssimas míseras condições habitacionais dos séculos anteriores. Considerando-se a expansão demográfica, continuamos no mesmo patamar qualitativo dos séculos XVI ou XVII sem que naquela época se evocasse o clamor pelo social que era como deveria ser hoje, dever do Estado.

Para nós brsileiros que entendemos Poder Econômico como sendo o Poder Público, ficamos em maus lençóis, pois que, o Poder Econômico deveria ser entendido como constituído pelas forças econômica e financeira das instituições privadas: todo setor produtivo de bens de consumo e de capitais .

Acontece que por esta compreensão de torto, as empresas ficam nas mãos do Poder Público que ao mesmo tempo detém o Poder Político, assustadas, receosas, submissas e depedentes, entendendo da mesma forma que o povão. Entendendo que Poder Econômico é o mesmo que Poder Público. A fragilidade do Poder Econômico brasileiro se deve muito mais ao medo, por dependência, que este tem do Poder Público e Político.

O Poder Público por sua vez gosta e quer a manutenção desse viés absurdo. Sabe que a saúde da iniciativa privada brasileira ( Poder Econômico ) está em suas mãos, e que essa, por sua vez, se confunde no correto significado do que se chama Poder Econômico, Poder Público que é o Poder Político ( mãos do Poder Público ). Não parece, mas a continuar essa inversão o sonho da casa própria assim como outros sonhos, passarão sempre pelo mesmo íngreme caminho que leva ao topo das favelas. Nem mais serão sonhos e sim delírios.

Como se pode ver, se nossos atuais governantes, ou aqueles que os assessoram tivessem lido a obra de referência histórica que é o livro o Teatro dos Vícios do grande historiador e humanista ( de esquerda como gostam alguns, mas que, penso Emanuel Araújo ter sido muito grande para amesquinhar-se dentro dessa ou de outra idologia ) Professor Emanuel Araújo, teriam se preparado melhor para pensar reformulações e reformas com pernitinência e conhecimento, para a área habitacional.

Ler : Carrasco dos Sem-Teto

OBS: A quem como eu, ficou privada(o) do seu exemplar, por algum motivo, com alegria comunico que já existe uma segunda Edição do livro Teatro dos Vícios, de Emanuel Araujo. Esta edição foi publicada em pela José Olympio em co-edição com a Editora UNB.Meus agradecimentos à amiga Maria Amélio Melo, Editora-Executiva da JO que com o carinho de sempre, me proporcionou a felicidade de ter este novo exemplar do livro do inesquecível amigo Emanuel Araújo.

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