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Negociando com o chefe - Luiz Roberto Bodstein
 

Singularidades sobre as Empresas Familiares

©Este texto faz parte do livro que está sendo publicado pela CNC - Confederação Nacional do Comércio.

A família cresce em número de pessoas construindo um formato piramidal em seu organograma, cuja base vai ficando geometricamente mais larga. No ápice o fundador da empresa familiar e na base o consórcio de primos. Esse crescimento é inversamente proporcional à necessidade gerencial da empresa; em algum momento a família está para servir a empresa e a partir de um outro determinado momento parece que a empresa é que precisa encontrar lugar para que caibam todas as pessoas da família.

Os teóricos sobre esse tema dizem que cinqüenta por cento das empresas familiares falecem na passagem da primeira para a segunda geração; depois, trinta a quarenta por cento o fazem na segunda geração. Cada etapa de transição geracional modificava a forma como se pensava e se conduzia a empresa, para a forma como o atual dirigente iria pensá-la e conduzi-la até que esta última, dando continuidade ao ciclo, se consolidasse.

No entanto, a vida média dos produtos e das idéias vem diminuindo cada vez mais. Hoje, se estima que a vida média de um produto não passe de poucos anos (alguns duram meses), enquanto que a vida média das idéias é infinitamente menor. Antes, quando falava-se sobre empresas familiares, fazia-se referência à dificuldade de implante das idéias que a nova geração dirigente traria para a empresa. Hoje, no mesmo período de gerenciamento da empresa, as idéias precisam estar sendo revistas continuamente.

Além das questões que dizem respeito a todas as empresas, necessitamos agregar outras quando tratamos de negociações em empresas familiares. A relação de parentesco acaba conversando com a relação de trabalho provocando sobreposição de diferentes níveis e qualidades de diálogo. Nessa conversa; pais falam com gerentes e filhos com presidentes, complexizando ainda mais este diálogo.

O desenvolvimento das empresas faz com que dois movimentos - crescimento da empresa e crescimento da família - corram o risco de, em algum momento, entrar em colisão. Em determinada etapa do crescimento de ambos é preciso reinvestir financeiramente na empresa e, coincidentemente, na família que está ganhando status financeiro e demandando aquisições. Estes são momentos delicados nos quais é preciso balancear estes investimentos visando a legitimá-los, evitando que empresa e família se constituam elementos em competição e conseqüente conflito.

O mediador é um profissional que, pela multidisciplinaridade que sua atuação exige, aprimora muitas habilidades. Ele é um expert em negociação, em comunicação, em visão sistêmica, em incluir a interferência das redes sociais que participam das questões mediadas. A articulação de todos estes olhares possibilita que ele possa atuar como facilitador de diálogos tanto quanto como especialista na análise de risco de conflitos. Conhecedor da interseção da relação de parentesco com a relação de trabalho e sabedor de que todas as épocas de transição da empresa e da família são críticas, o mediador pode ajudar os componentes de uma empresa familiar a fazerem uma análise da possibilidade de conflitos a cada etapa ou movimento projetado, auxiliando-os ainda a gerenciá-los através da negociação.

Uma situação ilustrativa:

Duas primas que tinham uma empresa que era bastante fértil e promissora, por algum motivo relacional entre elas, resolveram dissolver essa sociedade. O pedido delas para a Mediação era bastante claro: a dissolução societária estava caminhando muito bem mas temiam por uma paralela dissolução afetiva. A possibilidade de dissolver a sociedade comercial, sem igualmente dissolver a sociedade afetiva, tornou-se o ponto de especial cuidado. Eram famílias muito próximas e a dissolução da sociedade afetiva entre elas colocava em risco toda a rede da família extensa que fatalmente tomaria partido de uma ou de outra.

Um dos princípios da Escola de Negociação de Harvard é discriminar as relações entre as pessoas das questões que estão sendo negociadas. É útil e fundamental quando se trabalha com desentendimentos ou litígios que envolvam relações familiares, ajudar as pessoas a identificar e discriminar uma pauta subjetiva, relativa às interações familiares e uma pauta objetiva, relativa à questão que as envolve. A construção destas duas pautas, em paralelo, faz-se necessária, especialmente, nas relações que envolvem parentesco ou amizade uma vez que, os temas da pauta emocional ficam, invariavelmente, travestidos de questões objetivas. Nestas situações, as contas emocionais se apresentam no momento da divisão de bens ou das cobranças financeiras disfarçadas de reivindicações materiais.

©Este texto faz parte do livro que está sendo publicado pela CNC - Confederação Nacional de Comércio.

 

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