Mil
maneiras
de
matar pequenos
empresários
Angela
Riore
10,
Abril//2002 |
|
| Parte
01 Parte
02 Parte
03 |
|
Parte
01
A
difícil tarefa de ser empresário
privado no Brasil
Parte 02
‘O
Brasil deveria pagar para sermos empresários, diz
um pequeno empresário, e pergunta — O que fazem nossos
homens públicos, gastando tanto dinheiro com passagens
para outros países com modelos fiscais enxutos e
mais justos do que o nosso que não se dão
ao trabalho de mandar um amarra-cachorro, um aspone deles
ver como e porque é tão fácil e rápido
fazer registrar e fazer funcionar uma empresa nesses países?
Você
sabe que existe país onde pela manhã um cidadão
dá entrada no pedido de registro para funcionamento
da empresa e que ao sair dali, do local onde isto é
feito com o mínimo de burocracia, vai à companhia
telefônica providenciar as linhas e à tarde,
já é pessoa jurídica podendo funcionar
dentro de sua própria casa, inclusive.
Mas
no Brasil, não, não interessa que nada seja
normal, rápido e justo. Tudo estica, emperra e demora
com propósitos duvidosos, que nunca é do interesse
do desenvolvimento econômico da Nação
ou do cidadão brasileiro. A fila dos interessados
passa bem longe dos que necessitam. As regras do jogo mudam
ao sabor dos interesses dos grupos diversos. Como é
que o investidor estrangeiro pode entender isso? O que eles
descobrem é que tendo dinheiro, eles também
eles podem alterar as regras.’
Nosso
amigo empresário, dono desta fala ainda não
está pautado no DF, mas dentro do que ele diz nosso
visitante deduz o resto.
Reconhecido
profissional, Carlos, é proprietário da Visom
Digital trabalhando com autoração de DVD e
mixagem em som surround. No Brasil a Visom Digital é
pioneira nas novas tecnologias DVD e DIVX, onde trabalhos
tais como, a conformação e a transcrição
de Vídeo Digital D-1 para compressão MPEG-2
e Mixagens em Surround 5.1 para codificação
em Dolby Digital são necessários, e ainda
serviços como ADR, Folley, Música & Efeitos
e Edição de Vídeo Off-Line são
oferecidos com equipamentos de primeira linha e a qualidade
bem ao jeito competente e sério de ele ser.
Para
autoração e codificação de DVD,
além de utilizar todos os equipamento que dispõe
em estúdio, criou uma parceria com o estúdio
DVant de São Francisco, onde um time de engenheiros
supre com as mais recentes novidades em DVD-ROM, DVD Vídeo
e Interatividade. Além de tudo, acopla uma gravadora
cujo catálogo apresenta nomes importantes da música
brasileira. Victor Biglione, Wagner Tiso, Armandinho e outros.
Carlos
trabalha quase ininterruptamente, incluindo sábados
e domingos sem horário certo para deixar os estúdios.
Pretendendo ampliar e concentrar essas atividades tão
específicas, ele partiu para investimento maior.
Transformou todo patrimônio familiar em capital a
ser investido em um grande novo estúdio.
Aqui,
a cruz que ele começa a arrastar é pesada
demais e por pouco não lhe custa a saúde.
Uma
semana após adquirir o imóvel de mais 500m2
em região nobre do Rio de Janeiro, recebeu a visita
de um Oficial de Justiça comunicando o iminente leilão
do imóvel. Iminente também, o risco para a
saúde física, mental e financeira do empresário.
—
Você imagina, meu desespero e perplexidade?—, pergunta
a quem o ouve, contendo o sentimento de desamparo que cobre
de humilhação, qualquer cidadão que
sabe o que é sacrificar cada tostão do seu
bolso, ganho com muitas noites insones.
Carlos
é uma pessoa extremamente cuidadosa e parece que
é o único empresário no Brasil que
tenta — e consegue — manter-se em dia com os zilhões
de Impostos e Nebulosas Fiscais brasileiras. Nesta altura,
o empresário acionou seu advogado para esclarecimentos
e busca de soluções definitivas.
—
A aflição não poderia ser maior.
Eu já havia contratado arquiteto e engenheiro para
adequar todo o espaço às necessidades dos
estúdios; pensando em equipamentos e outras coisas.
Separei toda a verba para as obras, impostos e tudo o mais.
Só que eu teria que continuar trabalhando, e num
ritmo muito maior, para fazer face aos drenos que com certeza,
minariam essas reservas, pensar nos acidentes e/ou desvios
de percurso e "fazer dinheiro" para continuar
garantindo o sustento, num mínimo de conforto, da
minha família. Conforto não é bem a
palavra já que o cinto estava no último furo.
Melhor dizendo, garantir as necessidades mais básicas
como escola de filhos etc. Agora, eu só tenho este
espaço para trabalhar e é por isso que necessito
tanto dele.
Com
a ameaça de perder todo o meu capital investido naquele
sonho, cadê cabeça para produzir e por conseguinte
fazer dinheiro para dar continuidade?
O
mais incrível foi que meu advogado provou que o imóvel
estava com todo o jogo de certidões negativas dos
Ofícios competentes, na mais perfeita ordem. E estavam
em ordem porque assim foi assinada pelos 1o,
2o,
3 o,
4 o
e 9 o
Ofícios de Notas que são os distribuidores
do Rio de Janeiro. Olha, são 11 certidões
de cada cônjuge ou herdeiro, proprietário do
imóvel e mais essas desses Ofícios, que cada
uma é emitida por cada Ofício de Distribuição
ou seja, mais 5 Certidões só para atestar
que o imóvel se encontrava em estado de total desimpedimento
legal e fiscal.
>>Para
entender sobre o quê o Carlos fala sobre 11 Certidões
Negativas de cada cônjuge só do lado dos
proprietários, perfazendo um total de 22 Certidões
Negativas. Isso se o imóvel pertencer a apenas
duas pessoas. Somando-se mais 5 (05) Certidões
Negativas do imóvel.
—
A Prefeitura liberou tudo, assim, dizendo que o imóvel
se encontrava quite com seus impostos, a Receita Federal
afirmou o mesmo e no fim, veio o tal Leilão Público.
Você gasta dinheiro para tudo quanto é lado
para depois virem os próprios Órgão
responsáveis pela liberação dizer o
contrário de tudo aquilo que eles carimbaram como
certo. Eles que deveriam zelar por mim, como cidadão,
livrar-me dos descaminhos e do engodo na mesma medida do
meu esforço em pautar-me como esse cidadão
merecedor.
Muito
esforço, idas e vindas, petições e
sofrimento, após isso, Carlos pensou-se livre para
carregar o lenho sagrado, mas não foi bem assim'.
O
projeto especial para um espaço acústico,
que exige investimentos altos visando não apenas
a qualidade desse espaço bem como futuros conflitos
com vizinhança entrava em andamento. Papelada burocrática
da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro comendo tempo,
paciência e dinheiro. Todo certinho, nosso empresário
se pensa livre da corda da máquina de fazer loucos,
amarrada na garganta.
Segue todo
procedimento exigido pelas posturas municipais para edificação
mas, belo dia adentra à obra uma fiscal, uma mulher
a dizer que estava tudo errado. Que ele isso, aquilo e por
fim, o PEU.
Antes
de esclarecer o PEU, notamos que, o documento final —
para o bairro em questão — ao ser impresso, apresentando
até índice remissivo, coisa rara, esqueceram-se
da básica: antecedendo a sopinha de letras PEU,
deveria vir impresso, por extenso o que vem a significar
a sigla PEU.
Projetos
de Estruturação Urbana (PEU)
para o planejamento local, respeitando as características
dos diferentes bairros e criava políticas setoriais
para o desenvolvimento econômico e social. (
itálico, extraído do Site da Prefeitura
do Rio de Janeiro ).
O
Projetos de Estruturação
Urbana — PEU é um conjunto de normas fixadas
para utilização das áreas administradas
pela Prefeitura Municipal. Divide a região, bairro
ou bairros, em Lotes e Zonas, definindo as áreas
que poderão acolher determinados tipos de atividades
profissionais, separando estas, das áreas estritamente
comerciais. Isso tudo no papel e para quem não tem
poder de compra. O Projetos de Estruturação
Urbana — PEU, também define posturas para
edificações, dentre outras.
Cada
bairro ou mais de um, aglutinados têm PEUs "adequados
às características".
Nosso
personagem empresário verificou se sua atividade
profissional poderia estar instalada naquela Zona do bairro
escolhido. A Prefeitura do Rio de Janeiro disse sim. Vem
a fiscal e diz não.
Eu insisti com a fiscal, afirmando que tinha informação
fornecida pelo Órgão responsável, que
uma funcionária me havia orientado, havia me dado
todas as instruções. A fiscal perguntou-me
o nome da pessoa e eu disse. Sabe qual foi a resposta da
fiscal? Que a pessoa que havia me fornecido as informações
não se encontrava mais naquele Órgão!
Ou seja, cada um diz o que quer? E nós contribuintes
ficamos ao sabor do que essas pessoas querem sem ao menos
saber o que elas querem. Uma coisa pode-se ver é
que elas não querem o que a Lei quer.
De
acordo com o Projetos de Estruturação
Urbana — PEU, que rege o uso urbanístico
e racional do bairro que o empresário elegeu para
sede de sua empresa, permite a utilização
do endereço para sua atividade-fim.
O
Estúdio Visom Digital usa o endereço apenas
como referência comercial e isso pode, desde que,
haja apenas um contrato de comodato. Mesmo que o imóvel
fosse de outra pessoa, este contrato de comodato em acordo
com as regras do Projetos de Estruturação
Urbana — PEU, está tudo resolvido. Isso
se o fiscalizador assim desejar seguir a legalidade.
De
acordo com o famoso PEU, a atividade não acarreta
prejuízo à qualidade de vida ou à classificação
de Zona Residencial, desde que não haja movimento
externo. Demasiado tráfego, entrada e saída
de pessoas, descargas etc. O pior é que nesta mesma
rua onde o nosso empresário tenta montar seu estúdio,
ao lado existe uma atividade que jamais poderia funcionar
ali: um minimercado, com descargas de produtos diários,
tráfego de veículos pesados que danifica o
pavimento do passeio público de uma rua bucólica.
Como foi que aquela empresa conseguiu Alvará de funcionamento?
Na esquina da mesma rua, um posto de gasolina que tecnicamente
tem seu endereço em outra rua mas que, na realidade
ele funciona dentro da rua vedada pelas próprias
exigências do Projetos de Estruturação
Urbana — PEU; no terreno em frente ao imóvel
do empresário uma torre de comunicação
de telefonia celular.
Em
outros bairros, a situação pode ser escabrosa
com clínicas de saúde que fazem uso de material
radioativo e não de apenas uma clínica numa
só rua residencial, várias. Dá para
imaginar os riscos de transmissões de doenças
e contaminações para os que residem próximo.
Quantos
Brasis numa rua tão pequena! Para cada conta bancária
uma lei e um PEU diferentes?
Corretora
de Imóveis, Rose Marie Alves Coutinho,
Creci No 13.965 ( filha de José
Alves Canarinho, fundador e primeiro presidente da Associação
dos Despachantes do Estado do Rio de Janeiro, ) nos esclarece,
grosso modo que:
Os
1o,
2o,
3 o,
4 o
e 9 o
Ofícios de Notas são responsável pela
distribuição dos processos em andamento na
esfera da Justiça. São chamados Distribuidores
porque quando os processos judiciais são concluídos,
a Justiça repassa a distribuição a
esses Ofícios. O número de Ofícios
de distribuição varia, em número, de
cidade para cidade e de estado para estado.
Em Situação
Enfitêutica
Aurélio
— [Do gr. emphyteusis, pelo lat. Emphyteuse, fr. Enfiteuse.]
Dir. Civ.
1.
Direito real alienável e transmissível aos
herdeiros, e que confere a alguém o pleno gozo do
imóvel mediante a obrigação de não
deteriorá-lo e de pagar um foro anual, em numerário
ou em frutos; aforamento, emprazamento, fateusim. ) — Quanto
um imóvel se encontra impedido de ser negociado por
tratar-se de patrimônio alienado aos projetos em níveis
de governos como no caso de projetos que prevêem alteração
de recuo, meio-fio, viadutos, praças etc. Nestes
casos os imóveis adjacentes à área
passa para o controle da prefeitura, no caso. Se o imóvel
está próximo à área de um projeto
da União ( Federal ) como estradas federais, este
imóvel está impedido de ser comercializado.
Enfim, qualquer previsão de futura desapropriação
pelo poder público. No âmbito da Justiça
Federal: Débito por instância de Órgão
Federal como, INSS, IR etc
Além
dessa complicação toda, ainda resta dizer
que cada um dos proprietários do imóvel apresente
11 ( onze ) certidões negativas que atestem que aqueles
não têm nenhuma ação judicial
em tramitação ou que nada devem à União.
O
que se pretende com as Certidões Negativas é
ver o "não" está impedido de ser
comercializado por quaisquer tipos de interdições
nos 1 o,
2 o
Ofícios de Tutelas e Curatelas ou outro executável.
Toda
essa parafernália de documentos frágeis, passíveis
de fraudes de "limpeza" , na opinião de
Rose Marie, a certidão importante mesmo é
a Certidão de Ônus Reais que aquela que prova
quem é o dono do imóvel, prova se tem ou não
hipoteca ou arresto de imóvel para quitação
de dívida contraída judicialmente. Ou se está
alienado. Não
é só isso, muito mais teria a ser explicado
nesta matéria, nos diz Rose.
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