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        Vinhos franceses detonam
        executivos ingleses

 

          Roberto de Castro Neves
          Publicado no Domínio Feminino
          28, Outubro/2002


     Em julho do ano passado, seis executivos do Barclays, um dos maiores bancos da Inglaterra, resolveram comemorar a realização de um excelente negócio jantando no Petrus, um dos mais badalados restaurantes de Londres. Até aí tudo bem. Faz parte da vida empresarial festejar-se grandes tacadas com eventos desse tipo. Moderadas extravagâncias são até toleradas nessas ocasiões. É justo. Afinal não é todo dia que se pode comemorar a realização de grandes negócios. Mas, de moderada, não se pode chamar a comemoração em questão. Os rapazes torraram, num único jantar, a bagatela de 44 mil libras esterlinas – o equivalente a 63 mil dólares. O que comeu a rapaziada? Bem, o problema não foi exatamente a comida. Por sinal, esta até nem foi cobrada. O que pesou mesmo na estratosférica conta foi o consumo de vinhos franceses raros cujo valor de cada garrafa variava entre 13 e 18 mil dólares. Isto mesmo: uma garrafa do Château Petrus, safra 1947, custou 18 mil dólares. E os alegres executivos enxugaram 5 garrafas de vinhos nessa faixa de preços.

Como Londres é uma cidade pequena, todo mundo ficou sabendo da façanha. O tititi correu solto. O assunto apareceu na mídia. Mandaram mal – foi o que ficou no ar. O último capítulo da novela se deu sete meses depois do evento. Embora tenham pago as despesas do próprio bolso, a empresa considerou que o comportamento dos executivos denegria a imagem da instituição e botou cinco deles no olho da rua. O sexto comensal escapou da degola porque, sendo recém-contratado, não teria tido responsabilidade pela farra. Segundo a empresa, ele entrou de gaiato no navio. O assunto da demissão foi tema de jornais na Europa e nos Estados Unidos. [Circulou por aqui a versão de que a demissão teria acontecido quando os extravagantes tentaram empurrar a conta para a empresa mas a mídia inglesa não confirma esta versão.]

Comunicação Empresarial se faz de duas formas. A primeira, através da chamada Comunicação Programada, isto é, aquela comunicação sobre a qual temos quase absoluto controle. Escolhemos a mensagem desejada, os veículos que nos parecem adequados e pau na máquina. A segunda forma se faz pela Comunicação Simbólica. São as mensagens que emanam de nossas atitudes, dos nossos gestos, jeito, forma de ser, etc. Nesse campo, o controle sobre as mensagens e sobre os veículos se torna muito mais difícil. A co-existência dessas formas de comunicação é complicada. Daí ser muito comum a empresa “dizer” uma coisa através da Comunicação Programada (pela publicidade, pelos patrocínios, pelo discurso oficial, etc.) e, por intermédio da Comunicação Simbólica, estar afirmando justo o oposto. A fonte dessa comunicação é o que eu chamo de “rádios-piratas”, ou seja, “emissoras” independentes que operam dentro da empresa transmitindo mensagens quase sempre na contra-mão da comunicação desejada pela instituição. Uma das “rádios-piratas” mais atuantes é justamente essa que vitimou o Banco Barclays: o comportamento dos executivos. No momento em que a empresa vinha fazendo um discurso interno de contenção de gastos e – por causa do aperto de cintos – demitindo funcionários, seus deslumbrados executivos, no desastrado jantar, “discursaram” o oposto, ou seja, o desperdício, o abuso, a prodigalidade, o oba-oba, o luxo e a riqueza. E, em paralelo, a falta de senso, a irresponsabilidade. [Deixamos de considerar a caipirice implícita no fato de vinhos para degustação serem consumidos como cerveja].

O caso expõe outro elemento importante que requer cuidado na gerência da comunicação empresarial: a egotrip (doença conhecida entre nós como “salto alto”). Trata-se de uma enfermidade que ataca 9 entre 10 mortais. A ação da doença é devastadora porque destrói a auto-crítica e a capacidade de julgamento. Os pacientes ficam totalmente fragilizados. Executivos do mercado financeiro, em especial pela natureza de sua atividade, são hospedeiros generosos dessa praga, transformando-se assim em risco à imagem e à segurança das empresas para as quais trabalham. A embriaguez do sucesso pode custar às organizações mais do que milhares de garrafas dos Château Petrus Pomerol e as conseqüências do porre serem demolidoras. Estão aí inúmeras crises institucionais que não me deixam mentir.

Portanto, uma cacetada dessas – refiro-me as demissões - faz bem à saúde das instituições e ao mundo empresarial como um todo. E mais: a atitude do Barclays – demissão por “salto alto” - deveria ser tema de reflexão e de debate dentro das empresas. Pelo que ela ensina, mereceria ser comemorada pelos executivos de todo mundo. Com champanhe – sim, por que não? – desde que a garrafa não custe mais do que 20 reais.

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Roberto de Castro Neves, www.imagemempresarial.com

 

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