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Efeito
Placebo
Tom
Coelho!
27,
Janeiro/2004
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“O que prevemos raramente ocorre;
o que menos esperamos geralmente acontece.”
(Benjamin Disraeli)
João está interessado
em Maria, mas ela sequer sabe de sua existência. Então, ele
revela seu desejo a um amigo comum que se aproxima dela e
comenta: “Maria, percebo que você tem notado João de forma
diferente...”. Ela nega, evidentemente, mas a partir daquele
dia passa a saber quem é João e, possivelmente, começa a observá-lo.
A isca foi lançada. A possibilidade antes remota de um encontro,
torná-se plausível. Depende apenas da atitude de João que,
por sua vez, depende exclusivamente de seu desejo e de seus
propósitos.
É possível que você
tenha vivenciado experiência similar. No mundo corporativo,
situações como esta são provocadas a todo instante. Colegas
de trabalho entrincheirados nos corredores, nos intervalos
do café e nas reuniões de rotina observam seus passos e seu
comportamento em busca do mais indelével motivo para conspirar
contra sua imagem. Objetivo: subir degraus na hierarquia,
ocupando seu cargo ou outro ainda superior.
Auto-Ilusão e
Auto-Engano
Fatos assim acontecem
porque somos seres sugestionáveis. Mais ainda, tendemos inconscientemente
à auto-ilusão e ao auto-engano. Aceitamos como verdadeiro
ou válido o que é falso ou inválido. Buscamos maneiras de
justificar nossas atitudes para que se mostrem coerentes.
Cometemos erros de interpretação e encontramos padrões onde
eles não existem criticando dados que nos são desfavoráveis
e relevando dados ambíguos ou inconsistentes que nos apóiem.
É por estas tendências
que cientistas exigem “estudos claramente definidos, controlados,
duplamente cegos, aleatórios, repetíveis e apresentados publicamente”
(Thomas Gilovich, How We Know What Isn´t So).
O psicólogo B. R.
Forer descobriu que as pessoas tendem a aceitar descrições
vagas e gerais de personalidades como unicamente aplicáveis
a si próprios sem perceber que a mesma descrição pode ser
aplicada a qualquer outra pessoa. É o Efeito Forer, também
conhecido como efeito de validação subjetiva ou pessoal. Isto
explica, por exemplo, os dados apresentados pelo Prof. Gilovich
segundo o qual 94% dos professores universitários norte-americanos
acham que são melhores no seu trabalho que os seus colegas
e 70% dos estudantes consideram-se acima da média na capacidade
de liderança (só 2% pensam estar abaixo da média). Isto explica
também o poder de penetração das pseudociências, a astrologia
à frente delas.
Profecia Auto-Realizável
Como ocorre em todos
os anos, economistas, analistas, agências de classificação
de risco e empresários desfilaram recentemente suas previsões
sobre o cenário nacional para 2004. Os números apresentados
são muito próximos para os mais diversos indicadores, gravitando
em torno de um ponto médio. É um trabalho de futurologia conjunto.
Linearmente, todos acertam, pois o erro colegiado deixa de
ser erro e passa a ser fatalismo.
A aposta é em um
crescimento do PIB da ordem de 4,5%. Insuficiente para as
nossas necessidades, mas bastante razoável diante da mediocridade
dos últimos anos. Dólar em queda, risco-Brasil em baixa, o
otimismo está no ar. E de tanto se acreditar em crescimento,
vamos ver o país reagir este ano, como numa profecia auto-realizável.
Manipulação
O placebo (pílula
de açúcar ou de farinha) é uma substância inerte, usada como
controle em uma experiência, ministrada a um paciente com
promessa de propriedades benéficas sem que este saiba não
haver, na verdade, qualquer princípio ativo no que está tomando.
É um instrumento de cunho psicológico, com eficácia comprovada
de cura da ordem de 25% a 75%. Afora todo o debate ético que
envolve sua aplicação, seu conceito consiste em agir sobre
o emocional, e não sobre o aspecto clínico do paciente. É
uma forma de manipulação per se.
O governo edita
medidas que elevam a carga tributária, associadas a programas
paliativos de combate à fome, ao desemprego e à violência,
e acreditamos que reduziremos as desigualdades que grassam
neste país. As empresas promovem campanhas de incentivo e
programas de capacitação, e acreditamos que seremos mais ouvidos
e mais bem remunerados. Ouvimos, de nossos parceiros, juras
de amor protocolares e acreditamos que aquele sentimento ainda
perdura.
Tomamos placebo
todos os dias!
Tom Coelho,
com graduação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP
e especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de
Vida no Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário, consultor,
escritor e palestrante, Diretor da Infinity Consulting,
Diretor do Simb/Abrinq e Membro Executivo do NJE/Fiesp. Contatos
através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite www.tomcoelho.com.br
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