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O artigo de Arnaldo
Jabor, “Meninos do Rio nos provocam arrepio” (O GLOBO, 23/11),
descrevendo medos e culpas diante dos meninos dos sinais,
é oportunidade para discutir questão central no jornalismo
brasileiro: o predomínio do paradigma que simplifica, em dois
sentidos, o problema da pobreza e da criminalidade. Primeiro,
porque explica transgressão e crime como produtos da estrutura
social e não da responsabilidade individual e, segundo, porque
culpa os que prosperam, pela pobreza dos que fracassam.
Não sinto, como
Jabor, culpa pelo malabarista no sinal; absolutamente nenhuma.
Porque eu não tirei nada dele. Tudo que ganhei, foi com o
suor de meu rosto, dando, com determinação, o melhor de mim
a cada momento da vida. Sempre cumpri com minhas obrigações,
paguei os impostos, votei nas eleições, assinei as carteiras
que passaram pela minha frente. E agi para aumentar o bem-estar
das pessoas pobres com quem convivi e que, muito pobres como
são, nunca quiseram me atacar, roubar ou enganar: a cada ato
meu de solidariedade ajuda para escola dos filhos,
pagamento de plano de saúde, da escolinha de futebol, cestas
e festas de Natal sempre tive o retorno em gratidão
e amizade.
Que culpa pode sentir
um amigo, por exemplo, dono de uma loja do McDonald’s? Com
sua vontade de vencer, por mais de doze horas por dia ele
combate muito mais a pobreza do que chorões perplexos que
reclamam das injustiças, sentados em frente a seus computadores.
Não sinto culpa,
porque não faço parte do grupo de intelectuais que, por anos
e anos, usa privilégios ou verbas públicas para nos convencer
que vivemos numa sociedade de classes e raças que se odeiam,
de exploração do pobre pelo rico.
Sinto pena dos
meninos, como dos garagistas do edifício em que cresci, que
hoje, senhores como eu, continuam na mesma garagem escura;
e da cozinheira de minha infância, hoje velhinha, que conseguiu
dar estudo para os dois filhos, que tiveram as expectativas
frustradas pela falta de oportunidade.
Somos um país sem
regras universais de economia de livre mercado, que, como
o prova a História do último século, são as que produzem prosperidade
para a maioria da população. Afundamos gerações e gerações
na mais eterna mediocridade, com uma elite dirigente que,
alimentada em suas idéias por intelectuais que acreditam saber
a fórmula de um mundo melhor, promete o que não vai entregar,
enquanto alguns se locupletam ilimitadamente.
Eu sei para o que
digo “basta!”. Basta daqueles que, dos seus cafofos de luxo,
publicam artigos não para nos ajudar a entender as bem-sucedidas
democracias de mercado que construíram a prosperidade de seus
povos, mas para fazer cabeças, com uma visão de mundo coletivista
e estatista, já sepultada pela História; que ilegitimamente
dizem em meu nome: “Menininho do sinal, não interessa os sacrifícios
que o cara ali naquela Mercedes fez para montar seu negócio,
dando empregos e oportunidades para centenas de famílias,
ou o que suou aquele, no Palio, para estudar e trabalhar no
Miguel Couto. Porque o que eles têm, eles tiraram de você.
Não sei direito por que vias, mas repito sempre que o que
eles têm é o que você não tem. Largue suas bolinhas, junte-se
aos outros, e ataque-os sem piedade.”
Basta de sermos
enganados nas escolas, nas universidades, na Igreja, com dedos
apontados e palavras de ordem: Injustiça Social! Eu não cometi
essa injustiça.
É hora de mudarmos
o enfoque: sociedades prosperam porque incentivam os pobres
a tornar-se ricos, e ricos e pobres a cumprir leis universais
e simples, entendidas por todos, sendo os bem-sucedidos referência
para os pobres. Sem isso, é mais pobreza, mais ilegalidade,
mais jovens de talento no caminho do cinismo ou da emigração,
alimentando o círculo vicioso de uma sociedade fracassada.
Precisamos mudar
a abordagem sobre riqueza e pobreza para evitar ser parte
desse grupo, em que estão muitas sociedades no início do século
XXI, particularmente na América Latina.
PATRÍCIA CARLOS
DE ANDRADE é economista e empresária.
Sobe
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