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        Indústria de Papel Higiênico,
        isto é papel que se faça?

 

         Roberto de Castro Neves
         Publicado no Domínio Feminino
         02, Outubro/2001



     Empresários ficam chateados quando a gente fala que a imagem das empresas é ruim. Querem briga. Pois bem, nos últimos dias de agosto, eles tiveram um bom motivo para reflexão. A maquiagem feita em produtos – biscoitos, cervejas, sabão em pó, pão de fôrma, presunto, sardinhas, ceras, etc – manteve o nome de várias empresas e de produtos na primeira página dos jornais e revistas, bem como nos principais noticiários da televisão. Como marginais, empresas e marcas famosas foram mandadas para a sessão de manjamento. Vexame total. Até a indústria de papel higiênico participou do papelão.
     Que feio, né? E sabe qual o bicho que vai dar? Claro, esta onda de denúncias, matérias em jornal, fotos, etc. vão fortalecer ainda mais os estereótipos seculares de que as empresas só pensam em lucro, daí enganam os consumidores e autoridades, se organizam em cartéis e outras coisas mais. As empresas são do mal, portanto precisam estar sendo permanentemente vigiadas e controladas. "Pau neles!" – pede a opinião pública. No fim das contas, as boas empresas vão pagar pelas pecadoras. Vira tudo farinha do mesmo saco.
     Nessas horas, morro de pena dos comunicadores das empresas – relações públicas, assessores de imprensa, lobistas, etc. São esses coitados – e não os que tomaram a decisão da fraude - que vão ter que enfrentar consumidores furiosos, jornalistas excitados, burocratas do governo, estes últimos doidinhos para pegar a empresa numa infração. Pois estão agora diante de um prato cheio. Um banquete.
     Além de enfrentarem milhares de reclamações, xingamentos, desaforos, os comunicadores ainda têm a lamentar ver por terra um enorme trabalho desenvolvido ao longo de meses para dar a empresa uma imagem de credibilidade. Agora só resta começar tudo de novo, do zero, melhor dizendo, do negativo.
     Por que essas barbaridades acontecem? Por várias razões. A mais simples é porque, nessas empresas, não há um sistema de comunicação integrada. A decisão de "maquiar os produtos" é tipicamente uma decisão nascida em setores da empresa que desconhecem a importância da Imagem Empresarial, a força da Opinião Pública e as conseqüências de uma crise desse porte para todo mundo – consumidores, empregados, acionistas e até mesmo para o governo. Crises empresariais acabam provocando queda nas vendas, prejuízos, demissões, redução nos impostos recolhidos. Enfim, é a sociedade como um todo que acaba pagando a conta da trapalhada.
      Quando a comunicação da empresa é gerida por um colegiado funcional, há sempre a possibilidade desses absurdos serem evitados. Por que? Porque, antes de implantada a desastrada decisão, existe a chance do advogado levantar a questão ética e da ilegalidade da operação, do Relações Públicas alertar dos riscos de imagem da empresa junto à Opinião Pública, do cara de Recursos Humanos tirar carona nas preocupações expostas e avaliar o impacto da tramóia no moral interno. Sim, porque medidas como essas não é um segredo que possa ser guardado a sete chaves. Embora o assunto não seja comentado abertamente dentro da empresa, ele rola à boca pequena. A rádio-corredor passa a ser campeã de audiência. Enfim, com a existência de um fórum interfuncional, o resultado acabaria sendo o de não assumir tamanho risco. Melar na origem a proposta indecente. Melhor buscar outras alternativas para compensar o aumento dos custos que não seja a de enganar o consumidor. Mas não é assim que caminha a humanidade. Na maioria das empresas, os comunicadores não participam das decisões estratégicas, sequer das operacionais. Somente são chamados quando o processo já está em sua fase terminal, isto é, quando a mídia invade a empresa em busca de sangue e o camburão da polícia estaciona junto ao portão da fábrica.
     Quando menino, ouvia minha avó dando consultoria para as empregadas: - "Abra o olho com o leiteiro, ele bota água no leite. Cuidado com o açougueiro, ele rouba no peso. Preste atenção com o feirante, ele rouba no troco." Minha avó - que nasceu no século 19 -, viva estivesse, diria: " Eu não disse?"


Roberto de Castro Neves, www.imagemempresarial.com

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