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         Vitima de Sucesso*

 

         26, Setembro/2004

José Puppio da Air Safety
 

Comentário


Puppio: vítima da burocracia brasileira, o empresário não conseguiu financiar a expansão do seu negócio.

Domínio Feminino vê nesse exemplo, a melhor definição para o melhor do Brasil: é o brasileiro que conseguiu ver além dos horizontes verde-esmeralda e o trocou pelo azul-piscina de países com mais oportunidades, que reconhecem o esforço de quem deseja produzir e facilitam ações inteligentes.


Desde o início deste ano, 40 pessoas ganharam emprego numa nova fábrica de máscaras respiratórias instalada na pequena Campbellsville, cidade de 24 000 habitantes localizada no interior do estado americano do Kentucky. São funcionários da Air Safety, uma empresa que, apesar do nome em inglês, pertence a um brasileiro. Seu dono é José Puppio, engenheiro que fez carreira em empresas como a Embraer e a Mercedes-Benz, e fundou a Air Safety em São Paulo há dez anos. Com 180 funcionários no Brasil, a Air Safety faturou 15 milhões de reais em 2003. Com a filial americana recém-inaugurada, Puppio espera dobrar sua receita total neste ano.

A história da Air Safety é um exemplo acabado das diferenças brutais de ambiente encontradas no Brasil e nos Estados Unidos quando o assunto é fazer negócios. Desde 1997, Puppio tenta implementar um projeto de ampliação de sua operação brasileira com a construção de uma nova fábrica. Sem conseguir financiamento, ele até agora ergueu com recursos próprios apenas o esqueleto de um dos prédios planejados. "O Brasil é um país que oferece muitas oportunidades, mas estrangula o empreendedor", afirma Marco Gregori, professor de empreendedorismo e inovação da Business School São Paulo, escola de pós-graduação em negócios. Em contraste com a dificuldade de ampliar o negócio por aqui, em me nos de três anos Puppio partiu do zero nos Estados Unidos e montou uma fábrica -- com estímulo e crédito do governo americano. Recentemente, ele recebeu, inclusive, uma carta-padrão assinada pelo presidente George W. Bush agradecendo pela geração de empregos.

Puppio começou a pedir financiamento no Brasil quando sua empresa tinha apenas três anos. Suas vendas cresciam rapidamente porque o mercado era abastecido basicamente com produtos importados. Ele solicitou ao Banco do Brasil 7 milhões de reais de uma linha fornecida pelo BNDES. O objetivo era levar a Air Safety da área apertada que ocupava no bairro paulistano de Santo Amaro para uma fábrica maior a ser construída em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. O pedido foi recusado. "Recebi como resposta que o projeto era muito grande para o porte da minha empresa", diz.

Sem o crédito, Puppio começou a tocar o plano conforme podia. Em 2000 terminou de pagar o terreno. No ano seguinte, tentou novamente o financiamento, dessa vez com um projeto de 4 milhões de reais. Outra negativa. "Disseram que com meu faturamento não conseguiria pagar a prestação", afirma ele. "Para o dinheiro sair, eu teria de apresentar como garantia um patrimônio de cinco vezes o valor do empréstimo."

Enquanto tentava superar os obstáculos no Brasil, Puppio atacou em outra frente: alugou um estande minúsculo numa feira de equipamentos de segurança em Orlando, na Flórida. Aí ele acertou em cheio. Seus produtos chamaram a atenção de representantes de um comitê de desenvolvimento industrial do governo americano. A justificativa: máscaras respiratórias são consideradas equipamento estratégico para a segurança nacional. Puppio foi consultado sobre a intenção de instalar uma filial da Air Safety nos Estados Unidos. "Disse que não tinha dinheiro", afirma ele. "Responderam que dinheiro não seria problema."

Nos dois anos seguintes, Puppio passou por um processo que incluiu uma visita ao Senado americano e a cidades que oferecem incentivos para a implantação de fábricas. A escolha acabou recaindo sobre Campbellsville, por contar com uma universidade, de onde viria apoio técnico. No final de 2001 ele recebeu um empréstimo de 3 milhões de dólares para pôr em prática o projeto. Dois anos depois, estava com tudo pronto, mas não tinha capital de giro para ativar a produção. Em pouco tempo, mais 2 milhões de dólares foram liberados. "Não tenho cidadania americana, nunca tinha feito negócio nos Estados Unidos e recebi 5 milhões de dólares para produzir", diz Puppio. "Aqui, onde nasci, tenho família e uma firma que sempre operou no azul, não consigo nada."

Pelos critérios do BNDES, a empresa de Puppio é considerada de porte médio. No ano passado, foram liberados pelo banco 2,6 bilhões de reais para empresas com faturamento na faixa de 10,5 milhões a 60 milhões de reais. Não há dados sobre quantos pedidos foram recusados. "Sabemos que nossos agentes financeiros às vezes exigem reciprocidade e não estimulam os gerentes a fornecer o crédito", diz Maurício Borges Lemos, diretor de operações externas do BNDES. "Mas estamos tentando melhorar as condições de acesso."

Estímulo e desestímulo
 
As diferenças nas condições de um empréstimo para pequena empresa no Brasil e nos Estados Unidos Brasil Estados Unidos
     
Juros anuais 15% 5%
Prazo de pagamento 5 anos 30 anos
Garantias exigidas Patrimônio equivalente a cinco vezes o valor do crédito A própria construção é hipotecada
     
Fontes: BNDES, Banco do Brasil, empresa
     

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