|
Madrugar, trabalhar
muito, estudar com afinco, observar pelo menos cinco dos dez
mandamentos a partir do quinto, dar ouvidos à Benjamin Franklin
(pontualidade e retidão nos negócios), tudo ajuda a vencer
na vida. Mas mesmo que você faça tudo direitinho e ainda seja
sortudo e sagaz, é muito mais complicado se você trabalha
num país com as instituições econômicas atrapalhadas. Seguem
duas histórias para ilustrar a importância do ambiente institucional.
A primeira história
começou com uma paixão. Um campeão de tênis americano caiu
de amores por uma carioca. Decidiu ficar por aqui. Notou que
no Rio não se comia um bom sanduíche de carne moída e grelhada
e também que uma bebida gelada que misturava sorvete de baunilha
com leite fazia sucesso entre a juventude dourada local, desde
que tudo fosse limpo e o atendimento rápido. Em 1952, o tenista
americano inaugurou uma lanchonete numa rua de Copacabana,
com seu nome na fachada.
|
|
|
Câncer
Burocrático
Rodrigo
Constantino
|
|
Nem mesmo a cegueira
ideológica permite mais que os olhos
não vejam o estrago que o excesso
de burocracia estatal faz com o país.
Não há indivíduo ou
empresa que não prefira estar na
legalidade. Se esta não é
a situação da maioria das
empresas brasileiras, isto deve-se somente
ao lamentável fato do custo de tal
legalidade ser proibitivo. Seguir todas
as absurdas leis do país e pagar
todos os impostos é simplesmente
tarefa impossível para a maciça
maioria
.' Ler
mais
|
|
|
A segunda história
começou na mesma época. Dois irmãos americanos implantaram
o mesmo conceito na Califórnia. O nome deles também estava
na fachada da lanchonete. A diferença entre as idéias iguais
foi o ambiente institucional. Atualmente a empresa americana
vende cerca de duzentas vezes mais do que a brasileira. A
empresa brasileira passou por agruras, quebrou as cacundas
de duas multinacionais e tem valor hoje graças aos esforços
de empresários locais. A empresa americana espalhou-se pelo
mundo e tem hoje suas ações nas carteiras de fundos de pensão.
Além de ter empregado milhões de jovens, ajuda velhinhos a
viverem melhor. O americano do Brasil chamava-se Bob Falkenburg.
Os dois irmãos da Califórnia chamavam-se Dick e Mac McDonald.
Ninguém deve concluir
que devemos instalar no Brasil as instituições econômicas
dos EUA. Mas também não precisamos da obsessão por soluções
originais ou acharmos que somos tão únicos que precisamos
de teoria econômica exclusiva. Afinal, isso aqui é parte do
mundo ocidental.
Instituições econômicas
não se reformam sozinhas. Tem que ser uma iniciativa de governo.
Programas de aperfeiçoamento das instituições estão sendo
implantados em muitos países, com enorme sucesso. Mas no Brasil
falta convicção e de muito mau grado, somos empurrados pela
realidade. Mas se Lula gastasse um pouco de seu capital político
em algumas reformas, os historiadores econômicos, extasiados,
iriam se dedicar à ele.
Lula poderia ser
mais afirmativo em algo que comentou com Daniel Ortega, de
que o governo não deve ser empreendedor nem escolher quem
deva ser, mas sim criar um ambiente propício para que existam
e surjam empreendedores. Lula poderia criar um programa para
simplificar a abertura, venda e encerramento de empresas,
problema muito sério no Brasil.
Lula poderia exigir
forte melhoria na qualidade da administração fiscal, com suas
exigências acessórias, um enorme custo Brasil. Mas seria incrível
se além da simplificação fiscal houvesse uma redução nas alíquotas.
Estudo recente da PricewaterhouseCoopers mostra que um aumento
de 10% nas alíquotas das empresas diminui a relação investimentos/PIB
em 2%. E falar em imposto progressivo e sobre fortunas é dar
tiro no pé.
Lula poderia pedir
mais pressa e mais audácia na reforma dos sistemas previdenciários
dos governos. O que está sendo discutido já é um grande avanço,
com a criação de um teto para as transferências intergerações.
Além de algum impacto fiscal positivo à curto prazo, irá dar
um sinal muito positivo aos investidores, pela desativação
de uma perigosa bomba fiscal. Seria demais pedir ao Lula uma
reforma trabalhista.
Odemiro Fonseca
é empresário - O Globo, 19, 06, 2008. Instituto
Millenium.
|