““Se não agora, quando?”
( Hillel)
O despertador toca
e você cogita seriamente ignorá-lo. Mas levanta-se, toma banho,
escova os dentes, veste-se e serve-se de um rápido café da
manhã. Talvez apenas café.
No caminho para
o trabalho, seja de carro ou de ônibus, o trânsito enseja
sensações que lembram “O Grito”, de Edward Munch. Parece que
todos resolveram lançar-se às ruas no mesmo instante!
Talvez você avance
um semáforo vermelho, talvez invada a faixa de pedestres.
Talvez seja multado, talvez não. É possível que dê ou receba
uma “fechada” durante uma manobra para mudança de pista que,
embora arriscada, não reduzirá em nada o tempo de deslocamento.
Talvez você seja alvo ou autor de xingamentos. É provável
que chegue ao destino com atraso.
No trabalho, você
cumprimenta laconicamente seus colegas. Muitos papéis aguardam
atenção na caixa de entrada, que será esvaziada e preenchida
seguidas vezes no decorrer do dia. E que terminará novamente
repleta de compromissos. Vários telefonemas para dar, receber
e retornar. Muitos e-mails para ler, responder e ignorar.
Seu superior solicita
urgência urgentíssima num projeto engavetado há meses. Algum
cliente apresenta-lhe uma reclamação qualquer. Você dispara
contra seus subordinados.
Como ocorre em todos
os anos, economistas, analistas, agências de classificação
de risco e empresários desfilaram recentemente suas previsões
sobre o cenário nacional para 2004. Os números apresentados
são muito próximos para os mais diversos indicadores, gravitando
em torno de um ponto médio. É um trabalho de futurologia conjunto.
Linearmente, todos acertam, pois o erro colegiado deixa de
ser erro e passa a ser fatalismo.
O almoço ocorre
fora de horário, no mesmo restaurante e com o mesmo sabor
já industrializado em seu paladar. Talvez você fume um cigarro,
talvez prefira uma bala de hortelã. Talvez os dois.
E assim transcorre
o dia, até o momento de retornar para casa, lembrando-se de
Munch, uma vez mais, durante o trajeto. Talvez você vá até
uma academia fazer ginástica, talvez vá ao conservatório praticar
um instrumento, talvez vá ao shopping olhar vitrinas. Ou talvez
se contente com o noticiário, a novela e o reality show. Até
que o despertador toque novamente, no dia seguinte...
A palavra é:
rotina. Assim vivemos e morremos, dia após dia, percorrendo
os mesmos caminhos, mecanicamente. Assim tornamos nossas carreiras
desestimulantes, nossos relacionamentos insípidos. Desencanto,
alienação e desespero. O prazer e a alegria são raros. E voláteis.
Somos completamente infelizes em nossa infelicidade e brevemente
felizes em nossa felicidade. E estamos sempre aguardando o
dia seguinte, quando tudo o que era para ter sido e que não
foi acontecerá.
Ouço músicas que
gostaria de ter ritmado, leio textos que gostaria de ter escrito,
vejo produtos que gostaria de ter fabricado e conheço idéias
que gostaria de ter tido. Então percebo que tudo aquilo foi
criado por pessoas como eu, dotadas de angústias e limitações,
certamente não as mesmas, pois com origem, intensidade e amplitude
diferentes. Pessoas que se superaram, talvez não o tempo todo,
talvez por apenas uma fração do tempo.
Já falei muito sobre
futuro. Sobre a importância de termos uma visão de futuro,
sobre a capacidade de sonhar, a habilidade de traçar metas
e a disciplina para concretizá-las. E não recuo em meus propósitos,
porque são princípios. Mas inventei para mim uma nova agenda.
Ela não se compra em papelaria, porque nela não se escreve.
Não está disponível em versão eletrônica, porque nela não
se digita. Seu custo é nulo, pois não demanda investimento,
não exige que se tenha um palm, uma caneta, nem sequer alfabetização.
É uma agenda da mente. É uma “Agenda de 10 Segundos”.
A cada amanhecer
tenho a certeza de que aquele é o momento a ser vivido. Em
que pese os planos voltados para o futuro, com os pés firmes
no chão e os olhos no firmamento do céu, a vida está acontecendo
aqui e agora. Por isso, minha agenda não pode contemplar mais
do que os próximos 10 segundos. Talvez breves, talvez distantes,
talvez intermináveis e, talvez, inatingíveis 10 segundos.
Esta consciência
tem me permitido agradecer a cada despertar ao invés de hesitar
em me levantar. Tem me sugerido dar passagem a alguém no trânsito
ao invés de brigar por insignificantes três metros. Tem me
lembrado de dizer “bom dia” aos que me cercam. Tem me incitado
a procurar novos restaurantes e novos sabores durante o almoço.
Tem me proporcionado o poder de resignação e de resiliência
diante das inúmeras adversidades que se sucedem. Nem sempre
tem sido assim. Mas assim tem sido sempre que possível.
Fundamentalmente,
a Agenda de 10 Segundos tem me ensinado a agradecer, a elogiar,
a perdoar, a me desculpar, a sorrir e a amar no momento em
que as coisas se dão. E isso possibilita amizades fortuitas
que se tornam perenes, negócios de ocasião que se tornam recorrentes
e paixões de uma única noite que se tornam amores de toda
uma vida.
Sobe
Tom Coelho,
com graduação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP
e especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de
Vida no Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário, consultor,
escritor e palestrante, Diretor da Infinity
Consulting, Diretor do Simb/Abrinq e Membro Executivo
do NJE/Fiesp. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
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