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Economistas
evitam falar em moeda única
no
Mercosul
Oxford
Cerca de vinte economistas brasileiros argentinos
e europeus, ao debaterem hoje durante um seminário
promovido pelo Centro para Estudos Brasileiros da Universidade
de Oxford as perspectivas da adoção de uma
moeda única no Mercosul, evitaram em suas palestras
fazer previsões sobre as perspectivas de curto
e médio prazo para a economia argentina após
a recente operação de swap (troca de títulos)
arquitetada pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo.
Nos
bastidores, no entanto, os acadêmicos brasileiros
não esconderam o seu forte pessimismo com o futuro
de curto e médio prazo da Argentina e, em
menor dose, da economia brasileira. Já os argentinos,
extremamente cautelosos, afirmaram em geral que o seu país
poderá superar a turbulência mantendo o sistema
de conversibilidade cambial.
Num
terreno mais seguro, os participantes do seminário
"Rumo à convergência macroeconômica no
Mercosul? Lições da União Européia"
arriscaram apresentar aos colegas alguns palpites sobre
a possível adoção de uma moeda única
para o Brasil, Argentina, Uruguai, Uruguai e Paraguai. A
opinião consensual é de que, caso a moeda
única seja adotada, isso ainda vai demorar muito
tempo, pois os países do bloco ainda têm um
longo caminho rumo a uma maior convergência econômica.
Entre
os otimistas, o economista Fábio Giambiagi, do Banco
Nacional de Econômico e Social (BNDES), acredita que
a discussão da união monetária poderá
migrar dos debates acadêmicos para os gabinetes oficiais
a partir de 2005 e que a união monetária poderia
ser realizada por volta de 2015. Já os mais pessimistas
ainda não conseguem vislumbrar um cronograma para
a moeda única diante das disparidades econômicas
e sociais entre os países do Mercosul e da necessidade
de políticas macroeconômicas consistentes e
estáveis.
Segundo
o economista Arturo O´Connel, do Centro de Estudos Avançados
da Universidade de Buenos Aires, as economias da região
ainda são extremamente frágeis, com pesados
déficits de conta corrente, largas dívidas
externas e pouco espaço para adoção
de políticas macroeconômicas convergentes.
"Na verdade, é difícil ter qualquer tipo de
política na atual conjuntura", disse O´Connel.
Já
o ex-economista-chefe do Banco Central da Argentina, Andrew
Powell, disse que o projeto de uma moeda única é
"de longo prazo" e que o processo de convergência
entre os países é um passo necessário
ainda a ser alcançado.
Moratória branca
Ao
analisar a atual situação da Argentina, Rogério
Studart, economista brasileiro da Comissão de Economia
da América Latina (Cepal), disse à Agência
Estado que o swap argentino "eqüivale a uma moratória
branca". Segundo ele, que fez questão de ressaltar
que tratava-se de sua opinião pessoal e não
do Cepal, a situação Argentina "não
tem saída" e que a crise deve voltar a se agravar
no futuro. "O país precisa de capitais externos,
precisa retomar o crescimento, e a conjuntura para isso
é totalmente adversa", disse Studart. Ele disse também
que a moeda brasileira, o Real, deverá continuar
a sendo pressionada nos próximos meses. "Temos uma
conjuntura interna e externa desfavoráveis", afirmou.
"O
fim do recente ciclo virtuoso da economia brasileira - que
aliás foi resultado de muita sorte por parte do Banco
Central foi selado com a redução do
fluxo de investimentos diretos no país que estavam
ancorados nas privatizações e a necessidade
do BC de reverter a tendência de queda de juros diante
da pressão cambial." Outro economista brasileiro,
Fernando Ferrari Filho, da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, também não esconde seu pessimismo
em relação as perspectivas de médio
prazo da economia brasileira. "Com esse déficit de
conta corrente, o país precisa implementar uma eficiente
política de longo prazo de estímulo das exportações
e de atração de investimentos." Se a perspectiva
de uma moeda única ainda é um objetivo distante,
pelo menos a sobrevivência do Mercosul que
foi intensamente questionada no bojo da atual turbulência
argentina não está ameaçada.
Segundo a maioria dos economistas, o bloco pode ainda estar
engatinhando, com resultados aquém dos previstos
quando de sua criação na década passada,
mas vai sobreviver mesmo que com sérios problemas
e eventuais retrocessos.
João Caminoto
Transcrição:
O
Estado de São Paulo, Junho, 12/2001
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