Uma das experiências
de maior angústia que recaem sobre determinado ser humano, é quando
o mesmo descobre que apesar de usufruir de determinado relacionamento,
não conseguiu efetivamente eliminar o problema da solidão. A sensação
primeira é sentir que não se tem o que se merece, causando ansiedade
e total desconforto pessoal. A primeira e básica lição para qualquer
tipo de relacionamento, é expor a insatisfação, sendo este ato
uma prova de real amor, pois abre a porta para que ambas as pessoas
reflitam sobre o desafio de estar com alguém e manter a chama
do prazer. A falta do diálogo franco e profundo, apenas aprisionam
ambos nos fantasmas da carência e insatisfação generalizada. Toda
vivência negativa deveria ter o intuito de transformar determinada
barreira em um novo caminho de evolução da relação. Infelizmente
preferimos perder nosso companheiro para uma trama mal resolvida
do inconsciente da pessoa, renegando por completo o potencial
criativo e a coragem de mudar. Como é extremamente fácil perder
aquela habilidade ou fidelidade em admirar o outro. O fato é que
a maioria dos relacionamentos, provam a dificuldade de se encontrar
pessoas que realmente caminhem juntas, no mais profundo de suas
almas e atitudes.
O leitor irá indagar
sobre qual é o maior problema histórico que incide sobre determinada
relação, destruindo seu conteúdo. A resposta é que as estratificações
sociais se reproduzem em todos os relacionamentos, criando classes
sociais, assim como nos aspectos econômicos. Temos então o rico
e pobre, sendo este último um total dependente afetivo. A tensão
destes opostos irá produzir um combate interminável dentro da
relação. Um outro aspecto desta questão é o problema do narcisismo,
pois quando observamos a vaidade em determinada pessoa, ou a segurança
que a mesma demonstra emitir, este processo não deixa de ser a
retirada da energia do outro para benefício próprio. Este é o
sinal mais marcante de nossa era; a competição incessante para
testar quem realmente detém o poder em todas as frentes.
A solidão sentida
a dois, não deixa de ser uma espécie de teste sobre o que mais
sentimos ao lado de alguém: ansiedade, desejo de fuga, desprezo
ou rejeição. A armadilha não é a exposição constante perante tais
sentimentos negativos, mas como disse acima, a incessante negação
dos mesmos. Deveríamos estar cônscios de que uma relação eternamente
será uma dualidade ou um conflito de opostos, nunca algo linear
de prazer que possamos pegar quando nos sentimos famintos. A busca
histórica da beleza se encaixa neste contexto, pois tem a função
de entorpecer a própria pessoa, sendo mais fácil admirar um objeto,
do que uma introspecção diária sobre as dificuldades de como lidar
com nossos sentimentos. Uma atitude amorosa implica em pensarmos
sobre o que devemos doar ao outro; o que o mesmo necessita perante
seu histórico de vida, seus desejos acumulados, frustrações e
outras coisas. Qual ponto pode libertar a pessoa ou então a reforçar
em seu cárcere pessoal e emotivo?
Um dos grandes problemas
na vida a dois, é o desprezo quase absoluto perante a intuição.
Todas as pessoas queixosas de seus parceiros, perceberam outrora
que havia algo de errado, porém rejeitam os indícios, precisamente
pelo apego, poder e medo da perda. Não se trata aqui de pregar
uma separação ao primeiro sinal de problema, mas a importância
de se debelar as armadilhas citadas anteriormente, pois a dualidade
é um dos constantes companheiros do relacionamento, e sua negação
apenas reforça sua intensidade. Uma das últimas coisas genuinamente
humanas que ainda somos obrigados a sentir, é a capacidade de
compaixão pelo sentimento de solidão ou incompletude do outro,
e conseqüente capacidade de perceber suas necessidades, e quanto
isto afeta nossa vida íntima. Quase todos procuram se defender
numa rotina diária de vida ou até mesmo sexual, para não lidar
com o problema da carência básica do companheiro. A histórica
falta de diálogo numa relação é o mais puro fruto de tal fato;
ausência perante o dilema do outro. Isto é lamentável, pois uma
das maiores alegrias humanas é justamente lidar abertamente com
tais pendências pessoais. O sentido máximo do conhecimento e até
mesmo da psicologia é justamente a possibilidade do alastramento
para novos horizontes, nunca o confinamento em determinada neurose.
A pergunta que dificilmente
conseguimos responder é : qual a maior ofensa produzida pelo companheiro
no decorrer da relação? Falta de companheirismo, sexo, intimidade,
cumplicidade, humor, diversão, dentre outras. Pode ser que sejam
todas as alternativas, porém, o ponto central seria : No que nos
deixamos de transformar devido a omissão de alguém, somada nossa
indolência reflexiva? Uma escolha totalmente infeliz de um parceiro
significaria não apenas uma necessidade de mudança, mas a imposição
da dor como último recurso do resgate dos reais anseios da pessoa.
Alguém que se encolheu a vida inteira, certamente precisará do
tratamento de choque para começar a enxergar determinados processos.
A solidão a dois é a prova de que a busca de determinada pessoa,
apenas diz que se trata de uma tarefa demasiada pequena perante
os desafios emocionais futuros. Somos quase que totalmente desprovidos
da ambição no terreno emocional, já que deixamos todas as tropas
no lado econômico.
A solidão é um dos
instrumentos mais preciosos da medida e localização de nossas
dependências; sejam as mesmas emocionais ou de qualquer outra
categoria. Neste ponto, podemos inferir que o próprio ciúme não
é apenas a desconfiança, mas uma certeza que se transforma em
algo mórbido, por percebermos que o outro pôde ou poderá não apenas
atingir maior satisfação e poder sobre nós, mas, que em síntese,
soube lidar melhor com seus complexos de rejeição e inferioridade.
O ciúme é o irmão gêmeo univitelíneo da inveja, apenas as rotas
tomam direções opostas. O primeiro é constantemente demonstrado,
fazendo com que a pessoa se vicie em autocomiseração e medo constante;
no segundo caso, há a completa omissão do sentimento, restando
uma torcida inconsciente para que o parceiro fracasse em seus
empreendimentos, se nivelando na miséria afetiva do outro.
O desejo de uma
romantização acentuada e infantilizada dentro de um relacionamento,
sempre representa uma fuga da reflexão de que o mesmo pode acarretar
uma intensa solidão a dois. Nos dias atuais, nos deparamos com
uma contradição absurda: por um lado nos vemos frente a horrível
sensação de não termos ninguém, e cairmos doentes nas várias neuroses;
paralelamente, temos receio de investirmos profundamente numa
pessoa que mais tarde contrarie nossos desejos, optamos então,
não pela entrega, mas na fixação imaginária de modelos passados
de satisfação ou até mesmo de dor. Quantos realmente almejam abandonar
seu inferno privado? Se sabemos que nossos sentimentos estão extremamente
contaminados, deveríamos proceder uma filtragem dos mesmos. A
mesma se daria na coragem de pensar, e principalmente quando ambas
as pessoas viessem para uma relação sem projetos fechados.
Uma separação se
torna necessária quando descobrimos que o parceiro têm uma necessidade
interna de independência perante nossos desejos. Neste ponto há
a morte plena do relacionamento. Sem dúvida, esta é a experiência
mais dolorosa da solidão a dois. Cedo ou tarde descobrimos que
sonhar é esperar alguém habilitado para satisfazer nossos desejos,
insisto nesta questão novamente, por se tratar do desafio máximo
na nossa sociedade egocêntrica. Apenas mostramos a vaidade e poder,
ao invés da compaixão e ajuda perante alguém. A entrega causa
medo e sentimento de inferioridade. Qualquer pessoa um pouco madura
já percebeu que a estratificação de sua personalidade ocorre após
uma terrível experiência de perda, e no que se transformou após
o ocorrido. A maturidade é o modo como lidamos com a dor, e a
pessoa liberta é a que enfrenta abertamente sua carência, ao contrário
daqueles que são meros colecionadores de imagens passadas.
Todos dizem que
buscam alguém para envelhecer em dupla; dividir momentos de prazer
e dor; que a beleza acaba cedo, sendo o importante a essência
da parceria. Embora tudo isto seja correto, o fato é que a "eternidade"
de um relacionamento é mensurada na capacidade de ambos proverem
continuamente novas experiências, sendo constantemente criativos
perante os desejos e potencial do outro. O preço máximo a ser
pago por nosso consumismo econômico é atrair parceiros descartáveis,
causando no final a perda da libido existencial. Se até o presente
momento a humanidade foi absolutamente incompetente para produzir
um modelo econômico sem miséria material, seria absurdo pensar
que não sofreríamos a miserabilidade afetiva e psíquica. Não se
trata de politizar em cima de um assunto afetivo, mas concluir
que qualquer processo individual é fruto de um todo onde cada
um se insere. Ninguém almeja a solidão que é a prova máxima da
desumanidade, mas quase todos se iludem ao pensarem que estão
acompanhados.
Enfim, uma das coisas
primordiais para efetuarmos uma tomada de consciência profunda,
é o percebimento sobre qual tipo de imagem que ambos os parceiros
formaram no transcorrer da relação: pai, amigo, companheiro, terapeuta,
dentre outras. Esta tarefa parece um tanto óbvia, mas é espantosa
a omissão das pessoas perante tal fato. A busca pela segurança
e estabilidade são o maior obstáculo para o crescimento em conjunto.
Não apenas as imagens passadas mudam, mas também há um incessante
bombardeio por novas expectativas e possibilidades. Amar não é
um treino, um dom, ou um esforço, mas a junção sincrônica de desejos
e atitudes, liderados pela motivação da criatividade permanente;
amar é a responsabilidade pela evolução do outro, pois gostemos
ou não, nossa admiração funciona como na esfera profissional,
sendo não apenas maior ganho material, mas principalmente a plena
satisfação. Temos o vício mais do que milenar de admirar o maior
e exercer o poder cruel no menor, assim sendo, falta a distribuição
de potência em todos os níveis, e obviamente pessoas que desejem
usufruir da mesma.
"Temer qualquer
contato ou ajuda profissional, é viver numa espécie de culto ao
sofrimento".
Sobe