Um dia...ela começa,
mas não
se sabe quando nem como
A
separação inicia seu processo de forma lenta. Os
desgastes e os desencantos vão sendo inoculados no cotidiano
de um casal,
ocupando gradativamente os espaços, que antes em algum
tempo, era ocupado pela magia e pelo encantamento. Em um momento
já distanciado da lembrança, o espelho de cristal
partiu-se. Emendar espelho é impossível. A imagem
refletida é uma imagem partida, dividida e cheia de desfigurações
e distorções. A crise
conjugal!
Cabe lembrar que
acontece tanto com a mulher quanto com o homem. Quem começou
o quê? A resposta a esta questão
não tem a menor importância, até mesmo porque
ela inexiste. Alguma coisa que aconteceu a primeira vez, da segunda
em diante não deu pra sentir muito a diferença ou,
logo na primeira, toda diferença dentro da relação.
A cada rachadura, o espelho diminui o espaço para refletir
uma imagem inteira do par.
Dessa
forma cabe até pensar que não foi o amor que acabou-se
e sim o espaço para o amor. No cotidiano o espaço
para o namoro e para a sedução vai se estreitando
de tal forma que o amor, sem escolha, vai ficando escondido em
vãos inatingíveis. Acabando por tornar-se um fantasma,
uma transparência em sépia.
Aí, um dia fica até parecendo que foi de repente,
não mais que de repente, que a convivência
se tornou um tormento; o menor dos detalhes assume enorme proporção.
O som do chaveiro na mão dele, a forma como ele fala. O
primeiro vira barulho e o segundo um grunhido. O novelo vai ficando
cada vez maior e mais emaranhado. Insuportável.
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Acompanhando
todo o processo vem vindo a fuga da cama, da vida a dois. A libido
toma outros caminhos ou procura alguém que quando está
falando seja ouvida como uma fala de verdade e não um grunhido
ou tenha som de um animal ameaçando morder. A auto-estima
cada vez mais presente e atormentadora. Inquietações,
taquicardia, processo de ansiedade, quando não, em situações
mais dramáticas, somatização mais grave.
Sensação de desamparo de solidão. Muita solidão
e abandono.
Será que é fácil para todas as mulheres identificar
esses sintomas como “a hora do chega” ?
Tudo se confunde com uma crise na relação, pressão
financeira e profissional. Também isso posto no liquidificador,
o casal perde o referencial como participantes de uma vida em
comum. Cada um passa a viver como se não pudesse contar
com a colaboração e participação do
outro. Nesse processo, as partes vão se distanciando cada
vez mais. Antigamente, as conversas cúmplices; os olhares
decodificadores dos sentimentos não mais se alcançam
e se desviam.
Ao contrário do que fica-se pensando é que o sofrimento
é unilateral; nem sempre. Muitas vezes as duas partes estão
vivendo o mesmo sentimento com a grande e importante diferença:
não estão compartilhando.
Pelo lado do homem, a situação é muitíssimo
mais complicada, visto que, em geral o homem costuma ( ou
foi obrigado culturalmente ) fechar-se em concha; ao contrário
do que costumamos imaginar, o sofrimento deles é mais doloroso
porque em silêncio, tudo dói mais.
Para nós mulheres, é mais fácil nos abrir
no ombro de uma amiga, ou um amigo muito especial. Já os
homens, quando chegam a assumir o sofrimento conjugal é
porque está vivendo uma situação asfixiante,
visto que por suas dificuldades em expor sentimentos, eles acabam
por isolar-se dentro de si mesmos. Essa é uma das heranças
malditas da educação e da cultura do "homem não
chora". Quase sempre os homens, principalmente aqueles homens
sensíveis, saem da relação mais frustrados
do que nós mulheres; claro que isso não é
regra, como também seria perigoso afirmar que nós
mulheres saímos mais magoadas.
Conseqüência dessa mesma cultura, na relação
conjugal, a mulher, quase sempre é - apenas para não
ser tão radical - quem se esforça para manter
a comunicação relacional em equilíbrio. Mas
quando vem o cansaço do esforço repetitivo,
cessam as possibilidades para reverter a situação.
Será mesmo apenas mais uma crise? Como diagnosticar a separação
iminente que tantas vezes se tenta mascarar como "apenas uma crise"
?
Que fazer?
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Texto extraído do livro O homem nosso de cada dia,
a ser publicado.