Temos
de reconhecer que em nossos tempos atuais, um dos maiores dramas
vividos é à busca do parceiro (a) ideal, que nos
preencha ou nos traga a satisfação ou felicidade
esperadas, dando um sentido mais amplo às nossas vidas
tão monótonas. Infelizmente tal busca acaba sendo
uma das mais árduas tarefas da nossa existência,
rodeada de conflitos de toda espécie. Uma reflexão
profunda é mais do que urgente, no sentido de nos conscientizarmos
sobre o que afinal de contas estamos buscando, pois sempre falamos
de troca, amor, amizade, companheirismo e cumplicidade, mas parece
que cada vez mais atraímos disputa, indiferença,
ausência, mágoa e principalmente incompletude.
Em determinada
altura, podemos até dizer que de um relacionamento, se
instala um mecanismo automático da divisão do pior,
ou uma espécie de ousadia para com o outro, forçando-o
a vivenciar os mais obscuros elementos da personalidade humana
como forma de testar os limites da pessoa. Obviamente todos fracassam
nesse ponto, pois tal fato é o cerne da relação
do mais puro poder entre os seres humanos, e a divisão
do que seria o melhor fica totalmente comprometida por um dos
lados achar consciente ou inconscientemente que o outro não
é merecedor da plenitude amorosa, lhe passando então
toda uma mensagem diária de sofrimento e angústia.
Viver
junto com alguém jamais é uma prova de amor, esta
última se manifesta principalmente no combate ao desinteresse.
Já está mais do que na hora de admitirmos que a
busca da satisfação amorosa e sexual quase sempre
é suplantada por elementos destrutivos, sendo a autocomiseração
seu expoente máximo. Se observarmos atentamente nossa realidade
social, não será nada difícil a confirmação
de tal fato, pois constantemente somos apanhados pelo mecanismo
não apenas da queixa, mas um prazer interno na vitimização
ou sacrifício de nossos mais altos desejos, nos tornando
mártires frente ao outro. Obviamente esse traço
religioso impregna nossas almas, e acabamos nos reconfortando
com o mesmo às custas de nossa evolução afetiva
e espiritual.
O reconhecimento
de que elementos destrutivos e paranóicos operam numa relação
é fundamental para um constante diálogo entre dois
seres que almejam principalmente serem bem sucedidos em sua empreitada
amorosa. A questão do amor jamais deveria ser usada como
elemento propagandístico ou de um fundo religioso, pois
é desvirtuar o maior potencial humano, e infelizmente a
tendência à divinização do mesmo nada
mais é do que uma compensação pela recusa
de sua doação. Sempre será mais fácil
amar uma entidade do que testar esse mesmo potencial com alguém
ao nosso lado. Preferimos a destrutividade em detrimento das coisas
darem certo, e sabendo de tal fato ainda continuamos absolutamente
impotentes e inoperantes.
Ausência,
desinteresse, indiferença, imobilismo, quais destes processos
acabamos reforçando diariamente? Assim como no campo econômico
e social, infelizmente temos três categorias de relacionamento:
1) a absoluta miséria afetiva;
2) uma relação sempre
conturbada pela disputa de poder e mágoa;
3) alguns poucos privilegiados que
tem acesso à satisfação plena e prazer a
dois.
O que
quase ninguém percebe, é que nesse campo afetivo
a mudança de uma categoria para outra depende exclusivamente
dos recursos pessoais de cada um, sendo talvez uma das raras vantagens
que estão a nossa disposição na sociedade
demente em que aceitamos viver. Por fim, gostaria de discutir
um dos aspectos mais penosos de uma relação, que
se trata da mágoa. Esta passa a ser o elemento mais devassador
do outrora espírito amoroso, restando apenas o rancor,
revolta e ódio em relação à determinada
experiência afetiva.
Fazer
alguém sentir os mais abjetos sentimentos humanos como
a mágoa, por exemplo, é a mais clara demonstração
do lado obscuro do poder sobre outro ser humano, lhe retirando
totalmente seu poder pessoal e direito de vivenciar experiências
realmente gratificantes.
A questão
do perdão se insere neste contexto, pois quem dá
ou o recebe está exercendo da forma mais pura o poder sobre
o outro, sendo que muitas vezes nos esquecemos de refletir até
que ponto determinada relação já não
se exauriu por completo, restando apenas elementos nocivos a saúde
afetiva de ambos.
A perseverança em determinada
relação não aborta novas possibilidades para
ambos os parceiros?
Nesse exato ponto podemos falar de
uma nova tentativa ou apenas o mais puro exercício da posse?
Creio
que todas as questões levantadas deveriam ser objeto quase
que diário de discussão e reflexão entre
dois seres que buscam não apenas viverem juntos, mas, sobretudo
o eterno desafio da satisfação mútua e concomitante
sentimento de se sentirem especiais por estarem com alguém
que a cada dia renova o sentido da sua existência e inserindo
o prazer na mesma.
ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO-
PSICÓLOGO
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