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Violência
psicológica
Por
Maria da Penha Vieira
Consultoria
crítica: Dr.
Gilberto Hauer
11,
Maio/2001
Tem
sido dado ênfase à violência doméstica
que atinge as mulheres, na forma física. Acontece que,
absolutamente mais comum e infinitavemente mais danosa é
a violência psicólogica, que não acontece
apenas no ambiente doméstico sendo que esta, por ser
continuada no tempo, até mesmo sem ser identificada pela
vítima, é a forma de abuso mais difícil
de ser identificada, porque não deixa marcas evidentes
no corpo ( exceto talvez, uma postura corporal ). A agressão
psicológica pode ficar camuflada em doenças alérgicas
e auto-imunes.
Ela é
comumente camuflada pela sutileza das relações intra-familiares
mas causa sofrimento e conduz a mulher à alterações
de comportamento, postura corporal e/ou reações
psicossomáticas. Ainda o fato de esta mulher, acossada,
diminuida em sua autoestima, repassar aos filhos, o amargor, mesmo
que involuntária e inconscientemente levando à perpetuação,
igualmente perversa ao criar modelo deste tipo de violência
na vida adulta dos filhos.
O abuso
psicológico também permeia todas as outras modalidades
de abuso e isto é o mais dramático, pois exacerba
o nível de possibilidades de toda a família em apresentar
distúrbios de ordem psicológica adentrando nas suas
relações afetivas, dificultando-as. O acúmulo
da vivência desse tipo de violência, faz elevar os
índices de freqüência aos hospitais psiquiátricos,
elevar globalmente o nível de disturbios mentais, bem como
elevar o índice das estatísticas dos suicidas.
Pode-se
considerar que essa forma silenciosa de violência, vivida
pela mulher casada no seu cotidiano, é pouco ou nada considerado
até agora. Mas essa violência não acontece
apenas com as mulheres, muito mais às crianças e
adolescentes, vítimas mais disponíveis.
No caso
das mulheres casadas, consideramos que se de um lado existe o
criminoso, em geral o marido, agindo através do poder financeiro
e econômico, cultura do ciúme e mais atual, a evitação
da independência da mulher no imaginário que está
em formação, da ascendência profissional vista
como concorrência, do outro lado está a própria
mulher que, principalmente, se ama o marido, aceita a posição
de vítima como uma demonstração de amor.
Com certeza não é difícil alcançar
que o poder econômico e financeiro do marido pode servir
de alavanca da medida e do grau de dependência financeira
da mulher em relação ao parceiro.
Esta
mulher casada, que ama o companheiro, quando vítima de
atrocidades psicológicas tende, quase sempre ao sentimento
de culpada, invariavelmente. Ou não consegue identificar
a capacidade do companheiro em arquitetar e manietar. Sente-se
confusa pois não acredita na possibilidade de intenção
e mesmo não acreditam ser esta, uma forma de violência.
Não acredita que o marido a está fazendo sofrer
deliberadamente fazendo-a sentir o sabor do poder que ele detém.
A "confusão"
sentida e vivida pela mulher vítima de atrocidades psicológicas
reside, na maioria das vezes, no equívoco de "confundir"
os sentimentos. Desvalia, ódio, rejeição.
Esta mesma mulher que pensa que ama, pode não amar o marido.
Muitos outros motivos podem estar contribuindo para que ela viva
o sentimento de "confusão". Medo
de encarar outra realidade que ela pensa ser mais difícil,
que ela pensa que não vai conseguir alcançar. O
medo da separação, do divórcio. O medo de
ter "fracassado" no seu casamento e por fim, também
a possibilidade de ela confudir-se no sentimento de culpa e perder-se
no desconhecimento da auto-punição ou auto-destruição.
Essa
violência pode estar sendo demonstrada através da
ridicularização do físico mulher - gorda,
magricela, pele e osso, velha, relaxada, não capaz de ganhar
dinheiro para ajudar a família etc - da incapacidade intelectual
- burrinha, desinformada, fora da realidade. Atitudes constantes
de censura, pressões, cobranças, comparações,
a exemplo.
Pode-se
considerar que a forte pressão psicológica alcança
características de tortura quando movida por objetivo
definido da qual a vítima é o meio. Muitos exemplos
poderiam ser extraídos. O marido que premeditadamente
força a pressão psicológica até
que ela chegue a atingir níveis insuportáveis
pela vítima que cede diante da fragilidade psicológica
e emocional. Esse objetivo pode ser, conseguir o descrédito
da mulher ao ser considerada mentalmente incapacitada para administrar
patrimônio, por exemplo. Outro tipo de tortura com objetivos
de conseguir informações; essa seria a tortura
política e objeto de outro enfoque.
A Organização
Mundial da Saúde (OMS) reconhece a violência
doméstica como um problema de saúde pública,
pois afeta a integridade física e a saúde mental.
Os efeitos da violência doméstica, sexual e racial
contra a mulher sobre a saúde física e mental são
evidentes. Em geral mulheres vítimas de agressão
doméstica são assíduas nos serviços
de saúde e suas queixas quase nunca são expressas
com exatidão. Por receio ou vergonha, buscam sempre minimizar
o fato ocorrido.
O caminho
percorrido pelas mulheres vitimadas via de regra, passam pelos
pronto socorros, ambulatórios e hospitais das redes, municipais
ou estaduais que por falta de preparo não diagnosticam
as ocorrências adequadamente, ou seja, classificando-as
como violência doméstica. Não sendo assim,
a violência doméstica não é entendida
como problema de saúde e além do que a magnitude
do problema sequer chega a ser identificada como uma questão
social. Da mesma forma, ou por isso mesmo, pode ser considerada
uma omissão da responsabilidade que devia caber às
instituições da área de Saúde. Pela
total incapacidade do poder público, este não habilita
profissionais para atendimento qualificado e efetivo.
Violência
doméstica, entendida como saúde pública,
necessita de séria análise no que concerne às
perdas econômicas, para o país, decorrentes da população
atingida. As repercussões e seqüelas geradas pelo
alto nível de violência doméstica provocam
ausência do trabalho, portanto, diminuição
do PIB, tendo em vista que este é medido pela capacidade
de produção do trabalhador.
Maria da Penha Vieira
Consultoria crítica:
Dr. Gilberto Hauer
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