August 14,
2003 2:02 AM, visitei meu vizinho Eliakim Araujo no www.diretodaredacao.com
e me emocionei com o artigo-homenagem
publicado no dia 13/Agosto ,
daquele jornalista ao pai recém-falecido.
Eliakim iniciava
o artigo falando sobre a dúvida de expor fatos da vida
pessoal. Foi ótimo que ele não tivesse escondido nem a
dor nem o artigo. Se o tivesse feito eu não teria
essa oportunidade para reflexão tão oportuna
e necessária.
Não me lembro em
que parte do texto, uma frase me deixou com a sensação
de estar lendo o que não será escrito um
dos meus filhos escrevendo. A frase deixou-me a sensação
exata de onde começa o medão de saber que nós pais e mães
findamos antes da morte física. Essa constatação foi a
mais difícil de encarar.
Escreve Eliakim
Araújo, referindo-se ás constatações
dos jovens em relação aos pais '...
começamos a questionar seus conhecimentos.'
Recordei o mesmo
que me aconteceu, quando jovem adulta, sabichona, quando
ninguém mais tinha competência para ser meu dicionário.
Pensei na minha mãe. Ela sempre sabia sobre tudo, conhecia
palavras difíceis e sofisticadas. Tinha sempre um vocabulário
rico e farto, por exemplo.
Minha reflexão
acontecia em frames. Meu filho mais velho, Enio,
ainda bem criancinha, me vendo exercitar o violão clássico,
no tempo entre um assado no forno e o tempo da máquina
de lavar roupas. Mais tarde, quando ele quis estudar guitarra,
disse-lhe que só com um bom professor de violão, para
começar antes de pegar na guitarra. Tempos depois, muito
mais tarde eu o ouvia e via exercitando as escalas, madrugadas
habituais. Certa noite ele me confessou que ficava admirado
com minha paciência para repetir a leitura da mesma pauta
inúmeras vezes, revisitando as escalas até cansar e agora
era ele.
Já sabido, brincando
com todas as escalas no estilo ´mamãe eu já sei tocar´,
negava-me qualquer intrusão quando se falava de música,
no gênero rock, que eu pensava conhecer tão bem. Pateticamente
descobri, não conhecia assim. Ele já sabia mais do que
eu. A mãe dele parara no tempo e ainda se esquecia do
que já soubera.
Uma excelente forma
de não permitir o distanciamento geracional era acompanhá-lo
a passos largos. Passei ler todos os livros que comprava
para ele. Vivi aquela época do início do punk, conhecia
alguns nomes de músicas mas meu filho sempre sabia detalhes
fantásticos. Esmerei-me em leituras biográficas. Comi
o BRock do Dapieve, Kill me, please,
treli Kerouac, tratei de me afinar com Kassia Eller, Zeca
Pagodinho, todas as novas bandas internacionais, relembrar
RPM e, por aí fui até pegar os fios das novas meadas.
Certo dia, conta
muitos anos, sai para comprar a biografia do Jim Morrison,
traduzida em Portugal e cujo último exemplar da livraria
eu adquirira. Saí da livraria e me dirigi a outra, catando
outros títulos. Enquanto eu bisbilhotava as prateleiras
ouvi alguém perguntar ao dono da livraria pelo mesmo título
que eu havia adquirido há apenas uma hora antes, em outra
livraria. O interessado, por coincidência era o Bonfá,
baterista do Legião Urbana com o qual troquei algumas
informações sobre o livro de interesse comum aos dois
e, naturalmente, eu nunca havia me interessado pela existência
da banda, até aqui. Para falar a verdade, só soube
com quem havia conversado depois que relatei o fato ao
Enio.
Pela via do encontro
acima, meu filho Enio me apresentou á música de Renato
Russo que, de início, só me interessou por
ter gravado country. Completei o presente ofertado
com uma relativa amizade que fiz com o Renato. Vez por
outra nos falávamos por telefone. Mas o terrível, eu não
sabia que falava com o Renato já nos últimos dias de vida.
A morte dele, para total espanto do meu filho músico,
pegou-me de "surpresa". Chorei sentidamente, como se pudesse
recuperar o tempo para estreitamento daquela amizade que
não pode acontecer por inteiro.
Tenho buscado no
presente trabalhar todas as possibilidade de continuar,
nos futuros dias, com o mínimo de distanciamento geracional
junto aos meus filhos, os dois, músicos. Tudo para
não ficar para trás, tudo para que possamos manter os
vínculos, para que possamos ter sempre sobre o quê conversar.
A troca contínua. Primeiro eu havia apresentado o BRock
e a coluna do Arthur Dapieve ao Enio. Tanto meu filho
quanto os amigos músicos, naquela determinada época passaram
a acompanhar as colunas do Arthur com visível interesse.
De lá para cá, até hoje, o Segundo Caderno de O Globo,
toda Sexta-Feira some e vai para a coleção dele.
Pelo lado do Enio,
ele nunca deixa de trazer um clip e me convidar para vermos
juntos e comentarmos as qualidades da banda que estejamos
analisando. É sempre assim. Quero dizer quase sempre.
Dia desses, ele
desencavou um clip do Ig Pop que eu já nem imaginava que
ainda estivesse vivo ( e gostoso como ainda está
). Passamos horas falando sobre os fatos da ´era´.
Na verdade é ao
meu filho Enio, que recorro para lembrar-me de determinada
passagem da história do rock ou um nome que não mais me
aflora á memória com a mesma fluidez de outrora. Chip
sobrecarregado e problemas de certidão de nascimento.
Mas os riscos de
´traições´sempre existem. Meus preciosos discos de vinil
se amontoam no meu escritório, depois de fulminante ataque
de cupins. Poucos se salvaram de ter os sulcos obstruídos.
Um desses é do Robert Johnson e que nem de longe me lembrava.
O filho conseguiu passar uma faixa do vinil para CD e
depois para MP3. Como surpresa ele salvou na área de trabalho
do computador. Numa dessas noites, enquanto eu varava
a madrugada, ele veio até meu escritório e pediu um tempo
no pc. Surpresa! O violão machucado gemendo de Hellhound
On My Trail preencheu todo silêncio da noite.
Minha empolgação
foi tanta que falei para ele que iria enviar para o Arthur
Dapieve e bestamente perguntei: será que o Arthur
conhece essa versão? Meu filho responde com a maior piedade,
claro, mãe, o quê você pensa? O Dapieve conhece tudo.
Mas eu pensava
...isso é tão antigo, ainda em vinil..
Não paga mico, mãe, o Dapieve conhece, mãe.
`Mãe` não resistiu
e resolveu pagar o mico no dia 15/Agosto. Pagou
caro. Ligo para o Arthur, a quem já conhecia, claro,
e falo sobre o Johnson, imaginem! Arthur ouve quieto,
elegantemente. Preferia que não tivesse sido elegante.
O normal era dar uma baita bronca naquela que se dizia
fiel leitora. O mais trágico foi dizer ao Arthur que eu
não conhecia a versão original de Hellhound On My Trail,
quando eu não apenas conhecia como tinha o desgastado
vinil.
Dia seguinte, 16,
( Pasmem, foi neste dia e mês
que faleceu Robert Johnson no ano de 1938,
envenenado no dia 14 de Agosto, o dia em que li
o artigo do Eliakim Araújo ) acordo e em cima do
teclado do computador está lá a coluna da Sexta-Feira,
1o de Agosto: Voz do além
O
´bluesman Robert Johnson salva vidas. Só o
título da coluna já provocou um frio na espinha. Se meu
filho já sabia que o Dapieve havia escrito sobre
o Johnson, por que não me avisou ? Esqueceu-se,
disse-me depois e também não achou mesmo
que eu fosse telefonar para o Arthur.
´Mãe, não paga
mico, o cara sabe tudo! ( e eu, também, já sei
tudo, mãe ).
Quem sabe não era
a voz do velho Eliakim, em notas musicais, passando pelas
letras do Arhtur Dapieve e desembocando nas letras do
próprio filho, vindo do além sub-atômico,
avisando a esta tonta e teimosa mãe para render-se ás
Leis Naturais. É assim que sabemos nossa missão
de educar nossos filhos ter sido cumprida e finda: quando
eles sabem mais e melhor do que nós, seus pais.