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Equipe
Executiva : Maria da Penha Veira
Editora: MPV
Rel. Externas : Berta Ataíde
Comercial:
Suzana Bertioga
Animação Flash: Alexandre Canário
Estagiárias: Ana Louvado
Fotografia: Juliana Marafon
Colaboração Especial
Caio Martins/SP
Maria Luiza Curti/MT

 

 

Vozes do Além,
do acaso

 

Maria da Penha Vieira
22, Agosto/2003

 

'...para nos alertar sobre a fragilidade da vida, a vanidade do amor e a proximidade da morte.'
Arthur Dapieve

 

August 14, 2003 2:02 AM, visitei meu vizinho Eliakim Araujo no www.diretodaredacao.com e me emocionei com o artigo-homenagem publicado no dia 13/Agosto , daquele jornalista ao pai recém-falecido.

Eliakim iniciava o artigo falando sobre a dúvida de expor fatos da vida pessoal. Foi ótimo que ele não tivesse escondido nem a dor nem o artigo. Se o tivesse feito eu não teria essa oportunidade para reflexão tão oportuna e necessária.

Não me lembro em que parte do texto, uma frase me deixou com a sensação de estar lendo — o que não será escrito um dos meus filhos escrevendo. A frase deixou-me a sensação exata de onde começa o medão de saber que nós pais e mães findamos antes da morte física. Essa constatação foi a mais difícil de encarar.

Escreve Eliakim Araújo, referindo-se ás constatações dos jovens em relação aos pais '... começamos a questionar seus conhecimentos.'

Recordei o mesmo que me aconteceu, quando jovem adulta, sabichona, quando ninguém mais tinha competência para ser meu dicionário. Pensei na minha mãe. Ela sempre sabia sobre tudo, conhecia palavras difíceis e sofisticadas. Tinha sempre um vocabulário rico e farto, por exemplo.

Minha reflexão acontecia em frames. Meu filho mais velho, Enio, ainda bem criancinha, me vendo exercitar o violão clássico, no tempo entre um assado no forno e o tempo da máquina de lavar roupas. Mais tarde, quando ele quis estudar guitarra, disse-lhe que só com um bom professor de violão, para começar antes de pegar na guitarra. Tempos depois, muito mais tarde eu o ouvia e via exercitando as escalas, madrugadas habituais. Certa noite ele me confessou que ficava admirado com minha paciência para repetir a leitura da mesma pauta inúmeras vezes, revisitando as escalas até cansar e agora era ele.

Já sabido, brincando com todas as escalas no estilo ´mamãe eu já sei tocar´, negava-me qualquer intrusão quando se falava de música, no gênero rock, que eu pensava conhecer tão bem. Pateticamente descobri, não conhecia assim. Ele já sabia mais do que eu. A mãe dele parara no tempo e ainda se esquecia do que já soubera.

Uma excelente forma de não permitir o distanciamento geracional era acompanhá-lo a passos largos. Passei ler todos os livros que comprava para ele. Vivi aquela época do início do punk, conhecia alguns nomes de músicas mas meu filho sempre sabia detalhes fantásticos. Esmerei-me em leituras biográficas. Comi o BRock do Dapieve, Kill me, please, treli Kerouac, tratei de me afinar com Kassia Eller, Zeca Pagodinho, todas as novas bandas internacionais, relembrar RPM e, por aí fui até pegar os fios das novas meadas.

Certo dia, conta muitos anos, sai para comprar a biografia do Jim Morrison, traduzida em Portugal e cujo último exemplar da livraria eu adquirira. Saí da livraria e me dirigi a outra, catando outros títulos. Enquanto eu bisbilhotava as prateleiras ouvi alguém perguntar ao dono da livraria pelo mesmo título que eu havia adquirido há apenas uma hora antes, em outra livraria. O interessado, por coincidência era o Bonfá, baterista do Legião Urbana com o qual troquei algumas informações sobre o livro de interesse comum aos dois e, naturalmente, eu nunca havia me interessado pela existência da banda, até aqui. Para falar a verdade, só soube com quem havia conversado depois que relatei o fato ao Enio.

Pela via do encontro acima, meu filho Enio me apresentou á música de Renato Russo que, de início, só me interessou por ter gravado country. Completei o presente ofertado com uma relativa amizade que fiz com o Renato. Vez por outra nos falávamos por telefone. Mas o terrível, eu não sabia que falava com o Renato já nos últimos dias de vida. A morte dele, para total espanto do meu filho músico, pegou-me de "surpresa". Chorei sentidamente, como se pudesse recuperar o tempo para estreitamento daquela amizade que não pode acontecer por inteiro.

Tenho buscado no presente trabalhar todas as possibilidade de continuar, nos futuros dias, com o mínimo de distanciamento geracional junto aos meus filhos, os dois, músicos. Tudo para não ficar para trás, tudo para que possamos manter os vínculos, para que possamos ter sempre sobre o quê conversar. A troca contínua. Primeiro eu havia apresentado o BRock e a coluna do Arthur Dapieve ao Enio. Tanto meu filho quanto os amigos músicos, naquela determinada época passaram a acompanhar as colunas do Arthur com visível interesse. De lá para cá, até hoje, o Segundo Caderno de O Globo, toda Sexta-Feira some e vai para a coleção dele.

Pelo lado do Enio, ele nunca deixa de trazer um clip e me convidar para vermos juntos e comentarmos as qualidades da banda que estejamos analisando. É sempre assim. Quero dizer quase sempre.

Dia desses, ele desencavou um clip do Ig Pop que eu já nem imaginava que ainda estivesse vivo ( e gostoso como ainda está ). Passamos horas falando sobre os fatos da ´era´.

Na verdade é ao meu filho Enio, que recorro para lembrar-me de determinada passagem da história do rock ou um nome que não mais me aflora á memória com a mesma fluidez de outrora. Chip sobrecarregado e problemas de certidão de nascimento.

Mas os riscos de ´traições´sempre existem. Meus preciosos discos de vinil se amontoam no meu escritório, depois de fulminante ataque de cupins. Poucos se salvaram de ter os sulcos obstruídos. Um desses é do Robert Johnson e que nem de longe me lembrava. O filho conseguiu passar uma faixa do vinil para CD e depois para MP3. Como surpresa ele salvou na área de trabalho do computador. Numa dessas noites, enquanto eu varava a madrugada, ele veio até meu escritório e pediu um tempo no pc. Surpresa! O violão machucado gemendo de Hellhound On My Trail preencheu todo silêncio da noite.

Minha empolgação foi tanta que falei para ele que iria enviar para o Arthur Dapieve e bestamente perguntei: — será que o Arthur conhece essa versão? Meu filho responde com a maior piedade, claro, mãe, o quê você pensa? O Dapieve conhece tudo. Mas eu pensava ...isso é tão antigo, ainda em vinil.. Não paga mico, mãe, o Dapieve conhece, mãe.

`Mãe` não resistiu e resolveu pagar o mico no dia 15/Agosto. Pagou caro. Ligo para o Arthur, a quem já conhecia, claro, e falo sobre o Johnson, imaginem! Arthur ouve quieto, elegantemente. Preferia que não tivesse sido elegante. O normal era dar uma baita bronca naquela que se dizia fiel leitora. O mais trágico foi dizer ao Arthur que eu não conhecia a versão original de Hellhound On My Trail, quando eu não apenas conhecia como tinha o desgastado vinil.

Dia seguinte, 16, ( Pasmem, foi neste dia e mês que faleceu Robert Johnson no ano de 1938, envenenado no dia 14 de Agosto, o dia em que li o artigo do Eliakim Araújo ) acordo e em cima do teclado do computador está lá a coluna da Sexta-Feira, 1o de Agosto: Voz do além O ´bluesman Robert Johnson salva vidas. Só o título da coluna já provocou um frio na espinha. Se meu filho já sabia que o Dapieve havia escrito sobre o Johnson, por que não me avisou ? Esqueceu-se, disse-me depois e também não achou mesmo que eu fosse telefonar para o Arthur.

´Mãe, não paga mico, o cara sabe tudo! ( e eu, também, já sei tudo, mãe ).

Quem sabe não era a voz do velho Eliakim, em notas musicais, passando pelas letras do Arhtur Dapieve e desembocando nas letras do próprio filho, vindo do além sub-atômico, avisando a esta tonta e teimosa mãe para render-se ás Leis Naturais. É assim que sabemos nossa missão de educar nossos filhos ter sido cumprida e finda: quando eles sabem mais e melhor do que nós, seus pais.

 

                    

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