Quando
dei partida para pesquisar o universo da Internet brasileira,
fiquei decepcionadíssima. O deserto era mesmo
sem oásis.
Inicialmente
as pesquisas passaram pelas salas de papo e fóruns
de discussão. A vivência, nestes, foi assustadora.
Nas salas de bate-papo a coisa ficava complicada porque
eu não estava ali buscando parceiros, não
tinha disponibilidade afetiva. Pensava ingenuamente
que poderia se fazer amizades, simplesmente. Quando
descobriam que eu estava fazendo pesquisa a animação
da conversa arrefecia e se tornava enfadonha e sem graça
para meu interlocutor ou minha interlocutora ( sem a
certeza de saber ao certo se era ele ou ela ).
Nesta
fase, o mais curioso foi rastrear o possível
motivo pelo qual as pessoas escolhiam seus nicks e como
processavam suas vivências dentro "daquele
corpo" que lhes conferia "identidade".
( Só para registro: daqui a pouco vai surgir
um livro sobre o assunto que, antes, ninguém
havia pensado ).
O
mais proveitoso desses chats foi conhecer um hacker,
que aqui não posso revelar sequer o nick, claro.
Ele era arroba de um canal bem conhecido e freqüentado.
Acabou que ele me deu o celular dele e nós nos
falamos. Pedi que ele me ajudasse a vivenciar mais a
internet e ele apontou-me um canal só de hackers.
Eu, sequer sabia "mandar" um script esperto
de chat, que eu achava o máximo! Vejam só!
O
caminho para chegar lá parecia uma viela de favela
das brabas. Era preciso ser hacker conhecido ou no mínimo
receber o honroso convite que me foi feito para entrar
no Canal. Dei um duro imenso para chegar ao endereço.
Na verdade levei algumas horas e quando chegava tinha
o acesso bloqueado. Quando consegui chegar lá
( depois de identificado meu IP) , fiquei observando
a sala e depois perguntei se ele estava lá. Tive
que perguntar pois não via o nick pelo qual eu
o conhecia. Muito silêncio enquanto eu via a tela
do salão rolar, o único som era vinha
do meu cd tocando Wall Flowers e os sons dos pings.
Finalmente
me apareceu o fulano. Assustada perguntei-lhe o porquê
daqueles códigos, se eles estavam traficando
drogas. Ele riu muito e mandou um aviso para a sala:
pessoal, tem gente pensando que estamos traficando drogas.
Havia gente querendo trocar senhas de cartão
de crédito por outras coisas. Gente que chegava
e anunciava o que havia conseguido na Rede.
Depois
veio a vez de participar de lista de discussões
onde conheci gente com as quais, até hoje, mantenho
contato. Foi aqui que descobri o quanto a palavra escrita
e lida na tela do computador pode ser perigosa, dura,
desalmada e áspera. Ela provoca equívocos
difíceis de serem esclarecidos depois de cometidos.
Já havia os Ícones das emoções
digitáveis, mas deixava o texto muito sujo para
leitura. Melhor era usá-los nos fóruns.
HP`s
femininas quase inexistiam ( exceções
sempre há e uma dessas poucas, era a HP Casa
da Frô, com poesias amigos e fotos ) e a dos homens
era só de gifs animados e besteiradas. Isso no
Brasil. Lá fora na França, Alemanha, Estados
Unidos e Alemanha era uma festa. Minha tristeza crescia
cada vez mais, por não ver uma robusta população
brasileira na Rede. Foi através de sites comerciais
e HP`s pessoais femininas, do exterior, que comecei
a desenhar o Domínio Feminino.
Do
quê a mulher brasileira precisaria e desejaria
encontrar, no futuro, quando a Rede brasileira começasse
a se interessar por internet, quando estivesse mais
habitada por mulheres? O target já estava definido:
mulheres conscientes politicamente, empresárias,
profissionais autônomas, profissionais liberais,
enfim, mulheres inteligentes.
No
Brasil, nada havia que pudesse me servir para encontrar
respostas. Eram noites e noites insones, com o marido
irritado, os filhos reclamando e pior, pensando que
eu estava "viciada" em computador, em internet.
Resolvi organizar o tempo para meu marido e para meus
filhos e só assim todos me deram sossego, claro.
Mas aqui, o capítulo será outro.
Estávamos
falando da pobreza geral da Internet brasileira lá
pelo ano de 1998. Tínhamos um único espaço
decente que era o WMulher. Graficamente agradável
e com bom conteúdo. Mas não era nada do
que eu pensava em fazer.
Pensei
em conteúdo mais robustos, reportagens, entrevistas
generosas, longas e onde as informações
permanecessem e nenhuma baixaria, nada de apelos medíocres.
O que eu sentia ao ler artigos na internet, mundo afora,
era uma sensação de curteza, preguiça
de escrever, de aprofundar. Depois, muita coisa assinada
por profissionais das áreas sobre as quais versavam
o texto. Faltava a fala da mulher e do homem comum,
do navegante, do ordinary people.
Isso!
Principalmente, a presença do navegante. Afinal
era para esses navegantes que o Domínio Feminino
estava sendo pensado. Por que não feito por navegantes
para navegantes?. Bingo!
A
mistura de jornal, revista, fórum, enfim, de
uma interatividade com todo mundo dando palpite, opinando,
colaborando.
Pelo
ano ( 1998) em que começamos a conceber o Domínio
Feminino, você navegante, meu leitor, verá
que essa sua Casa foi a primeiríssima a pensar
assim. Pensar Editorias como Amizade, um exemplo. Amor
e Cartas de Amor e Perfumes, esses exemplos então
...chega a ser descarado. Você pode conferir na
Rede, via instrumento de busca que, irá encontrar
trocentos sites saídos, nascidos das idéias
do Domínio Feminino. É só conferir
quem veio primeiro, indo ao Registro.br . A diferença
é que, muitos tiveram "bala" para investir.
Foi
exatamente pela diversidade e abragência de Editorias,
qualidade de conteúdo e gráfico ( diagramação
das páginas com ilustrações ),
que o Cadê nos conferiu a primeira classificação
de Portal para um site feminino brasileiro. Aliás,
em mais isto Domínio Feminino é pioneiro:
ilustrar seus artigos e matérias.
Importante
dizer que, o problema desde o início era que,
pessoalmente, não queria uma cara de plástico,
extremamente gráfica, clean. Arrisquei
umas pitadas de carinho, arrisquei ser vista como over,
naquelas ondas de profusão de visuais, styles,
visuais à base de polímeros. ( Virou,
mexeu, chega um papa do visual gráfico e diz
como um site deve apresentar-se graficamente. Onda,
onda e quem se emprenha, vai atrás, fica como
maluco, batendo cabeça, pensando que o visual
é tudo ).
Para
o Domínio Feminino, pensei numa interface com
cara de "impresso em papel", cores suaves,
delicado, embora a entrada seja agressiva ( como covém
ser a capa de um livro, diferenciando-se da diagramação
do miolo ). Cara de internet, era o que não eu
não queria. Nem cara de portal de entretenimento.
Pensei num site, grande, com muito conteúdo e
sério, mas com cara de HP.
Houve
até quem torcesse o nariz e, incrivelmente, quem
torceu o nariz, já se foi da Rede enquanto o
Domínio Feminino, persistente, vai ficando, crescendo
e se tornando um referencial de Portal Feminino para
a Internet brasileira, fonte de pesquisas até
da imprensa internacional e de utilidade pública,
sem deixar de lado a vocação comercial.
Sobe
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