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Perfume
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Por Maria da Penha Vieira

 

Saúde Sanitária Era do Terror
O nariz é liberado Perfume e literatura
Perfume por engano Engajamento olfativo
Banimento do almíscar Política de enquadramento da mulher
A confusão A indústria - Uma partitura

 

O terror quase salvo pelas águas

Nesta disputa, de um lado o peso da religião e do outro, os interesses das políticas comerciais do regime vigente. Condenava-se o almíscar e os odores excrementícios animais, o couro num tempo, em outro, a moda defendia os florais. Os ditames que definiam a etiqueta variavam ao saber destes dois pólos que em determinados momentos ficavam afinados pela política dos interesses de ambos, resultados dos acordos. O pano de fundo mesmo acontecia segundo as necessidades moralistas do alto clero que se valia dos interesses da medicina, das descobertas químicas e dos interesses do regime. Instalava-se o terror.

A Água das Mil Flores, tornou-se o ponto para onde convergiram os argumentos tanto da medicina como dos químicos, por fazer uso do almíscar. Alegavam que o odor da bolsa odorífera do almiscareiro podia até matar o caçador se ele não tapasse o nariz antes de se aproximar do animal.

Os fortes odores dos arômatas de base animal afetavam o psiquismo, provocavam crises de ansiedades e levavam à depressão profunda. As cefaléias eram o mal menor.

Mme. De Sévigné, certa vez, mesmo encantada com as maravilhas dos benefícios da Água da Rainha da Hungria, achou-se na obrigação de alertar a uma amiga para que não abusasse dela, pois poderia vir a ficar viciada com a droga. Preveniu-a para que aspirasse muito pouco. O almíscar continuava sendo perseguido de todas as maneiras: ele perturbava os nervos femininos e os estômagos masculinos eram atingidos fatalmente.

Os boticários e adjuvantes, dizia-se, eram vítimas de acidentes inexplicáveis. Nem as parteiras escapavam pois dizia-se que elas ao usarem arômatas pesados para se protegerem dos odores fétidos das parturientes acabavam por causar um grande mal às suas clientes: elas, as clientes, tornavam-se histéricas.

O açafrão, odor demasiado forte, era tão nefasto que as mulas que o transportavam, muitas vezes caíam fulminadas. As histórias corriam de boca em boca. Que Henrique IV havia morrido por ter aspirado o perfume da luva de uma dama, o Papa Clemente VII, por ter se aproximado de uma chama perfumada. Que uma rainha da Índia havia oferecido a Alexandre, um linda jovem cujo hálito estava envenenado de tanto cheirar drogas perfumadas. O heléboro, hioscíamo, cantárida, magnólia, mancenilheiro, foram eleitos definitivamente como letais. Mais tarde, cinqüenta anos, os odores foram relegados ao nível de veneno relativo.

Quem usava almíscar era rotulado como sujo, pois usava o perfume apenas para mascarar a falta de higiene. Após 1750, o uso dos perfumes fortes e teimosos ainda caracterizava o odor da carne e do pecado. O cheiro de almíscar, âmbar e outros animais, tonam-se representações do povo pobre e sem requinte. Das velhas vaidosas ou das interioranas.

A essa época, o Abade Jacquin só considerava perfume salutar o vinagre, o enxofre e a pólvora negra. Não havia nenhuma crítica científica; apenas moral, quando ele dizia que "os odores pertencem menos à limpeza do que a um certo gosto depravado ou a um certo ar de moda" . Enfim, o uso dos perfumes levavam à degeneração moral.

1760, aproximadamente, são lançadas as águas da marechala ( pó à marechala conserva seu prestígio por quase um século, feito de uma mistura óleos de íris, cravo-da-índia, lavanda, rosa, laranja e manjerona, preparada pela Marechala de Aumont. ) e da duquesa que liberam uma nova sensibilidade olfativa em odorizantes. Posteriormente aos odores vegetais ( aldeídos naturais: cinâmico, óleo encontrado na canela ) ) foram acrescentados como nota de exotismo aos florais. A "água de Anjo" substitui, no século XVII, as águas de cheiro de frutas, sabões e bolinhas para fricção durante o banho. Inicia-se os preparativos para o período do "cheiro de santidade" que só no século seguinte, descobre-se, com clareza, os objetivos da guerra contra os arômatas, principalmente os de origem animal, vindo da genitália.

    O perfume segundo a etimologia, dissipa-se em fumaça. Aquilo que se esvanece, se volatiza, simboliza a dilapidação. O fugaz não pode ser acumulado. A perda é irremediável. Pode-se sonhar em recuperar, em reutilizar os restos, em rentabilizar o excremento; mas a evaporação é sem esperança. Há algo de intolerável para o burguês ao sentir se esvanecer, desse modo, os produtos entesourados.

 

Foi afirmado que, exceto a função terapêutica, eventual, no perfume não há nenhuma utilidade secundária; duplamente imoral, seria em todo caso desejável que perdesse suas referências animais, que desaparecessem, juntamente com o almíscar, suas provocantes alusões ao instinto da reprodução .

 

 

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