Nesta disputa, de um lado o peso
da religião e do outro, os interesses das políticas
comerciais do regime vigente. Condenava-se o almíscar
e os odores excrementícios animais, o couro num tempo,
em outro, a moda defendia os florais. Os ditames que definiam
a etiqueta variavam ao saber destes dois pólos que
em determinados momentos ficavam afinados pela política
dos interesses de ambos, resultados dos acordos. O pano de
fundo mesmo acontecia segundo as necessidades moralistas do
alto clero que se valia dos interesses da medicina, das descobertas
químicas e dos interesses do regime. Instalava-se o
terror.
A Água das Mil Flores,
tornou-se o ponto para onde convergiram os argumentos tanto
da medicina como dos químicos, por fazer uso do almíscar.
Alegavam que o odor da bolsa odorífera do almiscareiro
podia até matar o caçador se ele não
tapasse o nariz antes de se aproximar do animal.
Os fortes odores dos arômatas
de base animal afetavam o psiquismo, provocavam crises de
ansiedades e levavam à depressão profunda. As
cefaléias eram o mal menor.
Mme. De Sévigné,
certa vez, mesmo encantada com as maravilhas dos benefícios
da Água da Rainha da Hungria,
achou-se na obrigação de alertar a uma amiga
para que não abusasse dela, pois poderia vir a ficar
viciada com a droga. Preveniu-a para que aspirasse muito pouco.
O almíscar continuava sendo perseguido de todas as
maneiras: ele perturbava os nervos femininos e os estômagos
masculinos eram atingidos fatalmente.
Os boticários e adjuvantes,
dizia-se, eram vítimas de acidentes inexplicáveis.
Nem as parteiras escapavam pois dizia-se que elas ao usarem
arômatas pesados para se protegerem dos odores fétidos
das parturientes acabavam por causar um grande mal às
suas clientes: elas, as clientes, tornavam-se histéricas.
O açafrão, odor
demasiado forte, era tão nefasto que as mulas que o
transportavam, muitas vezes caíam fulminadas. As histórias
corriam de boca em boca. Que Henrique IV havia morrido por
ter aspirado o perfume da luva de uma dama, o Papa Clemente
VII, por ter se aproximado de uma chama perfumada. Que uma
rainha da Índia havia oferecido a Alexandre, um linda
jovem cujo hálito estava envenenado de tanto cheirar
drogas perfumadas. O heléboro, hioscíamo, cantárida,
magnólia, mancenilheiro, foram eleitos definitivamente
como letais. Mais tarde, cinqüenta anos, os odores foram
relegados ao nível de veneno relativo.
Quem usava almíscar era
rotulado como sujo, pois usava o perfume apenas para mascarar
a falta de higiene. Após 1750, o uso dos perfumes fortes
e teimosos ainda caracterizava o odor da carne e do pecado.
O cheiro de almíscar, âmbar e outros animais,
tonam-se representações do povo pobre e sem
requinte. Das velhas vaidosas ou das interioranas.
A essa época, o Abade
Jacquin só considerava perfume salutar o vinagre, o
enxofre e a pólvora negra. Não havia nenhuma
crítica científica; apenas moral, quando ele
dizia que "os odores pertencem menos à limpeza
do que a um certo gosto depravado ou a um certo ar de moda"
. Enfim, o uso dos perfumes levavam à degeneração
moral.
1760, aproximadamente, são
lançadas as águas da marechala ( pó à
marechala conserva seu prestígio por quase um século,
feito de uma mistura óleos de íris, cravo-da-índia,
lavanda, rosa, laranja e manjerona, preparada pela Marechala
de Aumont. ) e da duquesa que liberam uma nova sensibilidade
olfativa em odorizantes. Posteriormente aos odores vegetais
( aldeídos naturais: cinâmico, óleo encontrado
na canela ) ) foram acrescentados como nota de exotismo aos
florais. A "água de Anjo" substitui, no século
XVII, as águas de cheiro de frutas, sabões e
bolinhas para fricção durante o banho. Inicia-se
os preparativos para o período do "cheiro de santidade"
que só no século seguinte, descobre-se, com
clareza, os objetivos da guerra contra os arômatas,
principalmente os de origem animal, vindo da genitália.