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Primeiros anos
Antonieta Bastos de Lima
Domínio Feminino/2001
Infelizmente
não ocorre de uma noiva pensar no futuro do seu cotidiano
pós-cerimônia de casamento. Assim como não
ocorre aos namorados pensarem-se compromissados. Para os namorados
uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa.
Ainda bem! Ou não...como dizem os dois grandes nomes
da MPB.
A fala de quem
conhece o caminho porque ainda o percorre, é tão
válida quanto a de um especialista psi. Talvez o bom
seja isso mesmo: experiência e vivência mesmo
que as óticas variem, ou existam variáveis,
neste campo como em qualquer outro.
Clique
aqui para ver idéias sobre como antecipar-se ao futuro.
Os
primeiros anos de vida conjunta, assim, os dois primeiros
anos. O primeiro ano de vida conjugal é uma barra e
vai até o meio do ano seguinte, ou seja do segundo
ano.
Nos
primeiros tempos, é meio como ficar chacoalhando os
hábitos diários, as manias, os costumes um do
outro. É tempo de descobertas terríveis: ele
enrola a pasta de dentes, é todo, uma mania de arrumadinho.
Ou o contrário e a mulher vai se descobrir o quanto
parecia arrumadinha, organizada. Hum, hum...
O
jeito dele mastigar a comida, manusear os talheres à
mesa, por exemplo, podem ser descobertas desanimdoras, no
mínimo. O uso do vaso sanitário, e você
começa a ter, todos os dias, um bom motivo para falar
demais ou calar e ficar com uma cara de infeliz; ah, isso
mata. Isso sem falar no cobertor que vai faltar para um dos
dois, numa noite de muito frio.
A
pressa dele ao sair de casa, e o beijo que você vai
achar que ele cuspiu. A relação poderia ser
extensa, desencorajadoramente extensa.
Ocorre que estes
tempos são tempos em que o casal se descobre indivíduos,
humanos, semi-despidos das idealizações. Semi-despidos,
não se falou em nus. Afinal o véu já
foi retirado do rosto da noiva, nada mais de lentes soft,
pelo menos não tão soft e caminha em direção
a maior nitidez dos contornos das personalidades.
Muitas
vezes, pode ocorrer de você se perguntar, na maior pasmaceira,
onde você estava e aonde você andava que não
tinha visto o jeito horroroso dele mastigar ou de levar a
comida à boca. É, porque pode ocorrer de você
flagrar o sujeitinho levando a boca à comida, como
um porquinho de estimação. Essas ocorrências
vão ficar mais forte por conta do tempo da TPM e você
estará como >>diz
o raper Shawlin<<, vivendo a Tendência
Psicopata em Mente.
Mais
tarde, grávida, piora. Deus, como piora. Daí
porque é bom ir pensando e descobrindo que não
acontece só com você. Parece que não,
mas saber que não é apenas com a gente que isso
ocorre já ajuda sensivelmente.
Pelo
lado dele, coitado, vão ser muitas, as descobertas.
O banheiro também poderá incomodá-lo
mais do que à você. Seus absorventes jogados
no coletor de lixo do banheiro, despudoradamente — é
assim que a cabeça dele vai ler e é verdade
que você está procedendo assim — anti-higiênica.
Você, sem cuidados, trocando o absorvente, sentada ao
vaso sanitário, usando a duchinha. Erg! Não
brinque com isso; e sem querer fazer humor : tem homem tão
sensível que perde o tesão depois de observar
um quadro desses. Você pensa que mulher alguma faz isso?
Acredite que tem!
Se
disséssemos que você deveria, ao sair da cama,
depois da relação sexual evite a cama
como ponto de encontro enrolada num lençol,
você vai argumentar que isso já era. Não
era, não. O casamento é um estado de eterna
sedução, meu bem. Se faltar sedução,
(a)cabou. Use o lençol até por charme e com
charme; com o tempo você se acostuma de tal forma que
fará isso naturalmente. Agora, o legal está
em, vez por outra não cobrir-se. Esconder para mostrar
e mostrar para esconder. Parece tudo artificial e vai ser,
não vai apenas parecer, se você não entender
que o (seu característico ) jogo da sedução
foi o que fez com que ele adorasse a escolha que você
fez. A mulher escolheu o marido mas precisou que ele desse
sua anuência. Quando um não quer, mesmo, dois
não casam.
Após
esse ônibus chacoalhando para acomodar os passageiros,
que no caso são as imperfeições individuais,
as cores das paisagens vão assumindo percentuais de
misturas nos tons primários; nem tão sólidas
nem tão diluídas. Fica tudo normal, bom de ser
vivido. E isso é normal entre casais. As imperfeições
de antes complementam e tornam-se o que deve ser : características
pessoais.
Mais
ou menos por aí, por essa fragilidade da relação
recém-iniciada que nas bodas são representadas
por símbolos de muita fragilidade tais como o papel,
algodão, perecíveis, etc. Tudo é muito
passível de esgarçar ou rasgar, amassar e por
aí vai.
Portanto,
minha amiga, aproveite para pensar no cotidiano da sua relação,
bem antes de consumá-la, e tentar evitar os confrontos.
Delicie-se com esses tempos em que você e o maridão
podem meter na sacola umas roupinhas íntimas, poucas
mudas de roupa e se mandar pela estrada; aproveite para sair
sem destino, à noite ou a qualquer hora, quando for
possível, e decidir no meio do caminho, se vocês
vão jantar ou apenas comer um big-qualquer-coisa-deliciosa.
Deixe-o escolher ao menos uma vez. E se acontece diferente,
bata o pé — apenas como expressão — e diga que,
desta vez, a escolha será sua.
Quando
você comemorar suas bodas nos tempos dos materiais preciosos,
das gemas, dos metais, saberá o porquê da representação
simbólica. Presentei-se por isso. Leia
>>Com certeza, se você chegar lá, o mérito
é, possivelmente, todo seu<<.
E isso é dito sem a menor sombra de feminismo, é
uma constatação que você fará.
Antonieta Bastos
de Lima / Domínio Feminino
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