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Entrevista com Patrícia
Helena Geisel, residente em Auckland, Nova Zelândia, restaura
o orgulho cívico dos brasileiros numa demonstração de patriotismo
rara nos dias atuais. Todos os anos o casal Karl e Patrícia
participam do cocktail da Embaixada brasileira para comemorar
o 7 de Setembro. Este ano Patrícia fez diferente, embora
sem a presença do marido no alto da Ponte, presente ao hasteamento,
que reduziu sua participação por motivo de saúde momentânea,
levando-a apenas ao local.
Domínio Feminino
: Como surgiu e aconteceu a idéia de hastear a Bandeira
do Brasil para comemorar o dia 7 de Setembro?
Patrícia Geisel
: A maior ponte de Auckland, a Harbour Bridge é como
nossa ponte Rio-Niterói, e liga a cidade a North Shore.
No meio da ponte, na parte mais alta existem duas bandeiras
de cada lado, uma da Nova Zelândia e outra de qualquer outro
país cujo dia represente algo para aquele país. Bem, eu
vi a bandeira Argentina um dia lá e pensei: como posso fazer
para hastear a do Brasil??
E em agosto falei
com meu marido que me disse para telefonar para TRANSIT-New
Zealand, o departamento de trânsito que cuida da ponte.
Liguei para lá e me explicaram que deveria conseguir uma
carta da Embaixada do Brasil, atestando a data Nacional
e também levar a Bandeira. Assim entrei em contato com a
Embaixada que me prestou a necessária autorização e a Bandeira.
Domínio Feminino
: Pela foto na ponte, distante, não dá para identificar
qual é a Bandeira do Brasil. De qual lado ela se encontra?
Patrícia Geisel
: É a do lado esquerdo da foto. O fato curioso foi que
a bandeira da Nova Zelândia tem um tecido diferente, que
pesou e ela não tremulou como a nossa, que por sinal foi
elogiada pelo funcionário da Transit que disse ser um tecido
ideal, tipo nylon. No momento que em que bati a foto distante
da ponte não estava ventando.
Domínio Feminino
: Como você conseguiu colaboração das pessoas que estão
juntas no evento?
Patrícia Geisel
: A Embaixada queria fazer o mesmo que eu fiz, porém
eu liguei para TRANSIT NZ primeiro, reservei o dia e eles
queriam os créditos. Então, deixei que escolhessem outras
quatro pessoas, contanto que eu estivesse lá. Eles indicaram,
então, duas senhoras sócias de um Intercâmbio estudantil
e um instituto cultural brasileiro. Os rapazes são filhos
delas. Só os encontrei lá no dia e acabamos trocando telefones
e iremos nos encontrar depois. Outras duas pessoas são os
funcionários da ponte.
Domínio Feminino
: Como é que bate dentro do peito um momento como esse,
à distância do Brasil com a realidade que vive, se comparada
à realidade do que você sonha para o Brasil?
Patrícia Geisel
: Fiquei mais próxima do País ideal naquele momento,
talvez por que esteja num lugar ideal com a bandeira representando
meu País por um dia. O sentimento patriótico é inerente,
você nasce com ele, carrega-o por toda a vida e junto a
esse sentimento fica idealizando sua Pátria, quando no nosso
caso não aceitamos que a mesma esteja no patamar dos nossos
sonhos. No entanto, ao viver em um país quase ideal ( perfeito,
não existe ) é inevitável comparar os paises. Fica uma sensação
de impotência porque estou distante e sei como é difícil
mudar algo que já vem errado de tão longe...como é nossa
historia.
Domínio Feminino
: Pode explicar melhor: quando no nosso caso não aceitamos
que a mesma esteja no patamar dos nossos sonhos.
Patrícia Geisel
: Nós amamos nossa Pátria, mas também criticamos e nos
acostumamos à insatisfação. Nos nossos sonhos, o país não
tem corrupção, a justiça funciona, o Estado cuida do bem
estar. Esse é o patamar a que me refiro, um sonho no momento.
Domínio Feminino
: Fora sua constante comunicação com Brasil, como chegam
aí notícias ? O Brasil ocupa alguma importância na imprensa
?
Patrícia Geisel
: Eu acompanho pelo
jornais online as noticias que chegam: a violência em SP
(os últimos eventos do PCC ), Carnaval, roubo das obras
de arte na casa da Gávea ( pois tinha um neozelandês lá
na hora do roubo no carnaval desse ano ). O futebol ocupa
algum espaço no jornal esportivo. Uma importância pequena
mesmo.
Domínio Feminino
: Você contou como foi o acesso ao licenciamento para
hastear a Bandeira em local tão importante e pareceu coisa
sem burocracia. Acha que para se fazer alguma coisa parecida
com essa sua iniciativa seria tão desburocratizada? Haveria
a mesma agilidade?
Patrícia Geisel
: Estou certa de que no Brasil até desistiríamos de
idéias simples, pois, se vende dificuldade. A burocracia
no Brasil só tem concorrência na França e provavelmente
Portugal e outra meia dúzia de paises atrasados com centralização
do poder do Estado.
Domínio Feminino
: Você percebe alguma partidarização ou ideologização
aí, como nos acontece no Brasil? Brigas de interesses políticos
que sejam notados pelo povo neozelandês?
Patrícia Geisel
: Como acontece no Brasil, não. O povo é bem atuante.
Primeiro as pessoas tentam resolver suas insatisfações com
o governo local pela autonomia, junto à comunidade, e com
voz ativa atua para conquistar direitos e modificar políticas
consideradas desfavoráveis a determinados grupos e ou facções
políticas. Mas, brigas no patamar de incivilidade como ocorre
no Brasil, isso não acontece. O partido Trabalhista e o
Nacional, entre outros, estão sempre se rivalizando mas,
para conquistar mais votos. A valorização do voto acontece
porque não temos o voto obrigatório. Por outro lado estrangeiros
residentes, como eu, também, podem votar se quiserem.
Domínio Feminino
: Essa participação seria resultado saudável do Sistema
de Governo que vigora na Nova Zelândia ?
Patrícia Geisel
: Sim, um sistema saudável gera uma engrenagem que funciona
sempre de maneira a buscar a realização do interesse popular,
com muita clareza de forma que, honestidade e ética são
qualidades sine qua non para ter saúde, vigor e longevidade
política. Se o político se queimar aqui, não ha futuro em
nenhum outro setor para o mesmo.
Domínio Feminino
: Você teria como exemplificar que tipo de postura e
comportamento de um político seria punido e de qual forma
viria essa punição?
Patrícia Geisel
:: ROUBO = PRISAO, simples.
Patrícia Geisel
: E mais, quero dizer, vou explicar melhor. Há comprometimento
em relação a promessas políticas feitas em campanhas. Se
não houver cumprimento dessas promessas o político é cobrado
pela população.
Domínio Feminino
: Quais os instrumentos que o povo tem para conseguir
manter os políticos sob tão constante vigilância? São Conselhos
ou apenas a mídia?
Patrícia Geisel
: Primeiro que o próprio Parlamento tem sempre os olhos
do povo sobre suas ações e seus membros. Os políticos temem
os eleitores pelo fato de o voto não ser obrigatório. Assim,
além do Parlamento, ambos, o povo e a imprensa, exercem
cobrança e vigilância. Aqui não tem rede Globo com favoritismos
e posicionamento nem interferência ou concorrência do Estado
ou Governo na iniciativa privada. Essa autonomia é o fiel
da integridade moral.
Através de passeatas,
abaixo-assinado e até mesmo com greves, o contribuinte pressiona.
O político em questão pode perder o mandato e mais, quando
um determinado membro do parlamento está implicado com alguma
irregularidade, os colegas de partido cobram uma posição
do membro que pode ser punido perante a justiça ou perder
sua cadeira. Quer dizer, não tem como encobrir um roubo
ou qualquer outra irregularidade, ou o político esta no
limelight o tempo todo, e nada passa em branco, não ha como
fazer algo 'por detrás dos panos'. Aqui o ato de servir
a nação, representar o povo é levado muito a sério e de
maneira translúcida. Não estão lá pelo poder ou status quo,
a ideologia é a seriedade mesmo!
Domínio Feminino
: Digamos, um contribuinte consegue ter acesso ao seu
representante ( se ele votou, por exemplo )? Como um contribuinte
pode cobrar mediante denúncia e não temer retaliação ?
Patrícia Geisel
: A mídia é imparcial, não importa o poderio político.
Qualquer contribuinte tem acesso a um político com o qual
ele deseja fazer contato. Se houver alguma denúncia contra
o político, a mesma é apurada pelo representante local e
tem a cobertura da mídia. Não há como haver retaliação porque
as denúncias são levadas as Assembléias locais que se unem
para trazer à tona a irregularidade e a punição ocorre por
meios judiciários. Não há como temer nada neste sentido
porque, a ética e os valores morais estão tão arraigados
no povo que não ha escapatória para abusos e percalços.
Domínio Feminino
: como são formadas essas assembléias locais? Quais
são os critérios?
Patrícia Geisel
: São formadas localmente por moradores (votantes) que
se reúnem para atuar e cobrar ações de seus MPs (Members
of Parliament).
Domínio Feminino
: Quem os escolhe?
Patrícia Geisel
: Qualquer um pode participar das Assembléias.
Domínio Feminino
: É só se inscrever e pronto?!
Patrícia Geisel
: Sim. Qualquer um pode reivindicar direitos e atuar
para cobrá-los.
Domínio Feminino
: Há muita dificuldade para um eleitor fazer contato
com seu representante?
Patrícia Geisel
: Não ( risos ). Aqui tudo é fácil, TUDO! Também, com
4 milhões de habitantes, e se o inicio é ordeiro e bem feito,
agora, 190 anos depois só tem como melhorar (clap). Na Austrália
é a mesma coisa, e lá já são 25 milhões.
Domínio Feminino
: Como funciona para se iniciar uma atividade na iniciativa
privada. Montar um pequeno ou médio empreendimento? De quantos
reconhecimentos de firma? Cartórios?
Patrícia Geisel
: Registra-se a empresa sem burocracia. Nem se pode
usar o termo burocracia porque são apenas procedimentos
e há ate institutos de apoio à empresa e cursos para empreendedores,
constante apoio mas, claro, tudo por que os impostos são
pagos e a máquina funciona assim: se pagam impostos, tenho
mais serviço a meu dispor. Apenas um cartório e depois tudo
é feito pela internet, fica lá o cadastro da empresa, com
numero de registro, diretores, endereços para que o povo
possa acessar.
Domínio Feminino
: Quais foram suas maiores dificuldades para introduzir-se
no ambiente profissional?
Patrícia Geisel
: O idioma (leva tempo para aprender o sotaque). Não
consigo pensar em nada mais, os kiwis são cordiais, educados
e respeitosos como aqui tudo é fácil, não é difícil se acostumar,
apenas as saudades da família e amigos que pesam na adaptação.
Domínio Feminino
: A palavra kiwi para denominar o nativo é oficial?
Patrícia Geisel
: Sim, de certa maneira, oficializado pelo povo zelandês.
A palavra derivada do nome do pássaro local, símbolo nacional
( como também são a samambaia do mato, o xaxim ). É um pássaro
que não tem asas, é do tamanho de uma galinha, ou um peru
quando adulto, ele tem um pelo igual ao da fruta kiwi. Daí
o pássaro, depois a fruta, e o povo, o dólar é tudo kiwi
:). O pássaro que não tem asas não é incrível? Talvez por
falta de predadores. Aqui não ha cobras.
Domínio Feminino
: Aí também tem essa coisa de políticas especiais para
mulheres, para excluídos?
Patrícia Geisel
: Não há essa mentalidade de coitadismo. O contribuinte,
o cidadão recebe tratamento de acordo com suas necessidades.
É o próprio Sistema que retorna aos cidadãos os resultados
dos impostos que pagam. Apoio dos governos, pensão, cuidados
médicos etc. Uma pessoa com síndrome de down, por exemplo,
recebe pensão semanal para cobrir todos gastos. O mesmo
para mãe-solteira e deficientes em geral, assim libera a
família para dar só amor. Não ha população de rua, homeless
é uma opção, se não quiser ajuda do governo, o que é raro.
Domínio Feminino
: Não cobram pensão obrigatória do pai? Nem os mandam
para a prisão se não pagar a pensão?
Patrícia Geisel
: Não, de jeito nenhum. Pensão dos pais tem que ser
paga, porém não vai pra prisão se não paga, mas sim tem
constante pressão de Órgãos que cuidam do assunto. Berta,
minha amiga, por favor, arrume aí essas imagens,
please!
Domínio Feminino
: Refiro-me aqueles pais que sequer sabiam que seriam
pais.
Patrícia Geisel
: Esses se não moram com a mãe do filho ou nunca moraram,
não pagam nada, a mãe recebe ajuda, se necessitar. São os
impostos voltando para o bolso do contribuinte.
Domínio Feminino
: Patrícia, você merece toda nossa admiração e orgulho.
Patrícia Geisel
: Obrigada, isso me ajudou a superar as saudades e a
tentar fazer o povo brasileiro ver que ele poderá decidir
sobre seus rumos a caminho da prosperidade.
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