Com poucos dias
de intervalo, publicações científicas noticiaram que os chimpanzés
são geneticamente humanos e que os bebês em gestação reconhecem
as vozes de suas mães. Não é preciso ser muito esperto para
antever as reações dos intelelectuais: a primeira notícia será
aceita com entusiasmo, a segunda suscitará fortes reações de
protesto ou pelo menos uma epidemia de ponderações atenuantes.
Lógico: para os representantes da classe esclarecida, é muito
mais fácil admitir a humanidade dos chimpanzés que a de seus
próprios filhos ainda não nascidos.
O sr. Peter
Singer, por exemplo, acha que comer galinhas é um crime tão
grande quanto o Holocausto, e o prof. Renato Janine Ribeiro
julga uma desumanidade adestrar os cães para que não façam pipi
na sala.
Os inimigos
da pena de morte para crimes hediondos celebram a execução de
bebês culpados do crime de não ter nascido em tempo de escapar
do aborto.
A condição de
pessoa humana é, segundo os cientistas sociais, uma convenção
cultural, de modo que não há contradição em atribuí-la aos chimpanzés
e ao mesmo tempo negá-la ao bebê humano em gestação, reduzindo-o
à condição de excrecência do corpo da mãe que, assim, tem o
direito de cortá-lo como se fosse uma unha ou um joanete
prática que, aplicada aos chimpanzés, seria considerada extremamente
desumana.
Mas a diferença
específica do humano ante o não-humano é genética ou cultural?
Se é genética, está presente desde a concepção, sem esperar
pelo nascimento. Se é cultural, não pode beneficiar os chimpanzés.
Por isso veremos doravante imperar nas discussões letradas uma
dupla concepção do humano: genética, para sustentar os direitos
humanos dos chimpanzés; cultural, para legitimar o assassinato
dos bebês no ventre de suas mães.