Lado
a lado
Maria
Luiza Curti
mlcurti@uol.com.br
06,
Março/2002
A
mulher merece ser homenageada pelo salto que deu
em curto espaço de tempo (curto em relação
aos séculos de submissão) da condição
de subjugada para uma realidade de SER atuante na
sociedade.
Muito
do que conseguiu está ainda em fase de estruturação
e acabamento, mas tomando como base o "andar
da carruagem", podemos esperar que num futuro
não muito distante, o lugar de dominada que
por muitos séculos ocupou, será apenas
um pesadelo do passado.
Entretanto,
toda situação nova quando não
está definitivamente assentada, por ainda
estar em evolução, costuma suscitar
turbulências, incompreensões e equívocos,
que, mais adiante serão aclarados e as dúvidas
dirimidas, tornando o novo perfeitamente compreensível.
Recebi
vários e-mails referindo-se ao texto que
escrevi >>"A
Mulher e a Política"<<,
onde falo sobre o estudo que o historiador francês
Jean Delumeau realizou, identificando os medos coletivos
dos cristãos ocidentais em determinada época.
Entre eles destaquei o medo da mulher, que gerou
campanha contra as mesmas que durou séculos.
Esses
e-mails eram em sua maioria de homens, alguns querendo
saber como é a mulher pós-opressão
e o que elas esperam do novo homem; outros eram
de homens reclamando das respectivas companheiras
e dizendo que, ao ler sobre as arbitrariedades sofridas
pelas mulheres ao longo do tempo, reconheciam seu
próprio sofrimento ali.
Um
deles me chamou especialmente a atenção,
principalmente por ser rico em detalhes, do qual
extraí alguns pequenos trechos, preservando,
é claro, sua identidade: casado há
três anos e meio, dois filhos "Tenho
trabalhado 14 horas por dia... Minha mulher não
trabalha, dorme a maior parte do tempo, não
cuida dos filhos (segundo seu relato, à noite
ele cuida das crianças; pela manhã,
antes de ir trabalhar, leva-os para a casa da babá),
minha casa é um lixo, a cozinha é
imunda, ela não lava louça, joga restos
de comida pela casa toda, meu banheiro é
imundo... não cozinha, todo tipo de limpeza
que tem que ser feito sou eu e a empregada que fazemos..."
E prossegue relatando toda sorte de mazelas, inclusive
humilhação moral e até agressão
física da parte dela.
Bem...
Se, este caso como outros, for um encontro bem sucedido
de neuroses, cabe ao queixoso a decisão de
sair ou permanecer no lugar, mas aí não
há nada a ver com a evolução
feminina.
Os
equívocos a que me referi são alguns
casos, felizmente, não maioria. Geralmente,
são casais novos em que a mulher anda folgando
nas costas do homem.
A
exaustiva dupla jornada ainda é uma realidade
na vida de muitas mulheres. Ao mesmo tempo já
estão aparecendo casos de dupla jornada também
para os homens.
Meninas,
acordem... direitos iguais implicam em deveres iguais
também! Não significa e nem justifica,
um folgar nas costas do outro. Há muita moça
que está entrando para a vida compartilhada
agora e está fazendo uma leitura equivocada
da emancipação da mulher.
A
causa que desde há muito a mulher abraçou,
é para ter igualdade de direitos em todos
os campos onde o gênero masculino dominava
com exclusividade; nuca se pensou em revanchismo
estéril nem que a mulher é melhor
que o homem, porque não é.
A
igualdade e capacidade da mulher eram sabidas pelo
homem a vida toda. Por isso a dominação,
os aniquilamentos: sexual, psicológico, social
e político. Ninguém chuta cachorro
morto, mas sim quem o ameaça.
É
tão verdadeiro pensar que a mulher, exceto
anatomicamente, é igual ao homem, quanto
é falso achar que ela tem mais qualidades
por ser mulher. Ela é capaz de se lhe igualar
tanto nas virtudes como nas iniqüidades.
Simone
de Beauvoir conta no seu livro "O Segundo Sexo",
que em Roma por volta do ano 114, as romanas foram
adquirindo seus direitos cada vez mais, mas não
souberam o que fazer com a liberdade: "Em verdade,
é principalmente pelo seu amor aos prazeres
e pelos seus vícios que elas rivalizam com
os homens; para visar metas mais elevadas carecem
de uma educação suficiente. Nenhum
fim lhes é proposto, aliás; a ação
permanece-lhes proibida".
Conseguiram
libertar-se para nada. Seus direitos foram sendo
cassados, um a um.
Felizmente,
o contexto hoje é outro; e o que fez a diferença
foi a mulher ter empreendido uma escalada, visando
ser inteira no mundo, calcada em base sólida.
Cada conquista tem por trás muito estudo,
discussão e muito pé no chão.
A
mulher já tem consciência do que quer
(salvo poucas exceções) e sabe que
é possível, sem abrir mão de
ser feminina, agir no mundo, lado a lado com o homem.
Maria
Luiza Curti é psicóloga
E-mensagem
para : dominiofeminino@dominiofeminino.com.br