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A Ira
feminina
Sandra Moreira Ebisawa
Presidente da ONG Mariamaria
08, Novembro/2002.
Sinto-me dentro de um caldeirão, sendo
cozinhada através dos tempos, com os ingredientes
do "pecado original" a culpa da decadência
humana é minha, a força poderosa que amedronta, a
que destrói ou fortalece, sou eu. A responsabilidade
de resignificar essa história, descobrindo sua essência
bem dentro de mim, é minha também. Sou Mulher.
Perceber a "crueldade feminina" diante
do sofrimento imposto à mulher através da história
de nossa gênese enquanto seres humanos, é tarefa hercúlea.
Requer ponderação, busco dentro de mim, os primórdios
do meu próprio sofrimento, para entender e dar à luz
a verdadeira redenção feminina, que eu tanto necessito
para simplesmente ser. Acredito ser esse o grande
sofrimento da alma feminina: não conseguir simplesmente
ser. Tantas mulheres morreram pela culpa, pelo veredicto
que se impôs a elas na história. Mártires e sacrificadas
somos nós até hoje...A civilização sempre contradisse
o verdadeiro anseio feminino. O anseio de libertação,
de continente para a alma feminina.
Para mim este tem sido um exercício
de auto-conhecimento, de redenção, um tipo de purgatório.
Sentar-me aqui e escrever sobre minha crueldade comigo
mesma, não é confortável. Mas me parece fundamental
que esse estado seja trazido à consciência, a fim
de que eu possa utilizá-lo. É como uma cozinheira
que não poderá alquimizar os alimentos sem saber como
lidar com o fogo.
O que sinto tudo isso como um parto.
Algo dentro de mim está se desenvolvendo, um tipo
de consciência que antes não estava aqui. Esse incomodo
permanente que até agora não tinha um nome, já está
em mim há muito tempo. Tantos erros já foram cometidos,
ciclos internos atropelados, gritos velados e mudos
ecoam ainda dentro de mim. Meus homens e meus filhos
já sofreram demais com esse desvario. E ainda assim,
sou eu a responsável. Preciso parir, dar à luz, emergir
e libertar a Lilith amaldiçoada de dentro de minhas
células.
A primeira crueldade que a culpa gera,
é a submissão de minha força natural às leis de dominação,
de aperfeiçoamento da natureza (como se isso fosse
possível).
Fui eu quem neguei à Adão a doce ilusão
de sua supremacia, fui eu quem nos igualou e fui banida,
me transformando num demônio. Fui a culpada pela nossa
expulsão do paraíso. Como posso ser íntegra e feliz
com toda essa carga sobre meus ombros? Esse banimento
me remete a Lilith, ela está aqui entre nós, dentro
de nós e precisa ser rendida. Precisamos dessa redenção.
Estamos banidas de nossa "Terra", de nosso verdadeiro
lugar no mundo. Fomos condenadas e até hoje, mesmo
com todas as conquistas, continuamos excluídas e amaldiçoadas.
As vezes tenho a impressão de que toda
essa "conquista feminina" foi orquestrada pelas forças
"poderosas" que determinaram o próprio banimento da
mulher. Posso até estar sofrendo de paranóia, o que
seria mais do que compreensível, mas o que percebo
no processo de emancipação da mulher, é uma aliança
entre a mulher e o homem para fortalecer o império
contra a alma feminina. Que me perdoem os entendidos,
mas creio que posso devanear, já que as informações
oficiais podem ser duvidosas. Me causa estranheza
que o feminismo tenha surgido ao mesmo tempo em que
a industria farmacêutica lança seu mais poderoso produto
no mercado: a pílula anticoncepcional. As mulheres
passaram a contar com o apoio da ciência para não
conceber. Não precisaram mais estar atentas aos seus
ciclos naturais se quisessem evitar filhos, seus homens
estão eternamente desobrigados da responsabilidade
com a fertilização, já que passaram a prescindir até
de preservativos, não precisam mais conhecer os ciclos
femininos. Um verdadeiro incentivo a negligência masculina
ao que é essencialmente feminino, e isso com o apoio
do movimento de "libertação da Mulher". Que desatino!
Na minha opinião este foi o maior crime contra a alma
feminina. Quantas consequências desastrosas não surgiram
dessa "conquista"? Ao utilizar a pílula e levantar
a bandeira da liberdade sexual, gerações inteiras
de mulheres passaram a enviar mensagens a seus cérebros
de que não havia necessidade de produzirem determinado
hormônio, para 40/50 anos depois, na menopausa, precisarem
repor os mesmos hormônios artificialmente. Quanto
lucro para essas indústrias! Um planejamento de negócio
digno de admiração, não fosse essa a principal arma
contra a mulher, representante mais significativa
da alma feminina na humanidade.
Nesse momento da história, nós agimos
exatamente como Lilith, nos privando da força natural
feminina e utilizando essa mesma força contra nós
mesmas. Hoje nos vemos distanciadas de nossos ciclos
naturais, nos perdemos quando as sensações da energia
feminina emergem em nosso corpo. Nos perturbamos com
a menstruação, com a menopausa, com nossa potência
orgástica. Não sabemos mais como parir ou amamentar
sem o apoio da ciência, que passou a ser um selo de
qualidade em tudo que nós fazemos e sentimos. Ciência
à serviço da industria, que está a serviço da dominação
da terra, do território, da alma feminina.
A ira feminina voltou-se contra nossos
próprios corpos, desejávamos o sentimento de pertencer
e para isso nos aliamos ao patriarcado, reproduzindo
seu modelo...seu modus vivendi.
Em nossos corações sabemos que a ira
feminina está presente em nossos atos e pensamentos.
Sempre que nos sentimos culpadas por não conseguir
estar com nossos filhos, por não conseguir entregar
um trabalho no prazo ou mesmo por não corresponder
aos desejos "sexuais" de nossos parceiro, estamos
experimentando a ira feminina atuando em nós. Ela
se manifesta através de nossas frustrações pessoais,
profissionais e sociais. Ela se manifesta nos cânceres
de mamas, de ovários, de útero. A ira feminina se
expressa também através dos maremotos, terremotos
e dilúvios, numa desesperada tentativa da Terra para
proteger-se. Tantas são suas manifestações e tão grande
o seu poder.
Procurando uma explicação satisfatória
para o fato da mulher atual estar infartando tanto
quanto os homens, encontrei o seguinte ao pesquisar
a palavra infarto, num "Aurélio" da vida:
Infarto: área de
necrose conseqüente à baixa de teor de oxigênio; enfarte.
Enfarte: ato ou efeito de enfartar, fartação;
empanzinamento.
Isso me sugeriu a asfixia que a alma
feminina experimenta atualmente. Com seu corpo pedindo
socorro! Precisando ardentemente ser regido por sua
própria natureza! Uma analogia à Mãe Terra e suas
terríveis manifestações em resposta à negligência
a seus ciclos e suas necessidades.
Um dia desses uma criança me perguntou
como Adão pode ter sido a primeira criatura se não
existia a mãe dele. Como ele poderia ter nascido?
Foi aí que, tentando lhe responder, me lembrei de
uma conversa que tive com uma amiga, chegamos a conclusão
que o homem foi feito do pó, do barro, da terra, símbolo
do feminino, onde Deus (céu, masculino) soprou e criou
a existência humana. Do alto de seus 9 anos, ela fez
uma carinha iluminada e disse: Agora sim, eu entendi
mais ou menos. Pois acho que eu também estou começando
a entender mais ou menos.
Porém, uma coisa eu já começo a entender
com clareza: é vital que nossa essência seja resgatada
e que a partilha entre as mulheres seja estimulada,
se quisermos ter uma representação autêntica da Alma
feminina em nosso mundo. Só assim nossos filhos não
serão mais "roubados" para se tornarem os prisioneiros,
guardiões do portal invisível que nos separa de nós
mesmas e nos mantém banidas.
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