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Um outro olhar

Maria Luiza Curti
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
luizacurti@dominiofeminino.com.br
mlcurti@uol.com.br
01, Junho/2002

Desde criança e durante toda minha adolescência, era comum ouvir mulheres dizendo mais ou menos a mesma frase: "Se na outra encarnação eu voltar mulher, me recuso a nascer". Essa frase muito repetida por elas, naquele tempo, refletia a insatisfação e o tamanho da raiva para com sua condição de mulher submissa.

Na minha natural curiosidade infantil, perguntava a elas, o porquê de tamanha revolta. Invariavelmente, me explicavam que, além do homem poder tudo e elas nada, as mulheres não gostavam de mulheres porque não eram amigas umas das outras, eram fofoqueiras, invejosas, falsas... e iam desfiando um rosário de imperfeições como papagaios, repetindo o que os homens por milênios as condicionaram a crer sobre si mesmas.

Ficava pensativa sobre tudo que ouvia e via, achando que aquela diferença na maneira de ser no mundo entre homens e mulheres era realmente injusta, contudo, gostava de ser mulher. Se acaso tivesse oportunidade de "retornar", pesava, apesar do penar testemunhado, não queria ser outra coisa além de mulher. Era acometida por essas divagações, mas sem entender direito porque a realidade da mulher era assim tão frustrante e cerceante.

Há algum tempo não ouço esse protesto das mulheres no que se refere à primeira parte das suas antigas insatisfações, mesmo porque, está ficando cada vez melhor ser mulher no Ocidente; porém, quanto à segunda, sobre o que elas pensam de si mesmas, continua tudo igual.

Isso equivale a dizer que, mesmo que a mulher tenha andado conquistando cada vez mais direitos iguais, o (pré)conceito que tem sobre o feminino, continua péssimo. Equivale a uma mulher pela metade.

Continua valendo o que os homens foram colocando para as mulheres ao longo do tempo, o que elas deveriam pensar a seu próprio respeito: tolas, frívolas, invejosas, desunidas, competidoras entre si, pouco confiáveis, incapazes de serem amigas umas das outras, etc... enquanto isso, eles fortaleciam o machismo corporativo.

Agora a luta parece ser cada vez menos contra o machismo e mais da mulher com ela mesma, com o ser feminino. O não ter direito, cedeu lugar ao não ser.

A irritação de uma mulher para com outra provém do conceito que faz sobre si como mulher. A outra é o espelho do seu mau auto-conceito cristalizado.

Então, por que vou me unir a um ser tão infame, quanto sei que sou como mulher? Vou me aliar às outras somente quando for para destruir uma terceira que nos ameaça (mulher sem homem). Como vou confiar na outra se o macho, ser de grande credibilidade, me garantiu que não sou confiável? Por que ser complacente com ser tão inferior?

Tudo isso há que ser revisto em nosso âmago. É cada uma puxando sua própria estima para o alto, aquela mesma que há séculos foi sendo pisoteada, escarnecida até se transformar em baixa auto-estima, formando um conceito deplorável sobre o ser mulher.

A essência feminina sofreu humilhações, zombarias e todas as formas de destrato. É necessário construir um "alto-conceito". Crer que somos seres perfeitamente inteiras e confiáveis.

Só a partir daí, despidas dos maus auto-conceitos, poderemos olhar umas para as outras e não enxergarmos mais um verme, uma inimiga a ser combatida e sim pessoas inteiras às quais podemos nos aliar sem ficar com um pé atrás.

Para que isso seja possível, é necessário que a mulher lance um outro olhar sobre si mesma.

 

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