Desde
criança e durante toda minha adolescência,
era comum ouvir mulheres dizendo mais ou menos a
mesma frase: "Se na outra encarnação
eu voltar mulher, me recuso a nascer". Essa
frase muito repetida por elas, naquele tempo, refletia
a insatisfação e o tamanho da raiva
para com sua condição de mulher submissa.
Na
minha natural curiosidade infantil, perguntava a
elas, o porquê de tamanha revolta. Invariavelmente,
me explicavam que, além do homem poder tudo
e elas nada, as mulheres não gostavam de
mulheres porque não eram amigas umas das
outras, eram fofoqueiras, invejosas, falsas... e
iam desfiando um rosário de imperfeições
como papagaios, repetindo o que os homens por milênios
as condicionaram a crer sobre si mesmas.
Ficava
pensativa sobre tudo que ouvia e via, achando que
aquela diferença na maneira de ser no mundo
entre homens e mulheres era realmente injusta, contudo,
gostava de ser mulher. Se acaso tivesse oportunidade
de "retornar", pesava, apesar do penar
testemunhado, não queria ser outra coisa
além de mulher. Era acometida por essas divagações,
mas sem entender direito porque a realidade da mulher
era assim tão frustrante e cerceante.
Há
algum tempo não ouço esse protesto
das mulheres no que se refere à primeira
parte das suas antigas insatisfações,
mesmo porque, está ficando cada vez melhor
ser mulher no Ocidente; porém, quanto à
segunda, sobre o que elas pensam de si mesmas, continua
tudo igual.
Isso
equivale a dizer que, mesmo que a mulher tenha andado
conquistando cada vez mais direitos iguais, o (pré)conceito
que tem sobre o feminino, continua péssimo.
Equivale a uma mulher pela metade.
Continua
valendo o que os homens foram colocando para as
mulheres ao longo do tempo, o que elas deveriam
pensar a seu próprio respeito: tolas, frívolas,
invejosas, desunidas, competidoras entre si, pouco
confiáveis, incapazes de serem amigas umas
das outras, etc... enquanto isso, eles fortaleciam
o machismo corporativo.
Agora
a luta parece ser cada vez menos contra o machismo
e mais da mulher com ela mesma, com o ser feminino.
O não ter direito, cedeu lugar ao não
ser.
A
irritação de uma mulher para com outra
provém do conceito que faz sobre si como
mulher. A outra é o espelho do seu mau auto-conceito
cristalizado.
Então,
por que vou me unir a um ser tão infame,
quanto sei que sou como mulher? Vou me aliar às
outras somente quando for para destruir uma terceira
que nos ameaça (mulher sem homem). Como vou
confiar na outra se o macho, ser de grande credibilidade,
me garantiu que não sou confiável?
Por que ser complacente com ser tão inferior?
Tudo
isso há que ser revisto em nosso âmago.
É cada uma puxando sua própria estima
para o alto, aquela mesma que há séculos
foi sendo pisoteada, escarnecida até se transformar
em baixa auto-estima, formando um conceito deplorável
sobre o ser mulher.
A
essência feminina sofreu humilhações,
zombarias e todas as formas de destrato. É
necessário construir um "alto-conceito".
Crer que somos seres perfeitamente inteiras e confiáveis.
Só
a partir daí, despidas dos maus auto-conceitos,
poderemos olhar umas para as outras e não
enxergarmos mais um verme, uma inimiga a ser combatida
e sim pessoas inteiras às quais podemos nos
aliar sem ficar com um pé atrás.
Para
que isso seja possível, é necessário
que a mulher lance um outro olhar sobre si mesma.
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