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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Será que a mulher tem o que
comemorar nesse 8 de março?
Então, vejamos:

Maria Luiza A. Curti
Psicóloga clínica - crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br

05, Março/2002

A mulher pós-"Émile" de Rousseau – para que ninguém se esqueça – tinha as características de Sophie, que ele criou para ser mulher de Émile: "fraca, tímida e submissa".

A mulher distinta em hipótese alguma saia de casa sozinha, era conveniente que contasse com a companhia do marido, filho, de uma senhora idosa, etc...

Seu comportamento era controlado por manuais de etiqueta que indicavam que: rir, falar alto, usar gírias, balançar os braços ao caminhar, cruzar as pernas ao sentar-se, não eram maneiras de "bom tom" (era assim que diziam).

No campo da moda, o espartilho estava mais para armadura medieval, além de não permitir que ela se curvasse, lhe comprimia o aparelho digestivo, atrofiava as costelas, espremia os rins e o fígado, as levando por muitas vezes ao desmaio. Mas, elas eram convencidas da felicidade de ser escravas da moda, então, se submetiam com um sorriso nos lábios e muita palidez no rosto.

Não podiam tomar sol porque a "tez" apreciada era alva como a neve, os lábios rosados, os cabelos finos e longos eram modelados por ferro quente; o olhar, meigo e atento.

Ela era considerada bastante instruída quando sabia ler corretamente suas orações e escrever receitas de bolinhos e outros quitutes; mais que isso era desnecessário e perigoso para o lar.

Tinha como algumas de suas funções: supervisionar o trabalho das serviçais da casa, conferir o rol das roupas, compor o menu semanal, bordar monogramas nas roupas da casa...

Recebia amigas para o chá à tarde. Quando o marido tinha visitas, cuidava do silêncio das crianças e permanecia calada, pois, assim como as crianças "eram para ser vistos e não ouvidos".

Segundo Rousseau: "a mulher é feita especialmente para agradar ao homem". Sua missão na vida: "fazer grandes homens".

Paralelamente a esse esteriótipo de mulher (a maior parte delas aceitava de bom grado o modelo de "Rainha do Lar"), sempre houve mulheres inconformadas , que, claro, eram execradas tanto por homens como por mulheres doutrinadas.

Desmerecer a mulher é uma tradição antiga. Na França em 1877, ao noticiar uma manifestação feminina pelo direito do voto, o jornal Le Figaro perguntou em editorial se, depois disso, até o gado se tornaria eleitor?

Ainda hoje ouvimos coisas como na entrevista de Hélio Gracie concedida à revista Playboy de fevereiro: "O aluno inteligente dá mais trabalho para aprender jiu-jítsu, porque fica pensando antes de fazer o golpe. Uma criança, uma moça, um burro vão aprender mais depressa do que o inteligente".

Apesar da resistência, conquistas foram realizadas ao longo do tempo.

No Brasil, também tivemos nossas sufragistas. Em 1890 o assunto incendiou o Congresso, a emenda não foi aceita, a maioria dos congressistas considerou a idéia "anárquica, desastrada e fatal".

Bertha Lutz, bióloga paulista, liderou movimento decisivo para a conquista do voto em 1918. Influenciou milhares de brasileiras. As pressões foram num crescendo e finalmente, em 1933 o presidente Getúlio Vargas concedeu o direito do voto, que foi garantido pela Constituição de 1934. A mulher só pode votar pela primeira vez em 1945 com a queda da ditadura.

Os espartilhos e cintas apertadas foram aposentados. Passamos a usar calças compridas. A maquiagem já não é um hábito reprovável. Podemos nos matricular em cursos superiores e para isso não precisamos mais de autorização por escrito de pai ou marido. Não precisamos também de autorização para ser contratada no emprego, para comprar e vender imóvel e para dar queixa em delegacia.

Se a mulher não for virgem, não corre mais o risco e nem o constrangimento de ser devolvida ao pai pelo marido, e nem o pai deserdar sua filha por isso.

Podemos decidir se queremos adotar o nome do marido ou não.

A justiça não aceita mais a tese da "legitima defesa da honra" para inocentar homens que matam a mulher por ciúmes ou traição. Aliás, em 1981, o crime praticado pelo cantor Lindomar Castilho, matando sua ex-mulher Eliane de Gramont, foi um divisor de águas. Houve pressões das organizações feministas para que se fizesse justiça.

A lista das conquistas das mulheres é grande; muita coisa mudou, muitas atitudes discriminatórias foram superadas, mas, as reivindicações não terminaram, há muitas questões ainda não solucionadas, diria que percorremos apenas uma parte do caminho, alguns exemplos:

- Salários diferenciados para o mesmo serviço: nos EUA as mulheres ganham 95% do que ganham os homens, aqui chegamos a apenas 67% (dados do IBGE).

- A dupla jornada de trabalho é um caso ainda a ser resolvido. Há homens que protestam porque a aposentadoria por idade para a mulher é aos 60 anos e para o homem aos 65 anos. Acontece que, com a dupla jornada de trabalho que é submetida, a mulher trabalha muito mais que o homem. Enquanto houver esse excesso de trabalho nos ombros das mulheres não há como equiparar.

Por outro lado, a mulher precisa também facilitar a entrada do homem nas atividades do lar. Ela, ainda é muito ciumenta quando se trata de abrir espaço onde antes era domínio seu. Ela o critica sem piedade quando ele tenta se ocupar dos serviços domésticos. Existe a maneira dela e a maneira dele de fazer a mesma coisa. A critica é por ciúme do território.

- A violência contra a mulher ainda faz da sua casa o lugar mais perigoso para ela, assim como para as crianças. Ela sofre nove vezes maior risco de ser agredida do que na rua. 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas à violência doméstica, segundo levantamento da Sociedade Mundial de Vitimologia, sediada na Holanda.

Na violência contra a mulher grávida, poucos falam, por que está encaixada como um todo na violência contra a mulher? Ou talvez seja particularmente doloroso admiti-la? O senso comum vê a gravidez como um estado santificado de paz e beatitude. Quando a violência está presente numa relação é errado pensar que ela não acontece durante a gestação, pode até aumentar. Essas agressões podem resultar em deslocamento da placenta, rotura do útero, fígado ou baço, fratura de pélvis, parto prematuro, rotura prematura das membranas e infecção e fraturas fetais. O Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde que desenvolve esse estudo diz que esse tipo de violência (pré-natal) mostrou uma prevalência de 19% de violência moderada ou severa, comparado com 25% no período de até 6 meses depois do parto.

É da própria mulher que tem de partir o começo da solução. O silêncio sobre a violência reforça a impunidade. Das autoridades espera-se a elaboração de políticas públicas que gerem o fim da impunidade. O agressor tem horror à exposição pública.

Enfim, há muito a ser realizado para que a mulher consiga ser inteira no mundo. Mas, há o que festejar, sim. Já estamos deixando de ser cidadãs de segunda classe. Nossas conquistas merecem ser comemoradas.

Parabéns mulheres! A luta continua!

Maria Luiza A. Curti
psicóloga clínica - crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br

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