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Tecla de Atalho

Monique Passos
03, Abril/2003

 

            Descobri, depois de anos de sofrimento — por ter sido traída por meu marido “n” vezes —, que já não sentia tesão por ele. Meus sentimentos  não atingiram o nível da indiferença, mas também não passaram do limite da amizade. Foi dentro desse clima que  ainda convivi com ele, sob o mesmo teto e compartilhando a mesma cama, por cerca de seis anos. Essa descoberta foi logo após mais um ato de traição.

Conseqüentemente, nessa época, tomei conhecimento e tive acesso à Internet. Freqüentando salas de bate-papos, fiz muitas amizades, aumentando minha perspectiva de vida social, etc. Após dois anos completa integração com o mundo virtual, no início de 1999, conheci uma psicóloga que se propôs a ajudar um grupo de amigos a largar o vício do cigarro — seis meses de total apoio,  e de várias tentativas, consegui, enfim, parar de fumar. Foi exatamente no dia 22 de novembro de 1999.

Coincidentemente, lembro-me de que, nesse mesmo período, meu marido começou a ter crises de ciúmes do computador, da Internet, etc, o que provocou, a partir de então, o que denomino de uma verdadeira guerrilha entre marido e mulher — mas ele só percebeu mesmo que eu falava a verdade quando me viu vários dias sem colocar um cigarro sequer na boca. Mas foi aí, também, que tomei um susto: a partir da abstinência tabagista tive a certeza de que minha vida conjugal havia desmoronado, havia ido por água abaixo.

Tendo dignidade, expus a ele o que havia constatado sobre os meus sentimentos e pedi-lhe que tivesse paciência, que me ajudasse nessa fase da minha vida, pois, mais do que nunca, precisava do total apoio, etc e tal. Só que ele encarou a minha atitude como uma afronta, comportando-se, curiosamente, como um homem que estivesse sendo traído e maltratado pela mulher. Na verdade, em vez de oferecer o ombro amigo, companheiro e cúmplice, ele preferiu ser mesquinho, egoísta e sádico. Além de ser  obrigada a conviver com as crises nervosas provocadas pela falta da nicotina, tão comum no meu organismo durante muitos anos, eu ainda descobri que ele explicava aos meus filhos, empregados e amigos que eu estava enlouquecendo — ele chegou a dizer que, se piorasse, eu teria de ser internada num hospício.

Passados três meses de abstinência do cigarro, já tendo superado a pior fase do fim do tabagismo, eu soube que ele estava, mais uma vez, com uma namoradinha — para todos efeitos, perante a sociedade machista em que vivemos, eu estava sendo novamente traída. Só que desta vez eu já estava decidida quanto à separação. Quando o chamei novamente para acertar os detalhes para nossa separação, amigável, ele não aceitou, dando-me a entender que tal procedimento somente ocorreria por via litigiosa. Como não gosto de brigas, e sabendo que sendo eu a autora da decisão, já com filhos maiores de idade e um emprego em regime de cargo comissionado, seria até burrice da minha parte dar continuidade ao processo de rompimento conjugal. Até porque “eu até poderia sair” dessa união com uma mão na frente e outra atrás.

Fiquei, então, na minha. Só fiz questão de efetivar a separação de corpos (mesmo não-oficializada), deixando bem claro que, com ele, só manteria relação que tivesse a ver com os nossos filhos e bens patrimoniais constituído ao longo dos anos de casamento, com o sacrifício de ambos. Daí por diante ele não escondeu mais a relação que mantinha com a moça perante a sociedade. Esta, por sinal, bem mais jovem e inexperiente, vangloriava-se publicamente com o relacionamento e previa: “dentro um ano quem estará na piscina, de papo para o ar, e tomando conta daquela casa enorme serei eu”. Já decidida ao que queria, eu ficava calada, pois não me interessava mais nada sobre o que se relacionasse com a vida amorosa dele, desde que tudo isso não afetasse minha relação com os meus filhos.

Eu trabalhava, e ainda trabalho, na Câmara de Vereadores, da qual ele era vereador e fora presidente. Meu marido também era médico e, nessa ocasião, a nova namorada até já freqüentava o consultório dele todos os dias. Como ela chegou a ir ao meu local de trabalho para encontrar-se com ele Admiti, então, que já chegara a hora apropriada para chamá-lo e tentar um novo acordo amigável para a separação definitiva, porque só faltava ela passar a freqüentar, também, a nossa casa.

Tornou-se até uma situação incômoda para mim perante a sociedade e meus filhos. Como já havia decidido, chamei-o novamente para outra conversa amigável sobre a nossa situação.Até sugeri que vendêssemos nossa casa e, com o valor obtido, comprássemos dois imóveis: um para mim e meus filhos e outro para ele e a nova companheira. O homem foi tomado por tremenda fúria, transformando-se num verdadeiro monstro.

Sem esconder a tremenda ira, ele me disse que não aceitaria tal proposta porque não queria nova companheira, e que eu, se quisesse e estivesse insatisfeita com a situação, pegasse o caminho da rua. Fiquei abismada com essa reação. Diante desses fatos, passei a indagar-me: “o que esse homem quer, afinal? Sempre foi infiel, destruiu, por um período, minha auto-estima e chegou a ponto de destruir meu amor por ele. Estava a devolver-lhe a independência e ele não a quis”.

Um ano depois ele morreu.

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