Descobri, depois de anos de sofrimento
— por ter sido traída por meu marido “n” vezes —,
que já não sentia tesão por ele. Meus sentimentos
não atingiram o nível da indiferença, mas também
não passaram do limite da amizade. Foi dentro desse clima
que ainda convivi
com ele, sob o mesmo teto e compartilhando a mesma cama,
por cerca de seis anos. Essa descoberta foi logo após mais
um ato de traição.
Conseqüentemente,
nessa época, tomei conhecimento e tive acesso à Internet.
Freqüentando salas de bate-papos, fiz muitas amizades, aumentando
minha perspectiva de vida social, etc. Após dois anos completa
integração com o mundo virtual, no início de 1999, conheci
uma psicóloga que se propôs a ajudar um grupo de amigos
a largar o vício do cigarro — seis meses de total apoio,
e de várias tentativas, consegui, enfim, parar de fumar.
Foi exatamente no dia 22 de novembro de 1999.
Coincidentemente,
lembro-me de que, nesse mesmo período, meu marido começou
a ter crises de ciúmes do computador, da Internet, etc,
o que provocou, a partir de então, o que denomino de uma
verdadeira guerrilha entre marido e mulher — mas ele só
percebeu mesmo que eu falava a verdade quando me viu vários
dias sem colocar um cigarro sequer na boca. Mas foi aí,
também, que tomei um susto: a partir da abstinência tabagista
tive a certeza de que minha vida conjugal havia desmoronado,
havia ido por água abaixo.
Tendo
dignidade, expus a ele o que havia constatado sobre os meus
sentimentos e pedi-lhe que tivesse paciência, que me ajudasse
nessa fase da minha vida, pois, mais do que nunca, precisava
do total apoio, etc e tal. Só que ele encarou a minha atitude
como uma afronta, comportando-se, curiosamente, como um
homem que estivesse sendo traído e maltratado pela mulher.
Na verdade, em vez de oferecer o ombro amigo, companheiro
e cúmplice, ele preferiu ser mesquinho, egoísta e sádico.
Além de ser obrigada a conviver com as crises nervosas
provocadas pela falta da nicotina, tão comum no meu organismo
durante muitos anos, eu ainda descobri que ele explicava
aos meus filhos, empregados e amigos que eu estava enlouquecendo
— ele chegou a dizer que, se piorasse, eu teria de ser internada
num hospício.
Passados
três meses de abstinência do cigarro, já tendo superado
a pior fase do fim do tabagismo, eu soube que ele estava,
mais uma vez, com uma namoradinha — para todos efeitos,
perante a sociedade machista em que vivemos, eu estava sendo
novamente traída. Só que desta vez eu já estava decidida
quanto à separação. Quando o chamei novamente para acertar
os detalhes para nossa separação, amigável, ele não aceitou,
dando-me a entender que tal procedimento somente ocorreria
por via litigiosa. Como não gosto de brigas, e sabendo que
sendo eu a autora da decisão, já com filhos maiores de idade
e um emprego em regime de cargo comissionado, seria até
burrice da minha parte dar continuidade ao processo de rompimento
conjugal. Até porque “eu até poderia sair” dessa união com
uma mão na frente e outra atrás.
Fiquei, então, na minha. Só fiz questão de efetivar a separação
de corpos (mesmo não-oficializada), deixando bem claro que,
com ele, só manteria relação que tivesse a ver com os nossos
filhos e bens patrimoniais constituído ao longo dos anos
de casamento, com o sacrifício de ambos. Daí por diante
ele não escondeu mais a relação que mantinha com a moça
perante a sociedade. Esta, por sinal, bem mais jovem e inexperiente,
vangloriava-se publicamente com o relacionamento e previa:
“dentro um ano quem estará na piscina, de papo para o ar,
e tomando conta daquela casa enorme serei eu”. Já decidida
ao que queria, eu ficava calada, pois não me interessava
mais nada sobre o que se relacionasse com a vida amorosa
dele, desde que tudo isso não afetasse minha relação com
os meus filhos.
Eu
trabalhava, e ainda trabalho, na Câmara de Vereadores, da
qual ele era vereador e fora presidente. Meu marido também
era médico e, nessa ocasião, a nova namorada até já freqüentava
o consultório dele todos os dias. Como ela chegou a ir ao
meu local de trabalho para encontrar-se com ele Admiti,
então, que já chegara a hora apropriada para chamá-lo e
tentar um novo acordo amigável para a separação definitiva,
porque só faltava ela passar a freqüentar, também, a nossa
casa.
Tornou-se
até uma situação incômoda para mim perante a sociedade e
meus filhos. Como já havia decidido, chamei-o novamente
para outra conversa amigável sobre a nossa situação.Até
sugeri que vendêssemos nossa casa e, com o valor obtido,
comprássemos dois imóveis: um para mim e meus filhos e outro
para ele e a nova companheira. O homem foi tomado por tremenda
fúria, transformando-se num verdadeiro monstro.
Sem
esconder a tremenda ira, ele me disse que não aceitaria
tal proposta porque não queria nova companheira, e que eu,
se quisesse e estivesse insatisfeita com a situação, pegasse
o caminho da rua. Fiquei abismada com essa reação. Diante
desses fatos, passei a indagar-me: “o que esse homem quer,
afinal? Sempre foi infiel, destruiu, por um período, minha
auto-estima e chegou a ponto de destruir meu amor por ele.
Estava a devolver-lhe a independência e ele não a quis”.
Um
ano depois ele morreu.