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Entrevista
A pérola
que veio
de Moçambique
16, Março/2002
Entrevista
com Dalila Jabar Torre do Vale, concedida à
Maria da Penha Vieira para publicação
no Portal Domínio Feminino.
Ainda que não me
perdoem pelo clichê, é apropriado, mais
do que apropriado dizer que Dalila é uma mulher
incrivelmente corajosa, dessas pessoas que nunca perdem
a fé, a crença no existir, no viver.
Uma internauta responsável e consciente da
magnitude do poder desse instrumento. Por isso, dela
pode-se dizer que faz e vive internet. Dalila habita
esse Planeta virtual e nele complementa sua vida no
mundo físico. Delicia os amigos com mensagens
sempre cheias de bons augúrios.
O formato desta
entrevista, é uma inovação do
Domínio Feminino. Um formato bem diferente
porque dela participa Dalila complementada por Labi,
seu marido que muito ajudou a iluminar os olhares,
durante nossa entrevista. Na verdade é um gostoso
jogo, cúmplice como o jogo de peteca.
Dalila é
verdadeiramente um modelo da representação
da mulher africana de Maputo, Capital de Moçambique
e o marido, Labi, brasileiro, paulista de sobrenome
quatrocentão. O que não irá constar
desta entrevista é um bastidor estafante
mas muito divertido e impublicável no sentido
da privacidade individual e dos acontecimentos.
Acompanhando os
dois blocos dessa entrevista, nosso leitor irá
descobrindo quem eles são.
Dominio
Feminino Qual o ano da sua vinda para o Brasil.
Dalila
Dezembro de 1988, embora já estivesse vindo
antes, em finais de 1985, quando nasceu o N΄Tamo (
primeiro filho do casamento com Labi ), e depois voltei
em 1987.
Domínio
Feminino
Dalila, aqui no Brasil, quais foram as diferenças
culturais mais difíceis de ultrapassar?
Dalila
O que mais estranhei no início foi a cultura
de "ficar devendo"; foi difícil para
mim usar um cartão de crédito, pois
isso significava para mim estar utilizando algo que
ainda não me pertencia de fato pois eu não
havia pagado efetivamente. Mas depois me acostumei
mas, não tanto a ponto de não viver
sem ele. Hoje vivo sem ele sem problema algum e isso
facilita muito nos dias em que vivemos.
Estranhei
pouca coisa no Brasil no tocante à base da
alimentação, algumas formas de preparo
sim, mas tão saborosas quanto às que
eu estava acostumada.
Domínio
Feminino
Quais as principais diferenças entre a dieta
brasileira, grosso modo, e a moçambicana?
Dalila
Na dieta moçambicana, a alimentação
tem como base o milho, o amendoim e folhas diversas,
na grande maioria do país. Folha de mandioca,
batata-doce, de abóbora entre outras constituem
a base de grandes preparados com pó ou leite
de amendoim. A culinária é também
muito influenciada pela comida Árabe que foram
os primeiros povos de fora a ter contato para comercialização
e rapinagem bem antes dos portugueses.
Domínio
Feminino
Falando em adaptação aos costumes
brasileiros, foi muito complicada, quando da sua chegada
ao Brasil?
Dalila
Minha adaptação foi excelente pois
minha entrada foi pelo Rio de Janeiro, cidade maaaraaavilhooosa
que me recebeu de braços abertos, muito hospitaleira
e onde conheci pessoas que estão guardadas
do lado esquerdo do peito pelo resto da minha vida.
Tenho uma paixão especial pelo Brasil que foi
aumentando à medida que o tempo vai passando.
Cada dia me fascina mais pelo que eu também
aprendo: o brasileiro cultua a liberdade sem muita
formalidade, o carinho e a paixão pelas pessoas,
emoção pura. Claro que tem muita desigualdade
social que contrasta com essa sua benevolência,
nem todos são "bonzinhos" assim,
muitos querem mais é ganhar às custas
do suor e ignorância alheia.
Não
posso deixar de referir que o Brasil me viu amadurecer,
onde pari um filho que representa bem o acolhimento
e a minha vontade de fincar raízes.
Domínio
Feminino
Como hoje, você descreveria seu sentimento
do tempo de sua vinda para o Brasil?
Dalila
Vim para o Brasil com o propósito de acompanhar
a minha família brasileira, o companheiro e
os filhos. e com o desejo de aprender com esta terra
tudo aquilo que me enalteça e faça amadurecer
com dignidade. Hoje sinto vontade de dar um retorno
para a terra que me viu nascer, sinto falta de passar
os conhecimentos que aqui adquiri e que lá
ainda são carentes, as experiências aqui
vividas que me fizeram uma mulher feliz e realizada.
Sinto que se eu tive a felicidade de conhecer o Labi,
vir ao Brasil e aprender o que aprendi, sou uma privilegiada
e não quero que isso fique só para mim.
Domínio
Feminino
A ultrapassagem da saudades da família e
amigos, como é que foi?
Dalila
Meu pai faleceu quando eu tinha tinha 5 anos de
idade. Minha mãe, na época era coordenadora
de escola e hoje trabalha numa import/export. Ainda
vive em Moçambique, meus irmãos por
parte de mãe, Bem Hur e Mimi ( Hermingarda
), meus amigos, Mia Couto, que foi meu cunhado, o
grande pintor Malangatana que é reconhecido
mundialmente e muitos outros, que hoje, um é
Ministro da Educação, outro ministro
da Indústria e Comércio, mais outro,
Reitor da nossa Universidade Federal, UEM Universidade
Eduardo Mondlane e muitos outros que, mesmo sem
ocupar cargos tão elevados ou que embora não
sejam figuras públicas internacionais como
o Mia e Malangatana são pessoas ainda envolvidas
com a construção de novos valores e
mudanças para uma vida melhor do povo moçambicano.
Recentemente, voltando de férias, reencontrei-os
a todos com muita felicidade e orgulho deles. Durante
os anos que fiquei sem voltar ao meu País,
tive que conviver com a saudade de tantas pessoas
tão amadas.
Domínio
Feminino
Na sua fala, com relação as saudades
dos parentes e amigos tem um tom de engajamento político?
Até porque, antes, você mencionou o desejo
de retornar toda sua vivência e experiência
no Brasil como contribuição ao seu País,
Moçambique.
Dalila
Mesmo que pareça discursivo, quando falo
de Moçambique que é conhecido como
a pérola do Índico, e é uma pérola
mesmo tanto bela sua beleza natural de belas praias
e ilhas lindíssimas como pelo seu povo hospitaleiro,
alegre, mas também guerreiro a pergunta me
leva àquele clima de muita luta política
que vivi e vivo embora hoje, à distância.
Vou
te falar de Moçambique, quando vivia momentos
de felicidade e glória pela independência
em 1975 quando em 1981 alguns poderosos e sanguinários
acharam que não merecíamos paz para
construir um país livre com governo próprio,
o que estava sendo conseguido! Todos de uma forma
direta e indireta se viram envolvidos e prejudicados
por interesses alheios ao nosso propósito de
crescimento e desenvolvimento. Foi neste clima de
início de guerra e de construção
e manutenção de um sonho que eu conheci
o Labi, um guerreiro , que como muitos haviam se proposto
a participar da construção do sonho
com suas experiências, seus conhecimentos e
suas vidas.
Foi
numa exposição fotográfica de
fotos sobre um grande momento da história de
Moçambique, na consolidação de
seus propósitos de liberdade para todos, e
condições equilibradas e direitos e
deveres iguais para todos. Labi se empenhava em retratar
o outro lado das formalidades e das conquistas e do
sofrimento da guerra recente de 20 anos contra os
portugueses e mais recente com um poder megalômano
e egoísta: o povo feliz, dançarino por
natureza, com muita sensualidade, de mulheres com
muita fibra e garra e que, nas pequenas ou nas grandes
realizações empenhava o seu coração
e a vida (literalmente).
Labi,
complementando Só vou finalizar isso que
a Dalila falou. Hoje, apesar dos vestígios
da guerra ainda presentes, se percebe no povo uma
garra muito grande para a sobrevivência e pela
manutenção da dignidade que a guerra
quis abalar. Uma guerra cujo benefício foi
só para aqueles que não estavam acostumados
a ver os outros felizes, que só ganhavam com
a desgraça dos outros.
Domínio
Feminino
Então foi aqui que vocês se encontraram,
é isso mesmo? Na guerra?
Labi
Não mais na guerra... com o Guerra. Fui primeiro
para uma estada de dois meses, para dar um curso e
conhecer o País. Na década de 70, fui
convidado pelo Ruy Guerra em 1980 para ir colaborar
com o processo de reconstrução nacional
em Moçambique, através do Ministério
da Informação de Moçambique,
para revigorar a atividade de produção
de cinema e auxiliar na edificação da
TV no País.
A proposta era formar técnicos de cinema, cineastas,
e desenvolver a atividade para aumentar o poder de
comunicação e o esforço de desenvolvimento
nacional. Mais adiante conheci Dalila. Fica para o
outro bloco da entrevista, pode ser?
Bloco
02
Moçambique, tradição
e costumes, casamento, Lobolo, ritos de iniciação
e prática sexual...
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