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Entrevista

A pérola que veio
de Moçambique

12, Abril/2002

 Bloco 02
 Tradições, sexo e casamento

 O sexo na Cultura

Domínio Feminino — Labi, pela nossa ótica ocidental, seria um equívoco pensar o povo africano, um povo tão pobre e desvalido, como um povo infeliz?


Labi — Não poderia haver equívoco maior. Esse papo de sofrer, de ser infeliz, de sacrifício para entrar no reino dos céus é coisa do lado de cá, da cruz e da espada! O povo africano não entende assim.
O maior erro que as pessoas fazem é julgar o africano, os povos africanos, as culturas africanas, pelos filtros ocidentais de leitura e entendimento. Por isso fica todo mundo desbundado, achando que eles são infelizes ou bizarros.

Na verdade, bizarro é um branco europeu não tomar banho, não ter higiene, não se despir de roupas e abrigos durante 24 horas do dia.
No calor africano, com a comida temperada com pimenta, e muito amendoim, peixe, mariscos, e outros condimentos, é impossível não andar pelado, não tomar vários banhos, não trepar várias vezes por dia. Principalmente, porque esse papo de "amor" e trepar só com o parceiro encantado, lá não funciona. Deu vontade, é o que basta!

Domínio Feminino — "Deu vontade, é o que basta! " tem algum significado cultural?

Labi — Refiro-me à mulher e ao homem que são preparados, tatuados para fazer sexo pleno. Não no modelo ocidental. A coisa funciona num apredizado ainda bem cedo, tanto para meninos como para meninas. Assim, não tem essa coisa de "fazer amor". Isso para o africano, mereceria uma boa gargalhada de tão falso que soaria. Melhor, penso que eles sequer entenderiam. Na África, Os Ritos de Iniciação fazem parte da educação do ser humano.

Dominio Feminino — No que consiste esses Ritos de Iniciação?

Dalila — Esses ritos de iniciação, ou rituais de iniciação, são a forma de transmissão e ensinamento da cultura oral aos jovens. São feitos pelos mais velhos, as mulheres ensinam as meninas e os velhos os garotos. Todos aprendem tudo nesse processo que dura anos seguidos e faz parte o aprendizado sexual. São realizados em etapas, com festejos e muitos retiros para acampamentos. As meninas aprendem a eliminar o hímen.

Labi ( complementando ) — Falando em etapas, é interessante dizer que depois a receber a penetração de falos — artificiais para a eliminação do hímen objetivando livrar a mulher do trauma da primeira penetração por um homem —, e perder a sensibilidade excessiva do clitóris, para poder ter prática sexual prolongada e prazerosa. Ela deve proporcionar o máximo de prazer sexual ao homem e isso faz dela uma esposa valorizada. Os meninos também aprendem com os velhos o que devem fazer para serem grandes amantes e homens de honra. O segredo, entre eles é vital para preservar a cultura.

Dalila — Em outros exercícios as meninas fazem o que depois foi chamado de pompoarismo — agora parece que é moda, entre adultos, no Brasil, não é? —, ou seja, aprendem, desde muito cedo, meninas ainda, quando a musculatura é tenra, a controlar os músculos vaginais. Em outros exercícios, esticam e fortificam os grandes lábios, fazendo com que cresçam, para dar movimento a eles durante a relação, permitindo que façam uma massagem na base do pênis com se fossem anéis de contração.

Durante o aprendizado, são fabricados pequenos falos de madeira que são introduzidos na vagina, para obtenção do alargamento do hímen. Depois, esses falos são aumentando o tamanho até que atinjam o tamanho de um pênis de um adulto da raça negra. Isso acaba por evitar o famoso e tão conhecido trauma "ocidental" que costuma acontecer com a primeira penetração vaginal. Isso sem contar com o despreparo do homem ocidental.

Labi ( complementando ) — E olha que os negros são avantajados! Elas praticam o pompoarismo durante anos e quando estão na puberdade, chegando a menstruação, já são mulheres e podem se casar, pois já receberam todo o ensinamento que necessitam para serem boas amantes do marido.

Dominio Feminino — Acho que o lance de "cortar" o clitóris tem que ser muito bem explicado. Pois o caso daquela modelo, na Europa, escandalizou o mundo. E parece que a moça não tem orgasmo mesmo.

Labi — Os ritos de iniciação não são bárbaros. Esse papo de cortar o clitóris, pode acontecer em alguns povos, mas são poucas culturas que o praticam. Na verdade, existe um treinamento de diminuição da sensibilidade do clitóris, apenas para deixar a mulher com mais controle sobre suas sensações.

Dominio Feminino — Como é feita essa desensibilização do clitóris?

Labi — Em alguns povos eles fazem uma espécie de lixamento suave para diminuir a sensibilidade da mucosa. Mas não corta as sensações, apenas dá mais controle. Faz parte do conjunto dos ritos de iniciação sexual.

Domínio Feminino — ( risos ) Labi, como foi essa coisa do seu encontro da prática do sexo ocidental com a prática africana, enfim, com toda esta cultura? Como foi que bateu?

Labi — Para você, em especial, comento, que todo mundo acha uma maravilha que as mulheres façam isso e aquilo, etc... mas não pense que elas também não exigem dos homens. Tem que ser bom para satisfazer uma mulher que tenha um bom treinamento e saiba o que é transar com competência.
Os homens tem que ser capazes e conhecer como excitar e dar prazer. Enfim, o "brancão" aqui teve que se aprimorar ( risos e zoação com os ocidentais ).

Domínio Feminino — Os ritos de iniciação são abertos?

Dalila — Não, não.

Labi — Eu presenciei alguns ritos de iniciação pois tinha que filmar para um documentário que a Organização da Mulher Moçambicana, organismo de classe muito forte e atuante, encomendou. Fui dos poucos privilegiados a poder conhecer alguns dos ritos de iniciação, em Moçambique. Tanto de jovens rapazes como de garotas. É algo muito difícil de contar e explicar aos ocidentais. Também tenho que guardar segredo pois foi com essa condição que pude conhecer. Só algumas pessoas de extrema confiança puderam assistir e filmar e, mesmo assim, apenas poucas etapas do processo. Mas recebi um material enorme, com descrição escrita de muitas das práticas dos rituais. Estávamos fazendo um estudo para preparar materiais de esclarecimento. Senão, as pessoas ficam como no caso dessa modelo que fez um tremendo bafafá e criou um idéia completamente errada da coisa. Isso é material para desestabilizar e desacreditar a cultura do oprimido. Coisa de Patrulha Ideológica Xiita da Extrema Direita e tendenciosa.

É preciso entender que isso é uma cultura milenar e que se mantém viva nas regiões mais distantes dos centros urbanos.

Dalila, complementando — ...nas cidades, as populações que foram se ocidentalizando, deixaram de praticar muitos desses rituais. Mas alguns ensinamentos e preceitos permanecem preservados pois são a essência da cultura. Não dá para ser entendido fora do contexto cultural.

Labi, complementando — E pior, sem conhecer a África Negra — que é um caldeirão de povos e culturas sem contar as dezenas de línguas e suas singularidades, muito embora a base seja a mesma até em Moçambique onde se fala dezenas de línguas diferentes.

É bom lembrar que se as mulheres ocidentais soubessem uma pequenina parte do conhecimento que as africanas têm sobre sexo, não teria sentido o Relatório Hite, nem Kinsey, nem traumas que acarretam a chamada frigidez.

Domínio Feminino — Esse ritos de iniciação, parecem, que tem tudo a ver com o Kama Sutra?

Dalila — Dentro do nosso modelo cultural e de padrão sexual, só tem a ver. Para vocês aqui, na cultura ocidental, parece balela, mas não o é, para nós africanos ou povos de cultura essencialmente oriental. Levamos o aprendizado tanto quanto seu objetivo, que é extrair a maior qualidade do prazer sexual, também, muito a sério. Em nenhuma aldeia de Moçambique nenhuma mulher se envergonha em expor seus seios e usam apenas saias. Nos rios e praias é comum ver mulheres adultas e jovens totalmente descobertas.

Labi, complementando — É o seguinte, o povo africano, ama, faz sexo, luta, guerreia de forma inteira e não transige com o mais ou menos. Melhor, não tem essa nossa carga judaico-cristã que deformou, demais, nossa sociedade ocidental. A Natureza é determinante tanto na atitude como no comportamento.

Domínio Feminino — Problemas existenciais, emocionais ou materiais, você considera que podem afetar ou desviar a libido feminina. Arrefecer, digamos assim?


Dalila — Considero que qualquer problema pode afetar dependendo da vivência e da história de cada um e da dimensão dada a cada problema. Para mim os emocionais afetam mais que os materiais. Eu venho de um lugar onde estamos acostumados a ter prazer mesmo sem ter o que comer e sem dinheiro . Não poder comprar um sofá novo, ou não conseguir pagar a prestação do carro , não pagar o plano de saúde, o colégio particular e coisa e tal é uma realidade ainda longe da rotina local e não é razão suficiente para não se dar ao prazer. Ser pobre, não ter o bem material, não altera vontade de querer trepar.


Domínio Feminino —
Então, o que altera?


Dalila
— O que altera sim é uma resposta mal dada, uma atenção não dada, prestar atenção em outra e não em você (no meu caso isso funciona ao contrário pois isso só me faz ficar com mais vontade ).


Dominio Feminino
— Mesmo numa cultura que valoriza tanto o sexo como fonte de prazer, com toda preparação, esses fatores causam estragos seguindo um padrão igual ao do Ocidente ?


Dalila
— Para as pessoas que já estão influenciadas por uma ocidentalização na sua cultura, pode afetar, mas para a grande maioria das mulheres de lá isso não está ainda no foco principal dos problemas. O povo ainda está preocupado com a solução dos grandes problemas de sobrevivência. Mas tudo que faz parte da natureza humana, medo, insegurança, rejeição, solidão, e as pessoas que sentem isso, certamente terão isso afetando as relações e o desejo. Ainda é genuína a busca do prazer, como um complemento da existência e as pessoas buscam isso em tudo, na dança, na comida, em outras manifestações, principalmente no que está ao seu alcance, como o sexo.

Recebi a educação muçulmana, estudei o Corão, mas também tive educação formal em escola ocidental, orientada por portugueses. Isso me fez ter parâmetros de avaliação. A luta armada de libertação de Moçambique, a Independência, me pegaram jovem e toda a base socialista daquela época complementaram uma visão dialética que me deram independência de opinião. Não pratico nenhuma religião e nem faço força para que meus filhos tenham opção antes de serem capazes de escolher. Tenho uma forte rejeição por enquadramentos, dogmas, e verdades absolutas. A liberdade é o direito de escolher e agir.

Gostaria de acrescentar que os dilemas existenciais do Ocidente e da África, não podem ser comparados ou vistos pela mesma ótica. São realidades diferentes, etapas de necessidades e interesses diferentes, e processos históricos com milhares de anos de diferença. As influências do mundo atual, Globalizado, parecem fazer com que tudo seja colocado no mesmo padrão, o que não serve para esse tipo de leitura.
Também, a coisa da sexualidade atualmente preocupa as pessoas aqui no ocidente, porque na verdade, muitas coisas ficaram reprimidas, mal resolvidas, outras exacerbadas, ou, na melhor das hipóteses, sexo sempre foi filtrado por aqui, através de uma ótica religiosa, do pecado, do proibido, o que lá, não acontece, e se recebe uma educação completamente contrária. Isso não significa que para os Muçulmanos, para os cristãos de agora, ou evangélicos, essa não seja mais uma fonte de geração de conflitos com a cultura original. A sociedade ocidental foi se distanciando tanto do prazer do contato, do prazer da relação com outro, da interação em grupo, como resultado de um modelo individualista e racional, que está falido, ao meu modo de ver, e então busca-se uma séria de fórmulas, modelos, que na verdade, não existem, só podem existir através de uma abertura para um relacionamento mais livre e sadio, onde as pessoas busquem prazer de fato e não o prazer idealizado por modelos.

Dominio Feminino
— Você acha que esses fatores, também, afetam os homens ou você acha que eles são menos afetados? Ou ao menos reagem diferente das mulheres?

Dalila — Os homens reagem de maneira diferente das mulheres, até porque a cultura masculina é mais machista e vê as coisas por outro ângulo. Eles são educados e sentem que tem o direito e o dever de ter prazer, e são mais afetados se as mulheres não atendem as suas necessidades. Muitos, se ficam insatisfeitos com a mulher, devolvem para a família e reclamam, pois ela não cumpriu seu papel de esposa como é culturalmente entendido pois que foram educados para isso. Outros arrumam outras mulheres pois a tradição assim permite e com mais esposas, resolvem sem maiores conflitos.

Dominio Feminino — Labi, o que mais é tão marcante na cultura Moçambicana, na África, comparando aos nossos padrões?

Labi — Tem muita coisa que soa "herético" para nossos padrões e vou pontuar só alguns, além dos Ritos de Iniciação Sexual:

1 — Lobolo em Moçambique é o termo que designa o pagamento que o pretendente ou noivo faz à família da noiva.
Ao contrário do que se pode pensar, não é a compra da noiva. Ela não é mercadoria. Na cultura Africana, isso é uma prova que o noivo tem alto apreço pela noiva. É o reconhecimento do valor dela, retribuindo o investimento que a família da noiva fez na preparação dela. Quanto mais preparada, prendada, estudada, maior o valor. (Quanto mais valiosa, mais respeito ele terá por ela. Mesmo com a influência ocidental e marxista de anos a fio, essa cultura milenar tem grande influência e tradição e acredito que a noiva que sabe que o noivo fez enorme sacrifício para pagar o seu Lobolo a família se sente envaidecida e valorizada.
Em Moçambique, coexistem várias influências de culturas e credos. Os árabes deixaram o Corão (al corão) muito antes da chegada dos cristãos. Numa sociedade da cultura negra poligâmica, isso não foi difícil aceitar.
Depois, as influências dos protestantes, os países vizinhos foram colonizados por ingleses, Holandeses, "BOers" etc, onde não havia muita implicância quanto à poligamia. O cristinanismo veio depois e não é maioria.
2 — A poligamia em Moçambique foi sempre aceita e respeitada, um homem pode ter várias mulheres, e a mais velha ajuda na escolha da Segunda e assim por diante. A riqueza da família também crescia e se demonstrava assim. Um grupo de várias mulheres divide melhor a produção e as responsabilidades da família. O homem é o guardião, tem que presentear as esposas, defender, proteger sua produção e atender sexualmente as mulheres (que o atendem também)
3 — Quando uma mulher não pode ou não consegue ter filhos pode ser devolvida à família e esta deve devolver o Lobolo ou parte dele. É uma falha grave a mulher não engravidar.
aprendem com os velhos o que devem fazer para serem grandes amantes e homens de honra. O segredo, entre eles é vital para preservar a cultura.
4 — O respeito aos mais velhos é uma coisa levada muito a sério.

 

Casamento e Lobolo

 

Domínio Feminino ( dirigida ao Labi ) — Por falar em Lobolo, quando você se decidiu por pedir a Dalila em casamento, o Lobolo foi muito alto?

Labi — Eu paguei uma fortuna! O valor pelas qualidades dela e os investimentos em educação — formada em Agronomia e Pedagogia em Moçambique mas aqui não tem reconhecimento do MEC, com alto nível cultural e intelectual — feitos pela família faziam com que o Lobolo fosse muito alto. Só que, o uso da palavra pagamento, é só para que fique mais fácil de entender, porque na verdade, esse "preço" chama-se Lobolo, assim como o nosso dote ( que ainda existe e é caríssimo, pago para o resto da vida ) só que aqui não se pode devolver e receber o dinheiro de volta. Reforço que lá, a cultura diz que a mulher é tão importante que não pode ser gratuita. Aqui, o dote enrustido é apenas pelo dinheiro mesmo e tanto é enrustido que as pessoas negam por vergonha. Dinheiro pelo dinheiro.

Dominio Feminino — Mas quem estipula o valor para o Lobolo, a família da noiva ?

Labi — A família da noiva se reúne, vários parentes, os tios maternos tem mais influência que os tios paternos. No norte do País por exemplo, um dos Povos ( Os Macuas) que tem as mulheres mais belas do Sul do Saara, a linha de família é Matrilinear - e discutem até estabelecer o valor.

Dominio Feminino — O noivo pode apresentar argumentos para o valor a ser pago, tem pechincha, ou coisa assim?

Labi — O noivo negocia, claro, pois entram cabeças de gado, galinhas, tecidos, bebidas, alimentos, ferramentas, dinheiro, bens, etc... conforme o que ele acha mais fácil de conseguir pagar. Então, ou começa a juntar ou começa a pagar as prestações enquanto noiva e só quando paga pode casar.


Dominio Feminino — Dalila, por que o sobrenome Mendonça não consta do seu sobrenome?


Dalila — Na verdade eu não sou Mendonça, sou Torre do Vale e continuarei sendo, embora tenha escolhido como parceiro alguém com esse sobrenome. A minha identidade continua a mesma, não é um nome que determina o valor da relação e nem fui classificada como mercadoria, "esposa de"..

Dominio Feminino —- Afinal, a escolha do marido pode ser decidida pela mulher?


Dalila — No modelo tradicional não.

Dominio Feminino —- Se ela tiver coragem para recusar, qual é a reação da família ? Aceita? Castiga? Obriga?


Dalila — A família força e se em último caso ela não concorda, rompe com a família e se vê excluída. Também gera um problema de aceitação na sociedade. Isto só não ocorre nos casos em que a mulher já fez escolhas e posturas que contradizem essa tradição.

Dominio Feminino —- Ou tudo isso depende de como a família vê tudo isto?


Dalila — Claro, o processo está em conflito, o velho e tradicional, contra o novo e ocidental. É mais agudo nos centros urbanos. No campo ainda existe a relação tradicional.

Homossexualismo

Domínio Feminino — Dentro da cultura como é vista a prática do homossexualismo feminino?

Não existe repressão ou julgamento quando as mulheres praticam sexo entre elas. Elas praticam para promover o prazer ou para suprir a falta de homens ( que migram em busca trabalho ou para a guerra. Entre nós, ocidentais é que a prática é rotulada de homossexualismo, na África Negra, não.

AIDS

Dominio Feminino — Diante da gravidade da assolação da Aids, na cultura africana, no que concerne ao assunto sexo, haverá mudanças de comportamento e por conseguinte perda cultural ?

Dalila — As mudanças já estão acontecendo há muito tempo. A Aldeia Global fez com que todos os povos e culturas façam influência. Mas nas sociedades mais distantes dos centros urbanos, entre os camponeses, existe ainda muita resistência às mudanças e isso está acarretando uma violenta crise, com a AIDs se alastrando de forma catastrófica. A pobreza, a falta de comunicação e de recursos, coloca tudo muito complicado.

Hoje a situação chega a ser devastadora por conta dessa resistência "burra" e de achar que nunca acontecerá consigo próprio. A cada dia surgem novos casos de pessoas (até as conhecidas) morrendo, mesmo tendo tido informação e acesso a formas de prevenção. Hoje a campanha nas TVs é muito forte, algumas ONGs estão por lá auxiliando para minimizar novos casos e sobretudo evitar que nasçam crianças aidéticas que é a pior das situações! Nossa cultura precisa, como em todas as outras de trabalho educativo, de conscientização.

Domínio Feminino — Na África, vocês acreditam na possibilidade de experimentos bacteriológicos acontecerem lá?

Labi — E onde mais se pode "promover" revoluções, guerras, testes de guerra bacteriológica, experimentos como a AIDS, além de explorar o exercício de financiar empréstimos para reconstruir, e depois financiar os contras para destruir e endividar tudo de novo? Conhece aquela: quem cuspir primeiro, ganha? É isso que fazem com a África e levam sempre a melhor e o crioléo que se ferre. A África não cobra por isso, não é?


 

 

 

 

LOBOLO
No casamento tradicional (
lobolo não é como se nomeia o casamento tradicional, em si. É como chamam o equivalente ao nosso "dote" - Mas é diferente - a mulher não tem o direito de escolher o seu marido. Em geral, o noivo (futuro marido) é escolhido pelos pais e a existência na região de alguém, mesmo um velho, usufruindo de um certo prestígio na região é motivo suficiente para ser o preferido para noivo da filha, mesmo sendo um desconhecido para ela. A rapariga é educada de uma forma diferente da do rapaz de modo que o sentimento de inferioridade é inculcado nela.
O lobolo ou 'o preço da noiva', é o valor atribuído às qualidades da noiva, para recompensa da família, pelo investimento que teve na sua formação. Esta prática, de retribuir com prendas oferecidas pelo noivo aos pais da noiva, foi muito criticada durante a luta de Moçambique pela independência, como sendo uma prática negativa em que as mulheres eram objecto de uma transação comercial. Após a independência, o seu papel na sociedade foi sujeito a inúmeras discussões. No entanto, continua a ser olhado por alguns, como uma instituição que oferece alguma proteção à mulher. Com efeito, o pagamento do lobolo origina um forte compromisso por parte das famílias, quer do noivo como da noiva, no crescimento da nova unidade familiar.
Na revisão da Proposta de Lei da Família Moçambicana, Gita Welch et al (1985) (Uma das maiores autoridades jurídicas da Vara de Família em Moçambique) concluíram que o lobolo deveria ser simbolicamente mantido no cerimonial do casamento. (Esta é uma visão atual) Contudo, as prendas são apenas uma parte da transação que constitui a base do contrato do casamento. O lobolo, representa, de uma forma simplista, a transmissão do trabalho da mulher, do pai para o marido. Por outro lado, o direito à propriedade que a noiva tinha na comunidade do seu pai perde-se com o casamento, e em contrapartida dever-lhe-á ser entregue terra e outros recursos na comunidade do marido. Aqueles autores, de algum modo, simplificam o problema das mulheres e da propriedade, quando sugerem que a solução legal para uma ruptura do casamento seria providenciar uma casa à mulher divorciada. Com efeito, para uma mulher rural divorciada, a casa da família é apenas a primeira das suas necessidades. Ela também precisa de acesso aos campos e árvores que adquiriu pelo casamento. Mas o objectivo do lobolo é, precisamente, negar à mulher o controle direto sobre os direitos de propriedade. Serve de compensação para o pai da noiva pela perda do trabalho da sua filha, e em contrapartida o marido assume a obrigação de proporcionar à mulher os meios para aquela se manter bem como aos seus filhos. O lobolo só se tornará simbólico quando o acesso da mulher à propriedade deixar de ser mediado por um contrato de casamento.

 

Sobre nossa entrevistada:



Dalila completou 40 anos neste setembro 2001; nascida em Maputo ( capital de Moçambique ), Formada em Agronomia e Pedagogia em Moçambique (não reconhecido pelo MEC) cursou Relações Internacionais na Estácio de Sá e interrompeu. Está no quarto ano de Administração na UNIVAG - MT.

Casada com o cineasta e publicitário Labi Mendonça, paulista, tem três filhos, dois homens e uma mulher. Atualmente coordena um setor de atuação do SEBRAE - MT — Mora em Cuiabá, Mato Grosso.

Cronologia dos fatos políticos e fatos pessoais. Dalila e Labi trabalharam juntos no que eles denominam de esforço de reconstrução Moçambicana.

 


1962 a 1975 - Luta Armada da FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique - contra Portugal.
1975 - Portugal praticamente perde a guerra e acontece a Independência, negociada nos Acordos de Lusaka.
1975 - Período da primeira fase de reconstrução Nacional com a Frelimo no Poder. Opção Socialista e Partido único - É a revolução permanente, que dura até início da década de 90.
1980 - Labi chega em Moçambique no momento mais eufórico do esforço de reconstrução nacional. Moçambique se desenvolve bem, tenta criar a TV, apoia o Zimbábwe (antiga Rodézia) na sua luta de libertação.
1981 - Incremento do apoio aos dissidente de Moçambique, em movimentos armados pela Äfrica do Sul (racista do Apartheid) para desestabilizar Moçambique e sua revolução sem preconceito de raça ou religião.
1983 - Dalila e nos conhecemos e nos casamos.
1989 – Dalila, eu e as crianças retornamos ao Brasil, de vez.
Detalhe, em Moçambique os movimentos armados se dissimulam de guerra civil. Se alguém desejar saber mais no Museu da Imagem e do Som, na Cinematica ou na TVE, tem um documentário de Longa Longa Metragem que eu produzi, dirigido pelo Mário Borneth, intitulado Fronteiras de Sangue! Está tudo lá, 25 anos de guerra na Africa.

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