|
Entrevista
A
pérola que veio
de Moçambique
12, Abril/2002
|
|
Bloco
02
Tradições, sexo
e casamento
O
sexo na Cultura
Domínio
Feminino
Labi, pela nossa ótica ocidental, seria um
equívoco pensar o povo africano, um povo tão
pobre e desvalido, como um povo infeliz?
Labi Não poderia haver equívoco
maior. Esse papo de sofrer, de ser infeliz, de sacrifício
para entrar no reino dos céus é coisa
do lado de cá, da cruz e da espada! O povo
africano não entende assim.
O maior erro que as pessoas fazem é julgar
o africano, os povos africanos, as culturas africanas,
pelos filtros ocidentais de leitura e entendimento.
Por isso fica todo mundo desbundado, achando que eles
são infelizes ou bizarros.
Na verdade, bizarro é um branco europeu não
tomar banho, não ter higiene, não se
despir de roupas e abrigos durante 24 horas do dia.
No calor africano, com a comida temperada com pimenta,
e muito amendoim, peixe, mariscos, e outros condimentos,
é impossível não andar pelado,
não tomar vários banhos, não
trepar várias vezes por dia. Principalmente,
porque esse papo de "amor" e trepar só com
o parceiro encantado, lá não funciona.
Deu vontade, é o que basta!
Domínio
Feminino "Deu
vontade, é o que basta! " tem algum significado
cultural?
Labi
Refiro-me à mulher e ao homem que são
preparados, tatuados para fazer sexo pleno. Não
no modelo ocidental. A coisa funciona num apredizado
ainda bem cedo, tanto para meninos como para meninas.
Assim, não tem essa coisa de "fazer amor".
Isso para o africano, mereceria uma boa gargalhada
de tão falso que soaria. Melhor, penso que
eles sequer entenderiam. Na África, Os Ritos
de Iniciação fazem parte da educação
do ser humano.
Dominio
Feminino No
que consiste esses Ritos de Iniciação?
Dalila
Esses ritos de iniciação, ou rituais
de iniciação, são a forma de
transmissão e ensinamento da cultura oral aos
jovens. São feitos pelos mais velhos, as mulheres
ensinam as meninas e os velhos os garotos. Todos aprendem
tudo nesse processo que dura anos seguidos e faz parte
o aprendizado sexual. São realizados em etapas,
com festejos e muitos retiros para acampamentos. As
meninas aprendem a eliminar o hímen.
Labi
( complementando ) Falando em etapas, é interessante
dizer que depois a receber a penetração
de falos artificiais para a eliminação
do hímen objetivando livrar a mulher do trauma
da primeira penetração por um homem
, e perder a sensibilidade excessiva do clitóris,
para poder ter prática sexual prolongada e
prazerosa. Ela deve proporcionar o máximo de
prazer sexual ao homem e isso faz dela uma esposa
valorizada. Os meninos também aprendem com
os velhos o que devem fazer para serem grandes amantes
e homens de honra. O segredo, entre eles é
vital para preservar a cultura.
Dalila
Em outros exercícios as meninas fazem o que
depois foi chamado de pompoarismo agora parece que
é moda, entre adultos, no Brasil, não
é? , ou seja, aprendem, desde muito cedo,
meninas ainda, quando a musculatura é tenra,
a controlar os músculos vaginais. Em outros
exercícios, esticam e fortificam os grandes
lábios, fazendo com que cresçam, para
dar movimento a eles durante a relação,
permitindo que façam uma massagem na base do
pênis com se fossem anéis de contração.
Durante
o aprendizado, são fabricados pequenos falos
de madeira que são introduzidos na vagina,
para obtenção do alargamento do hímen.
Depois, esses falos são aumentando o tamanho
até que atinjam o tamanho de um pênis
de um adulto da raça negra. Isso acaba por
evitar o famoso e tão conhecido trauma "ocidental"
que costuma acontecer com a primeira penetração
vaginal. Isso sem contar com o despreparo do homem
ocidental.
Labi
( complementando ) E olha que os negros são
avantajados! Elas praticam o pompoarismo durante anos
e quando estão na puberdade, chegando a menstruação,
já são mulheres e podem se casar, pois
já receberam todo o ensinamento que necessitam
para serem boas amantes do marido.
Dominio
Feminino Acho
que o lance de "cortar" o clitóris tem que
ser muito bem explicado. Pois o caso daquela modelo,
na Europa, escandalizou o mundo. E parece que a moça
não tem orgasmo mesmo.
Labi
Os ritos de iniciação não são
bárbaros. Esse papo de cortar o clitóris,
pode acontecer em alguns povos, mas são poucas
culturas que o praticam. Na verdade, existe um treinamento
de diminuição da sensibilidade do clitóris,
apenas para deixar a mulher com mais controle sobre
suas sensações.
Dominio
Feminino
Como é feita essa desensibilização
do clitóris?
Labi
Em alguns povos eles fazem uma espécie
de lixamento suave para diminuir a sensibilidade da
mucosa. Mas não corta as sensações,
apenas dá mais controle. Faz parte do conjunto
dos ritos de iniciação sexual.
Domínio
Feminino ( risos ) Labi, como foi essa coisa
do seu encontro da prática do sexo ocidental
com a prática africana, enfim, com toda esta
cultura? Como foi que bateu?
Labi
Para você, em especial, comento, que todo
mundo acha uma maravilha que as mulheres façam
isso e aquilo, etc... mas não pense que elas
também não exigem dos homens. Tem que
ser bom para satisfazer uma mulher que tenha um bom
treinamento e saiba o que é transar com competência.
Os homens tem que ser capazes e conhecer como excitar
e dar prazer. Enfim, o "brancão"
aqui teve que se aprimorar ( risos e zoação
com os ocidentais ).
Domínio
Feminino
Os ritos de iniciação são abertos?
Dalila Não,
não.
Labi
Eu presenciei alguns ritos de iniciação
pois tinha que filmar para um documentário
que a Organização da Mulher Moçambicana,
organismo de classe muito forte e atuante, encomendou.
Fui dos poucos privilegiados a poder conhecer alguns
dos ritos de iniciação, em Moçambique.
Tanto de jovens rapazes como de garotas. É
algo muito difícil de contar e explicar aos
ocidentais. Também tenho que guardar segredo
pois foi com essa condição que pude
conhecer. Só algumas pessoas de extrema confiança
puderam assistir e filmar e, mesmo assim, apenas poucas
etapas do processo. Mas recebi um material enorme,
com descrição escrita de muitas das
práticas dos rituais. Estávamos fazendo
um estudo para preparar materiais de esclarecimento.
Senão, as pessoas ficam como no caso dessa
modelo que fez um tremendo bafafá e criou um
idéia completamente errada da coisa. Isso é
material para desestabilizar e desacreditar a cultura
do oprimido. Coisa de Patrulha Ideológica Xiita
da Extrema Direita e tendenciosa.
É preciso entender
que isso é uma cultura milenar e que se mantém
viva nas regiões mais distantes dos centros
urbanos.
Dalila,
complementando ...nas cidades, as populações
que foram se ocidentalizando, deixaram de praticar
muitos desses rituais. Mas alguns ensinamentos e preceitos
permanecem preservados pois são a essência
da cultura. Não dá para ser entendido
fora do contexto cultural.
Labi,
complementando E pior, sem conhecer a África
Negra que é um caldeirão de povos
e culturas sem contar as dezenas de línguas
e suas singularidades, muito embora a base seja a
mesma até em Moçambique onde se fala
dezenas de línguas diferentes.
É
bom lembrar que se as mulheres ocidentais soubessem
uma pequenina parte do conhecimento que as africanas
têm sobre sexo, não teria sentido o Relatório
Hite, nem Kinsey, nem traumas que acarretam a chamada
frigidez.
Domínio
Feminino
Esse ritos de iniciação, parecem,
que tem tudo a ver com o Kama Sutra?
Dalila
Dentro do nosso modelo cultural e de padrão
sexual, só tem a ver. Para vocês aqui,
na cultura ocidental, parece balela, mas não
o é, para nós africanos ou povos de
cultura essencialmente oriental. Levamos o aprendizado
tanto quanto seu objetivo, que é extrair a
maior qualidade do prazer sexual, também, muito
a sério. Em nenhuma aldeia de Moçambique
nenhuma mulher se envergonha em expor seus seios e
usam apenas saias. Nos rios e praias é comum
ver mulheres adultas e jovens totalmente descobertas.
Labi,
complementando É o seguinte, o povo africano,
ama, faz sexo, luta, guerreia de forma inteira e não
transige com o mais ou menos. Melhor, não tem
essa nossa carga judaico-cristã que deformou,
demais, nossa sociedade ocidental. A Natureza é
determinante tanto na atitude como no comportamento.
Domínio
Feminino Problemas
existenciais, emocionais ou materiais, você
considera que podem afetar ou desviar a libido feminina.
Arrefecer, digamos assim?
Dalila Considero que qualquer problema pode
afetar dependendo da vivência e da história
de cada um e da dimensão dada a cada problema.
Para mim os emocionais afetam mais que os materiais.
Eu venho de um lugar onde estamos acostumados a ter
prazer mesmo sem ter o que comer e sem dinheiro .
Não poder comprar um sofá novo, ou não
conseguir pagar a prestação do carro
, não pagar o plano de saúde, o colégio
particular e coisa e tal é uma realidade ainda
longe da rotina local e não é razão
suficiente para não se dar ao prazer. Ser pobre,
não ter o bem material, não altera vontade
de querer trepar.
Domínio Feminino Então,
o que altera?
Dalila O que
altera sim é uma resposta mal dada, uma atenção
não dada, prestar atenção em
outra e não em você (no meu caso isso
funciona ao contrário pois isso só me
faz ficar com mais vontade ).
Dominio Feminino
Mesmo numa cultura que valoriza tanto o sexo como
fonte de prazer, com toda preparação,
esses fatores causam estragos seguindo um padrão
igual ao do Ocidente ?
Dalila Para
as pessoas que já estão influenciadas
por uma ocidentalização na sua cultura,
pode afetar, mas para a grande maioria das mulheres
de lá isso não está ainda no
foco principal dos problemas. O povo ainda está
preocupado com a solução dos grandes
problemas de sobrevivência. Mas tudo que faz
parte da natureza humana, medo, insegurança,
rejeição, solidão, e as pessoas
que sentem isso, certamente terão isso afetando
as relações e o desejo. Ainda é
genuína a busca do prazer, como um complemento
da existência e as pessoas buscam isso em tudo,
na dança, na comida, em outras manifestações,
principalmente no que está ao seu alcance,
como o sexo.
Recebi
a educação muçulmana, estudei
o Corão, mas também tive educação
formal em escola ocidental, orientada por portugueses.
Isso me fez ter parâmetros de avaliação.
A luta armada de libertação de Moçambique,
a Independência, me pegaram jovem e toda a base
socialista daquela época complementaram uma
visão dialética que me deram independência
de opinião. Não pratico nenhuma religião
e nem faço força para que meus filhos
tenham opção antes de serem capazes
de escolher. Tenho uma forte rejeição
por enquadramentos, dogmas, e verdades absolutas.
A liberdade é o direito de escolher e agir.
Gostaria
de acrescentar que os dilemas existenciais do Ocidente
e da África, não podem ser comparados
ou vistos pela mesma ótica. São realidades
diferentes, etapas de necessidades e interesses diferentes,
e processos históricos com milhares de anos
de diferença. As influências do mundo
atual, Globalizado, parecem fazer com que tudo seja
colocado no mesmo padrão, o que não
serve para esse tipo de leitura.
Também, a coisa da sexualidade atualmente preocupa
as pessoas aqui no ocidente, porque na verdade, muitas
coisas ficaram reprimidas, mal resolvidas, outras
exacerbadas, ou, na melhor das hipóteses, sexo
sempre foi filtrado por aqui, através de uma
ótica religiosa, do pecado, do proibido, o
que lá, não acontece, e se recebe uma
educação completamente contrária.
Isso não significa que para os Muçulmanos,
para os cristãos de agora, ou evangélicos,
essa não seja mais uma fonte de geração
de conflitos com a cultura original. A sociedade ocidental
foi se distanciando tanto do prazer do contato, do
prazer da relação com outro, da interação
em grupo, como resultado de um modelo individualista
e racional, que está falido, ao meu modo de
ver, e então busca-se uma séria de fórmulas,
modelos, que na verdade, não existem, só
podem existir através de uma abertura para
um relacionamento mais livre e sadio, onde as pessoas
busquem prazer de fato e não o prazer idealizado
por modelos.
Dominio
Feminino
Você acha que esses fatores, também,
afetam os homens ou você acha que eles são
menos afetados? Ou ao menos reagem diferente das mulheres?
Dalila
Os homens reagem de maneira diferente das mulheres,
até porque a cultura masculina é mais
machista e vê as coisas por outro ângulo.
Eles são educados e sentem que tem o direito
e o dever de ter prazer, e são mais afetados
se as mulheres não atendem as suas necessidades.
Muitos, se ficam insatisfeitos com a mulher, devolvem
para a família e reclamam, pois ela não
cumpriu seu papel de esposa como é culturalmente
entendido pois que foram educados para isso. Outros
arrumam outras mulheres pois a tradição
assim permite e com mais esposas, resolvem sem maiores
conflitos.
Dominio
Feminino
Labi, o que mais é tão marcante na
cultura Moçambicana, na África, comparando
aos nossos padrões?
Labi
Tem muita coisa que
soa "herético" para nossos padrões
e vou pontuar só alguns, além dos Ritos
de Iniciação Sexual:
1
Lobolo em Moçambique é o termo que
designa o pagamento que o pretendente ou noivo faz
à família da noiva.
Ao contrário do que se pode pensar, não
é a compra da noiva. Ela não é
mercadoria. Na cultura Africana, isso é uma
prova que o noivo tem alto apreço pela noiva.
É o reconhecimento do valor dela, retribuindo
o investimento que a família da noiva fez na
preparação dela. Quanto mais preparada,
prendada, estudada, maior o valor. (Quanto mais valiosa,
mais respeito ele terá por ela. Mesmo com a
influência ocidental e marxista de anos a fio,
essa cultura milenar tem grande influência e
tradição e acredito que a noiva que
sabe que o noivo fez enorme sacrifício para
pagar o seu Lobolo a família se sente envaidecida
e valorizada.
Em Moçambique, coexistem várias influências
de culturas e credos. Os árabes deixaram o
Corão (al corão) muito antes da chegada
dos cristãos. Numa sociedade da cultura negra
poligâmica, isso não foi difícil
aceitar.
Depois, as influências dos protestantes, os
países vizinhos foram colonizados por ingleses,
Holandeses, "BOers" etc, onde não havia muita
implicância quanto à poligamia. O cristinanismo
veio depois e não é maioria.
2 A poligamia em Moçambique foi sempre aceita
e respeitada, um homem pode ter várias mulheres,
e a mais velha ajuda na escolha da Segunda e assim
por diante. A riqueza da família também
crescia e se demonstrava assim. Um grupo de várias
mulheres divide melhor a produção e
as responsabilidades da família. O homem é
o guardião, tem que presentear as esposas,
defender, proteger sua produção e atender
sexualmente as mulheres (que o atendem também)
3 Quando uma mulher não pode ou não
consegue ter filhos pode ser devolvida à família
e esta deve devolver o Lobolo ou parte dele. É
uma falha grave a mulher não engravidar.
aprendem com os velhos o que devem fazer para serem
grandes amantes e homens de honra. O segredo, entre
eles é vital para preservar a cultura.
4 O respeito aos mais velhos é uma coisa
levada muito a sério.
Casamento
e Lobolo
Domínio
Feminino
( dirigida ao Labi ) Por falar em Lobolo, quando
você se decidiu por pedir a Dalila em casamento,
o Lobolo foi muito alto?
Labi
Eu paguei uma fortuna! O valor pelas qualidades
dela e os investimentos em educação
formada em Agronomia e Pedagogia em Moçambique
mas aqui não tem reconhecimento do MEC, com
alto nível cultural e intelectual feitos
pela família faziam com que o Lobolo fosse
muito alto. Só que, o uso da palavra pagamento,
é só para que fique mais fácil
de entender, porque na verdade, esse "preço"
chama-se Lobolo, assim como o nosso dote ( que ainda
existe e é caríssimo, pago para o resto
da vida ) só que aqui não se pode devolver
e receber o dinheiro de volta. Reforço que
lá, a cultura diz que a mulher é tão
importante que não pode ser gratuita. Aqui,
o dote enrustido é apenas pelo dinheiro mesmo
e tanto é enrustido que as pessoas negam por
vergonha. Dinheiro pelo dinheiro.
Dominio
Feminino
Mas quem estipula o valor para o Lobolo, a família
da noiva ?
Labi
A família
da noiva se reúne, vários parentes,
os tios maternos tem mais influência que os
tios paternos. No norte do País por exemplo,
um dos Povos ( Os Macuas) que tem as mulheres mais
belas do Sul do Saara, a linha de família é
Matrilinear - e discutem até estabelecer o
valor.
Dominio
Feminino
O noivo pode apresentar argumentos para o valor
a ser pago, tem pechincha, ou coisa assim?
Labi
O noivo negocia, claro, pois entram cabeças
de gado, galinhas, tecidos, bebidas, alimentos, ferramentas,
dinheiro, bens, etc... conforme o que ele acha mais
fácil de conseguir pagar. Então, ou
começa a juntar ou começa a pagar as
prestações enquanto noiva e só
quando paga pode casar.
Dominio
Feminino
Dalila, por que o sobrenome Mendonça não
consta do seu sobrenome?
Dalila
Na verdade eu não sou Mendonça, sou
Torre do Vale e continuarei sendo, embora tenha escolhido
como parceiro alguém com esse sobrenome. A
minha identidade continua a mesma, não é
um nome que determina o valor da relação
e nem fui classificada como mercadoria, "esposa de"..
Dominio
Feminino
- Afinal, a escolha do marido pode ser decidida pela
mulher?
Dalila No modelo tradicional não.
Dominio
Feminino
- Se ela tiver coragem para recusar, qual é
a reação da família ? Aceita?
Castiga? Obriga?
Dalila
A família força e se em último
caso ela não concorda, rompe com a família
e se vê excluída. Também gera
um problema de aceitação na sociedade.
Isto só não ocorre nos casos em que
a mulher já fez escolhas e posturas que contradizem
essa tradição.
Dominio
Feminino
- Ou tudo isso depende de como a família
vê tudo isto?
Dalila Claro, o processo está em conflito,
o velho e tradicional, contra o novo e ocidental.
É mais agudo nos centros urbanos. No campo
ainda existe a relação tradicional.
Homossexualismo
Domínio
Feminino
Dentro da cultura como é vista a prática
do homossexualismo feminino?
Não
existe repressão ou julgamento quando as mulheres
praticam sexo entre elas. Elas praticam para promover
o prazer ou para suprir a falta de homens ( que migram
em busca trabalho ou para a guerra. Entre nós,
ocidentais é que a prática é
rotulada de homossexualismo, na África Negra,
não.
AIDS
Dominio
Feminino Diante da gravidade da assolação
da Aids, na cultura africana, no que concerne ao assunto
sexo, haverá mudanças de comportamento
e por conseguinte perda cultural ?
Dalila
As mudanças já estão acontecendo
há muito tempo. A Aldeia Global fez com que
todos os povos e culturas façam influência.
Mas nas sociedades mais distantes dos centros urbanos,
entre os camponeses, existe ainda muita resistência
às mudanças e isso está acarretando
uma violenta crise, com a AIDs se alastrando de forma
catastrófica. A pobreza, a falta de comunicação
e de recursos, coloca tudo muito complicado.
Hoje
a situação chega a ser devastadora por
conta dessa resistência "burra" e de achar que
nunca acontecerá consigo próprio. A
cada dia surgem novos casos de pessoas (até
as conhecidas) morrendo, mesmo tendo tido informação
e acesso a formas de prevenção. Hoje
a campanha nas TVs é muito forte, algumas ONGs
estão por lá auxiliando para minimizar
novos casos e sobretudo evitar que nasçam crianças
aidéticas que é a pior das situações!
Nossa cultura precisa, como em todas as outras de
trabalho educativo, de conscientização.
Domínio
Feminino
Na África, vocês acreditam na possibilidade
de experimentos bacteriológicos acontecerem
lá?
Labi
E onde mais se pode "promover" revoluções,
guerras, testes de guerra bacteriológica, experimentos
como a AIDS, além de explorar o exercício
de financiar empréstimos para reconstruir,
e depois financiar os contras para destruir e endividar
tudo de novo? Conhece aquela: quem cuspir primeiro,
ganha? É isso que fazem com a África
e levam sempre a melhor e o crioléo que se
ferre. A África não cobra por isso,
não é?
LOBOLO
No casamento tradicional (lobolo
não é
como se nomeia o casamento tradicional, em si. É
como chamam o equivalente ao nosso "dote" - Mas é
diferente -
a mulher não tem o direito de escolher o seu
marido. Em geral, o noivo (futuro marido) é
escolhido pelos pais e a existência na região
de alguém, mesmo um velho, usufruindo de um
certo prestígio na região é motivo
suficiente para ser o preferido para noivo da filha,
mesmo sendo um desconhecido para ela. A rapariga é
educada de uma forma diferente da do rapaz de modo
que o sentimento de inferioridade é inculcado
nela.
O
lobolo ou 'o preço da noiva',
é o valor
atribuído às qualidades da noiva, para
recompensa da família, pelo investimento que
teve na sua formação. Esta prática,
de retribuir com prendas oferecidas pelo noivo aos
pais da noiva, foi muito criticada durante a luta
de Moçambique pela independência, como
sendo uma prática negativa em que as mulheres
eram objecto de uma transação comercial.
Após a independência, o seu papel na
sociedade foi sujeito a inúmeras discussões.
No entanto, continua a ser olhado por alguns, como
uma instituição que oferece alguma proteção
à mulher. Com efeito, o pagamento do lobolo
origina um forte compromisso por parte das famílias,
quer do noivo como da noiva, no crescimento da nova
unidade familiar.
Na revisão da Proposta de Lei da Família
Moçambicana, Gita Welch et al (1985)
(Uma das maiores autoridades jurídicas da Vara
de Família em Moçambique) concluíram
que o lobolo deveria ser simbolicamente mantido
no cerimonial do casamento. (Esta é uma visão
atual) Contudo, as prendas são apenas
uma parte da transação que constitui
a base do contrato do casamento. O lobolo,
representa, de uma forma simplista, a transmissão
do trabalho da mulher, do pai para o marido. Por outro
lado, o direito à propriedade que a noiva tinha
na comunidade do seu pai perde-se com o casamento,
e em contrapartida dever-lhe-á ser entregue
terra e outros recursos na comunidade do marido. Aqueles
autores, de algum modo, simplificam o problema das
mulheres e da propriedade, quando sugerem que a solução
legal para uma ruptura do casamento seria providenciar
uma casa à mulher divorciada. Com efeito, para
uma mulher rural divorciada, a casa da família
é apenas a primeira das suas necessidades.
Ela também precisa de acesso aos campos e árvores
que adquiriu pelo casamento. Mas o objectivo do lobolo
é, precisamente, negar à mulher o controle
direto sobre os direitos de propriedade. Serve de
compensação para o pai da noiva pela
perda do trabalho da sua filha, e em contrapartida
o marido assume a obrigação de proporcionar
à mulher os meios para aquela se manter bem
como aos seus filhos. O lobolo só se
tornará simbólico quando o acesso da
mulher à propriedade deixar de ser mediado
por um contrato de casamento.
Sobre nossa entrevistada:
Dalila completou 40 anos neste setembro 2001; nascida
em Maputo ( capital de Moçambique ), Formada
em Agronomia e Pedagogia em Moçambique (não
reconhecido pelo MEC) cursou Relações
Internacionais na Estácio de Sá e interrompeu.
Está no quarto ano de Administração
na UNIVAG - MT.
Casada com o cineasta
e publicitário Labi Mendonça, paulista,
tem três filhos, dois homens e uma mulher. Atualmente
coordena um setor de atuação do SEBRAE
- MT Mora em Cuiabá, Mato Grosso.
Cronologia dos fatos políticos e fatos pessoais.
Dalila e Labi trabalharam juntos no que eles denominam
de esforço de reconstrução Moçambicana.
1962 a 1975 - Luta Armada da FRELIMO - Frente de Libertação
de Moçambique - contra Portugal.
1975 - Portugal praticamente perde a guerra e acontece
a Independência, negociada nos Acordos de Lusaka.
1975 - Período da primeira fase de reconstrução
Nacional com a Frelimo no Poder. Opção
Socialista e Partido único - É a revolução
permanente, que dura até início da década
de 90.
1980 - Labi chega em Moçambique no momento
mais eufórico do esforço de reconstrução
nacional. Moçambique se desenvolve bem, tenta
criar a TV, apoia o Zimbábwe (antiga Rodézia)
na sua luta de libertação.
1981 - Incremento do apoio aos dissidente de Moçambique,
em movimentos armados pela Äfrica do Sul (racista
do Apartheid) para desestabilizar Moçambique
e sua revolução sem preconceito de raça
ou religião.
1983 - Dalila e nos conhecemos e nos casamos.
1989 Dalila, eu e as crianças retornamos
ao Brasil, de vez.
Detalhe, em Moçambique os movimentos armados
se dissimulam de guerra civil. Se alguém desejar
saber mais no Museu da Imagem e do Som, na Cinematica
ou na TVE, tem um documentário de Longa Longa
Metragem que eu produzi, dirigido pelo Mário
Borneth, intitulado Fronteiras de Sangue! Está
tudo lá, 25 anos de guerra na Africa.
Volta
ao Bloco 01
Volta Entrevistas
Volta Editoria Mulher
|