A MULHER E A POLÍTICA
Maria
Luiza Curti
03, Novembro/2001
Com
a proximidade de novas eleições alguns
partidos se deparam com certa dificuldade em preencher
a cota mínima destinada às mulheres
por lei (30%).
Qual
é a dificuldade? Por que as mulheres não
se mexem e entram de vez na política? Afinal,
foi tanta luta por direitos iguais por quem não
podia nem ao menos votar. Por causa da resistência
em participar da política há muita
gente questionando o porquê dessa atitude.
Para
se saber o motivo, ou os motivos que levam a mulher
a resistir em participar da vida pública,
é necessário que se olhe para o processo
histórico dela, pois o desenrolar dos acontecimentos
certamente jogaria luz sobre o fenômeno para
melhor compreendê-lo.
As
mulheres através do tempo inspiraram atitudes
contraditórias ao homem, que oscilaram da
atração à repulsão e
da admiração à hostilidade.
Uma
das fontes em que fomos buscar luz para a questão
foi no historiador francês Jean Delumeau,
através da sua obra "História
do Medo no Ocidente" (Companhia das Letras),
que levantou e estudou a história do medo
dos cristãos ocidentais do século
XIV ao XVIII. Delumeau detectou e identificou os
medos coletivos; do mar, dos mortos, das trevas,
da peste, da fome, da bruxaria, do Apocalipse e
de Satã.
Os
homens da Igreja fizeram o levantamento de Satã
e nomearam como seu representante aqui na terra:
os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres.
O
medo e o enigma que a mulher representa para o homem
não foi uma invencionice dos cristãos
do século XIV, já existia há
muito. O filósofo Aristóteles (384-322
a.C.) via o sexo feminino como um defeito da natureza,
"um macho mutilado" e, quatro séculos
antes de Cristo, Hipócrates, grego considerado
o pai da medicina, já definia a mulher como
uma "criatura úmida e encharcada".
Aliás, a "umidade da mulher" sempre
intrigou o homem, chegando a ser atribuída
à mesma o nascimento da filha mulher, pois
deduziram que, na época em que a umidade
era maior, ficava propício à fecundação
do sexo feminino, um ser imperfeito.
A
Igreja não estava só na sua pregação
e repressão contra esse "santuário
do estranho" que era a mulher. Contra ela se
ergueu a voz de três autoridades de peso naquela
época: os teólogos, os médicos
e os juristas.
Os
cristãos, contrariaram a atitude de Jesus,
inovadora para a época, que nunca discriminou
as mulheres, antes, tratou-as com igualdade e dignidade,
considerando-as pessoas inteiras. A Igreja teve
dificuldade em colocar a teoria na prática,
pelos obstáculos encontrados no contexto
cultural em que o cristianismo foi difundido. Porém,
enquanto seus discípulos homens, exceto João,
o abandonaram, as mulheres permaneceram lá,
firmes ao pé da cruz.
São
Paulo contribuiu para colocar a mulher cristã
em posição de subordinação
tanto na Igreja como no casamento, 1 Coríntios
14:34-5: "Que as mulheres se calem nas assembléias,
pois não é permitido tomar a palavra
como a própria lei o diz". Santo Tomás
de Aquino se baseará em são Paulo
e declara: "Eu não permito à
mulher ensinar e governar o homem".
Do
púlpito às reuniões com os
fiéis, as instruções nos manuais
de confessores, o discurso eclesiástico era
rigorosíssimo e o tema "mulher"
era inesgotável.
O
erudito jesuíta Del Rio aponta defeitos comuns
nas mulheres: "a volúpia, o luxo e a
avareza" e que são "andejas, vagabundas,
faladoras, briguentas e cúpidas de elogios".
Para
são Bernardo de Siena, todas precauções
tomadas contra ela jamais seriam suficientes, pois,
a mulher é um ser predestinado ao mal, portanto,
é preciso ocupá-la com intermináveis
tarefas caseiras para que não tenham tempo
de pensar.
Nas
obras do pregador alsaciano Thomas Murner (1512),
a mulher é um "diabo doméstico",
e aconselha que o marido não hesite em aplicar
surras – não se diz que ela tem nove peles?
e acrescenta que ela é "comumente infiel,
vaidosa, viciosa e coquete".
O
franciscano Álvaro Pelayo redigiu por volta
de 1330, a pedido de João XXII, o "De
Planctu Ecclesiae" que foi impresso em Ulm
desde 1474, reeditado em Lyon em 1517 e em Veneza
em 1560 e era dirigido ao mundo dos "clérigos
encarregados de dirigir as consciências".
Esse primor de misogenia, em sua segunda parte traz
um catálogo de 102 "vícios e
más ações" da mulher.
As
acusações começam por Eva que
foi a "mãe do pecado", portanto,
toda mulher é "a arma do diabo",
"a corrupção de toda lei".
"Ela atrai os homens por meio de chamarizes
mentirosos a fim de arrastá-los para o abismo
da sensualidade. É acusada também
de transformar "o bem em mal", "a
natureza em seu contrário", especialmente
no que concerne ao domínio sexual".
Lançam mau-olhado, são "adivinhas
ímpias" e se servem de encantamentos.
No
século XII, um monge de Cluny, Bernard de
Morlas escreveu poemas monásticos. Num pequeno
trecho do "De Contemptu Feminae", que
é todo dedicado ao desprezo à mulher,
diz:
.........................................................................................................................
"A mulher é
coisa má, coisa malmente carnal, carne toda
inteira.
Dedicada a perder,
e nascida para enganar,
Abismo inaudito, a
pior das víboras, bela podridão,
Atalho escorregadio
[...], coruja horrível, porta pública,
doce veneno [...],
.........................................................................................................................
A
partir do século XVI, as "Instruções
aos Confessores", foi leitura de milhares de
confessores e que em resumo, aconselhava: "a)
a religião que importa é a dos homens;
b) em um conflito conjugal, o confessor jamais reconhecerá
o erro do marido diante de sua esposa".
Diante
de todos os textos misógenos clericais, orais
e escritos, produzidos sobre a mulher, claro que
se criou um clima que desembocaria na justificação
da caça às feiticeiras.
Os
médicos a exemplo da Igreja, por outro lado,
afirmaram que a mulher era estruturalmente inferior
ao homem. Ao contrário dos religiosos, não
aconselhavam o espancamento, achavam até
que ela era digna de uma certa benevolência
em virtude de sua compleição "fraca".
O
médico do duque de Clèves, em sua
obra "Histoires, Disputes et Discours des Illusions
et Impostures des Diables" não se cansa
de repetir que a mulher é de temperamento
"melancólico", "débil,
frágil e mole", que sua natureza é
"imbecil" e "enferma".
Ambroise
Paré, assim, como a maioria de seus colegas
é de opinião que "As partes espermáticas
destas são mais frias, e mais moles e menos
secas que as do homem" ... "Se os órgãos
sexuais da mulher são internos, contrariamente
aos do homem, isso se deve à "imbecilidade"
de sua natureza que não pôde expelir
e lançar fora as ditas partes, como no homem".
Laurent
Joubert, médico do rei Henrique III, chanceler
e juiz da universidade de medicina de Montpellier,
em seu livro "Erros Populares" (1578),
afirma que "o macho é mais digno, excelente
e perfeito que a fêmea [ ... ]", a qual
"é como uma imperfeição,
quando não se pode fazer melhor": "Pois
a natureza pretende fazer sempre sua obra perfeita
e acabada: mas se a matéria não é
própria para isso, ela faz o mais próximo
do perfeito que pode. Então, se a matéria
para isso não é bastante própria
e conveniente para formar um filho, faz com ela
uma fêmea, que é [como diz Aristóteles]
um macho mutilado e imperfeito..."
As
autoridades médicas da Renascença
não faziam mais que repetir Aristóteles,
a mulher era imperfeita, inferior física
e moralmente...
A
desvalorização da mulher endoçadas
por esses dois fortes expoentes da sociedade (teólogos
e médicos) fornecia munição
em argumentos complementares aos juristas, que eram
"a terceira grande autoridade da época",
segundo Delumeau.
Foi
no século XIV que a França proibiu
que a coroa fosse transmitida às mulheres
e nem por elas. Havia uma regra geral na Europa,
no Antigo Regime que lhes proibia o acesso às
funções públicas.
O
jurisconsulto Boutillier ensinou no século
XIV, e isso, foi editado várias vezes até
duzentos anos mais tarde: "A mulher não
pode nem deve de modo algum ser juiz, pois ao juiz
cabe enorme constância e discrição,
e a mulher, por sua própria natureza, delas
não está provida". "Igualmente,
são privadas as mulheres [de ser advogados
em corte] em razão de sua impetuosidade".
Em 1687 foi-lhes proibido também ensinar
meninos: seria "indecente".
Uma
sentença do século XIII de Philippe
de Beaumanoir no "Coutume de Beuavaisis":
"Muito deve a mulher séria sofrer e
padecer antes que se ponha fora da companhia de
seu marido" continuava atual no século
XVII.
Jean
Bodin foi um dos mais virulentos no ataque às
mulheres, não crê na "fragilidade"
delas, sua aversão e julgamento, o aproxima
dos homens da Igreja: para ele a mulher é
"a flecha de Satã" e a "sentinela
do inferno".
Se
no princípio os clérigos se serviam
dos sermões, do boca-a-boca para difundir
a propaganda negativa sobre elas, o advento da imprensa
escrita veio em auxilio dessa tripla força
(teólogos, médicos, juristas) editando
e reeditando uma literatura que descrevia a "boa
mulher" como um ser etéreo e irreal;
como um ser diabólico; ou mesmo infantilizado
como esse pequeno trecho do "De Republica Anglorum"
(1583) do inglês Thomas Smyth: "...a
natureza criou-as para que cuidem do lar e alimentem
sua família e seus filhos, e não para
que ocupem funções em uma cidade ou
uma comunidade nacional – assim como não
criou para isso as crianças de pouca idade".
Na
época da Renascença proliferou a literatura
de provérbios que em sua maioria falavam
mal da mulher, aumentando com isso a violência
misógena coletiva. Alguns exemplos dessa
nova forma de hostilidade: "Se a mulher vale,
vale um império. Se não, não
há no mundo animal pior"; "Não
suportes por nada que tua mulher ponha o pé
sobre o teu. Pois amanhã o ignóbil
animal desejaria pô-lo sobre tua cabeça";
"Bom cavalo, mau cavalo quer a espora. Boa
mulher, má mulher quer o bastão";
"A toda hora cão mija e mulher chora";
"Mulheres são anjos na igreja, diabos
em casa e macacos na cama"; "Mulher por
sua vez deve falar quando a galinha vai urinar";
"Mulher sozinha é nada"... dá
para observar que ela é freqüentemente,
nivelada ao animal, assim como Platão o fez.
A
campanha de desvalorização da mulher
no Ocidente foi a mais longa, por ter atravessado
séculos e a mais bem sucedida que se tem
notícia, pois difundiu sem descanso com o
intuito de fazer penetrar nas mentes a desqualificação
da mulher.
Com
todo esse poderoso marketing colocando-a como um
ser enganador, incompetente, irrecuperável
e maléfico através dos tempos e para
isso foi mobilizado um sistema de instituições:
Família, Igreja, Escola, etc... agindo nas
estruturas objetivas e subjetivas e cristalizando
nas mentes masculinas o mito da inata inferioridade
da mulher. A mulher também foi atingida por
essa nefasta ideologia, o objetivo também
era ela, pois é quem transmite a ideologia
desvairada aos filhos. Ela também acreditou
que era um ser de segunda classe, que o homem era
um ser perfeito e superior, que só errava
quando ela, ser abjeto, o fazia cair em danação.
Foi
um longo caminho percorrido pela corrente feminista,
para desfazer esse imenso equívoco, que começou
tímida, pouco audaciosa e intermitente na
Renascença, considerando os obstáculos
desfavoráveis que o contexto sócio/cultural
ofereciam.
A
tão propalada "tomada de consciência"
até hoje não se completou apesar dos
inegáveis avanços obtidos pelas ex-dominadas,
o domínio masculino ainda é continuamente
reproduzido, claro que não com a mesma virulência
anterior, mas ainda resiste.
Quanto
à política, a mulher ainda guarda
resquícios de proibições quanto
a participar da vida pública (exceto uma
minoria) pois, muitas ainda pensam que é
um campo essencialmente masculino. Não perceberam
que essas barreiras residem e resistem no inconsciente.
Hoje,
na França, por força da nova lei de
paridade que obriga todos os partidos políticos
a apresentarem um número igual de candidatos
e candidatas (50%), há uma corrida à
procura de mulheres dispostas a se candidatarem.
Atualmente
na França 9% dos cargos legislativos são
ocupados por mulheres; nos EUA 13% dos senadores
são do sexo feminino e as suecas ocupam 45%
do legislativo.
Não
foi fácil para a mulher a conquista de seu
próprio espaço profissional, no começo
dessa transição, a mulher que se arriscava,
precisava para se impor e mostrar que era capaz,
masculinizar sua figura, vestir figurinos o mais
próximos dos homens (ternos), bater na mesa
e falar grosso para ser respeitada. O que lhes valeram
muitas piadas por parte dos dominantes. Hoje, a
mulher já não precisa se masculinizar
para provar que é competente, pois a capacidade
feminina já foi comprovada e ela pode ocupar
cargos antes privativos de homens e continuar sendo
feminina.
No
Brasil, pesquisa realizada pelo Instituto CNT-Sensus
sobre preferência entre homens e mulheres
para cargos públicos, revelou os seguintes
dados: 59,8% dos cidadãos acham as mulheres
mais honestas; 53,7% responsáveis; 51,2%
confiáveis; 47,5% competentes; 44,7% firmes,
42,8% capazes.
As
mulheres conseguiram romper o círculo do
reforço generalizado secular promovido pelo
medo do dominador e promover profundas transformações
na condição feminina. As que possuem
vocação para a vida pública,
necessitam romper interiormente com o condicionamento
de que a política é um campo tipicamente
masculino. Acreditar que sempre foi capaz e, agora,
pode e deve ser feliz com suas próprias escolhas.
Maria Luiza Curti
psicóloga clínica
– crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br