Medusa,
a única mortal das três irmãs Górgonas,
portanto a mais frágil. Uma versão dá conta
de que Medusa tinha uma cabeleira invejável, belíssima
que seria objeto da cobiça da imortal Atena. Medusa teria
sido violentada por Perseu dentro do Templo sendo mais um fator
que alimentava a inveja de Atena. Fico com essa versão,
sem falar em Mirina ou nas Amazonas, para passear sobre o assunto.
( Quem desejar refrescar a memória dê um pulinho
rápido no Dicionário de Mitologia Grega e Romana,
de Pierre Grimal ).
Os fatores
beleza e disputa por um homem ( disputas em geral ) teriam levado
Atena a descarregar todo o poder sobre a infeliz mortal Medusa,
transformando-a, por vingança, numa velha, numa mulher
medonhamente feia e má.
Os cabelos
de Medusa, objeto da inveja de Atena, foram os punidos com excelência
de requinte de maldade pois Atena transformou cada fio de cabelo
em cobra peçonhenta. Os restos dos traços do rosto
vamos deixar de lado, mas é estranho que o corpo tenha
sido poupado. Um corpo feminino, seios, ventre e quadris bem delineados
como se pode ver numa escultura em mármore, o momento em
que Perseu, segurando Medusa pelas cobras ( cabelos ) decepa-lhe
o pescoço. Ainda olhando para a escultura, o rosto assustado
e feio de Medusa leva qualquer mulher a identificar-se com aquela
agonia, provocando um sentimento, uma espécie e sentimento
de confraria, irmandade ou coisa que o valha.
Perseu
poderia passar pelo inventor do vanity mirror, nosso espelho
de beleza. Mas um ponto para a habilidade de Atena, manipulando
o homem Perseus — para outros, a própria Atena teria segurado
o escudo de Perseu "para que ele se protegesse" do olhar
de Medusa — . Isso é o que se pode, de fato, chamar de
herança maldita. Não bastasse que outra mulher exercendo
o ódio, sendo impelida pela inveja despertada pela cobiça,
tenha criado uma imagem repelente para sua rival, punindo-a com
todo rigor do poder, ela o perenizou através do espelho,
com o significado pertencente ao olhar de outra mulher, ou o julgamento
e desapreciação que uma faz da outra.
A covardia
de Atena, Deusa imortal abateu-se exatamente contra uma mulher
comum, mortal e que a ameaçava pela beleza da cabeleira
e pelo grau de sedução a ponto de atrair o homem
que ela, Atena, desejava. Pode ser menos, pode apenas ser o gosto
de exercer o poder com crueldade. É assim que funciona
o poder, não importando na mão deste ou daquele
gênero, se nas mãos de homens ou mãos de mulheres.
Sempre passa pela ambição que induz à competição.
Tanto
o resto desta passagem mitológica ( grega ) com o início
e desdobramentos, todas sabemos. O fato aqui considerado é
o motivo de as mulheres serem suas maiores inimigas. Disputa-se
tudo por ninharia, por vileza de espírito. "Eu não
quero ele de volta, mas com ela, ele não fica". Úúúúú,
como se ouve essa frase.
Atenas
existem, mesmo cheias de qualidades, deusas poderosas, ricas e
belas, mas não basta. Elas queren sempre tomar alguma coisa
de uma outra mulher ou quer sempre provocar e expor a carência
da mulher mais próxima cuja autoestima é ou está
baixa. Principalmente quando ela sabe que a outra não terá
nenhuma chance de ter o que ela tem. Isso faz o prazer de exibir
seu poder ser muito mais emocionante. Humilhar, tentando provocar
na outra o sentimento de inveja, para que com esse sentimento
a próxima fique mais feia e vil. Mais feia do que a provocadora.
Assim ela consegue se sentir superior perante outras.
Se sua
amiga Atena nota que você não possui determinado
objeto que ela tem e que serviria a você do mesmo modo,
ou dando prazer ou sendo uma coisa útil, sua amiga Atena
vai esfregar na sua cara o tempo todo aquilo que ela tem e você
não. Nunca espere um elogio de Atena e nem que ela venha
lhe dizer alguma coisa construtiva, com amor, para ajudar você.
Atena não vai elogiar seus cabelos!
Nem seus
filhos irão escapar, como não escaparam os filhos
de Medusa. Mas Atena pode ser e não parecer maligna, dessa
do tipo capaz de se fazer de tola, de tonta e inocente, dissimula
o tempo todo. São as Atenas perigosíssimas. Tramam
até elogios à Medusa e toda a família. Você
se transforma no espelho dela, ou seja, o olhar dela está
sempre dirigido na sua direção, como olho de "seca
pimenteira".
Esse
espelho, o olhar de outro, se pensarmos, não foi inventado
por Perseu, a crer na astúcia de Atena que, sendo ela mulher,
portanto conhecedora dos sentimentos de outra mulher, instruiu
Perseu a usar o escudo reluzente como espelho e assim proteger-se
dos possíveis malefícios vindos do poder feminino.
Exibir-lhe o a feiura do próprio poder peçonhento.
Atena joga e usa e manipula o tempo todo. A criadora do espelho
foi o olhar da própria Atena.
Esse
espelho tem sido dado aos homens, por nós mesmas, desde
os mais remotos e desconhecidos tempos. A convivência com
a mãe, irmãs, tias e todas as outras mulheres que
o rodeiam não poderia invocar outro olhar e projetá-lo
para e por nós mulheres. Somos vistas pelos homens através
do olhar deles ( o espelho ) pelo que eles acumularam de experiências
no ouvir, no ver e no sentir que lhes oferecemos. Aqui cabe uma
reflexão muito séria.
Esse
homem é testemunha das pequenas vinganças perpetradas
por suas irmãs, por sua mãe. Eles nos ouvem antes
mesmo de nascerem. Através desses milênios todo homem,
viu e ouviu nossas maquinações, pragas contra outras
mulheres e contra eles mesmos. Portanto, eles sabem do que somos
capazes. O quanto de perversidade foram impostas aos homens, em
sua infância, pela primeira professora?! Gritos e/ou ameaça,
as mais simples ( para nós adultas ). Pela mãe "gorila",
pela irmã enciumada em dividir o espaço afetivo
dos pais?
O que o espelho masculino diz de
nós:
"Toda mulher é, em essência,
libertina — dito por Pope
"A
mulher é eternamente uma coisa mutável e inconstante
— dito por Horácio que ainda não sabia da existência
dos nossos hormônios e nem que eles todo mês, viram
tudo de ponta-cabeça.
"Como
acreditar num bicho que todo mês sangra e não morre
de anemia ( por causa disso )? " — desconhecido
"Dissimulação
é inata na mulher " — Schopenhauer
"Fragilidade,
teu nome é mulher" — o inocente do Shakespeare. Quem
sabe nós mulheres não criamos essa aparência
frágil como um mecanismo que seria esse tipo de poder "surdo"
para suprir nossa carência de poder físico?
Se não
gostamos de como os homens nos vêem em seus espelhos, por
qual motivo nós mesmas não nos traduzimos, se isso
nos incomoda tanto? Por que não temos outro espelho para
oferecer.
( Ler Antropologia
social do perfume
Maria da Penha Vieira )
Com certeza,
é mais cômodo passar o recibo em nome dos homens
enquanto deixamos a nossa sujeira debaixo do tapete. Discutir
o poder masculino sobre nós mulheres desfoca o principal
que seria ver como nos relacionamos, qual ou quais os sentimentos
que nutrimos pelo nosso gênero. Se nós mulheres já
tivéssemos "nossa casa" mais resolvida, desfazer
nossos malfeitos junto aos homens ficaria mais fácil. Mas
não, estamos sempre, mesmo sem querer, pelo já cristalizado
em nosso olhar, criando Medusas e multiplicando Atenas, para os
espelhos masculinos.
A cada
segundo uma mulher Atena cria uma mulher Medusa. Toda vez que
uma mulher "ocupa" o ouvido da outra para falar mal
de uma mulher, o estrago está feito. Contudo, o objetivo
de qualquer Atena que se preza é o ouvido masculino. Neste,
o denegrir a imagem da rival tem o alcance desejado. O ouvido
masculino é o meio mais seguro para efetivar uma Medusa.
Atena pode nem estar interessada no Perseu e o faz por cumprimento
da missão.
Esse
estrago, ao contrário do que pensa a mulher Atena, está
também, deixando sua imagem embotada porque o ouvido que
foi emprestado vai saber que o mesmo vai acontecer com ela, e
vinda da mesma pessoa. Para deixar claro, quando você fala
mal de uma colega, amiga ou conhecida ou desconhecida, você
está perdendo credibilidade junto àquela para quem
você falou. Como? Ora, quem fala de uma fala de todas. "Cesteiro
que faz um cesto, faz um cento ".
Se dentro
de todas nós existe uma Atena e uma Medusa, vamos precisar
trabalhar esse equilíbrio que começa pelo reconhecimento
de que elas fazem parte do nosso espelho. A não-aceitaçao
dos dois lados poderá ter gerado todo esse profundo descontentamento
que procria baixa autoestima. Fato é que precisamos pensar
na química que usamos para fabricar nosso espelho.
Penso
que culpar, tão-somente os homens pelo espelho através
do qual eles nos vêem é muito simples. O que nós
mulheres queremos ser, quando crescermos?
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