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Embora
a ansiedade esteja totalmente ligada a história do ser humano
nas mais diferentes épocas, não podemos deixar de enfatizar
a imensa proporção da mesma em nossa sociedade contemporânea.
Pensar em nossa vida atual nos remete a falar do stress ou
ansiedade. Obviamente o homem moderno perdeu vários referenciais
religiosos e morais que no passado serviam de base para o
equilíbrio psíquico. Não cabe neste breve estudo o julgamento
moral de determinados valores, mas tão somente o impacto no
psiquismo humano.
A primeira definição de ansiedade é de que a mesma é o alerta
máximo da incompletude em algum setor de nossa vida, sendo
o clamor de nossa alma para que determinadas coisas se alterem.
A ansiedade é a prova máxima de que em nosso íntimo ainda
existe vida e a desejamos na plenitude, embora muitas pessoas
achem que a ansiedade é sinal do contrário afirmado acima.
Como disse anteriormente é o alerta, e este deve soar para
que possamos nos mobilizar no sentido do preenchimento de
que carecemos. É exatamente por este motivo que o uso em larga
escala dos calmantes é extremamente nocivo do ponto de vista
da mudança da pessoa, pois ditas drogas cortam o sino que
sempre nos avisa de nossos deveres íntimos.
Estou
dizendo até agora do lado positivo da ansiedade, como mola
propulsora para determinadas mudanças necessárias na personalidade.
Sem dúvida há o outro lado, o da ansiedade patológica, que
podemos definir como: o constante estado de agitação, incerteza
e principalmente insegurança. Nos estudos sobre a ansiedade
pouco se percebeu a enorme relação da mesma com o ciúme. Algumas
pessoas inclusive mesclam tão profundamente ambas as sensações,
que fica quase que impossível dizer onde começa uma e acaba
a outra. Este fenômeno ocorre quando a ansiedade ativa paralelamente
o complexo de inferioridade da pessoa, sendo que imediatamente
surgem expectativas catastróficas no pensamento, causando
grande sofrimento para o indivíduo em questão. O complexo
de inferioridade ativado se fixa no ciúme, pois este último
tem a característica de algo que constantemente se renova,
assim como a ansiedade, sempre a espreita para inundar nossa
consciência.
Talvez
o fato mais marcante seja o de que em nossos dias somos quase
que totalmente incapazes para lidar com a ansiedade, sendo
que procuramos todos os tipos de distrações ou fugas para
não enfrentarmos dito sentimento. Aliado a este conceito há
o lado ideológico e econômico que explora a ansiedade via
consumismo e caráter descartável dos relacionamentos. Sabemos
como machuca uma reflexão pessoal que nos mostre como mentimos
diariamente para nós mesmos, e como nos sentimos imensamente
vazios por não nos permitirmos o aprofundamento nos diversos
setores de nossa vida.
Sabemos
que praticamente não temos amigos, o que só alimenta ainda
mais nossa solidão; temos ciência de que fugimos do diálogo
profundo para as distrações mais fúteis, principalmente com
a pessoa que escolhemos para supostamente amar. A ansiedade
passa a ser a última camada genuína do ser humano em nossa
atualidade, e mesmo assim todos desejam sua destruição, pois
para boa parte das pessoas qualquer coisa é melhor do que
o sofrimento, mesmo que isto custe a perda da identidade pessoal
ou uma vida psíquica vegetativa. Nossa situação profissional
na relação capital e trabalho nos revela em que escala nos
situamos no âmbito material; se somos explorados, exploradores,
se temos autonomia ou se estamos excluídos. No âmbito psicológico
a ansiedade passa a ser quase que o principal instrumento
de medição de nossa realidade interna, nos mostrando o grau
de nossa carência pessoal.
A
essência de qualquer processo de reflexão ou autoconhecimento
passa pela sensação daquilo que nos falta. O modo como administramos
a carência é que dirá se somos seres destrutivos ou criativos.
O essencial é perceber que tipo de pessoa ou reação provocamos
nos outros, como por exemplo: simpatia, admiração, segurança,
ódio, inquietude, etc. A ansiedade ou o tormento da espera
daquilo que não possuímos sempre embutem mensagens para reflexões
pessoais, e devemos descobrir quais raciocínios são imperativos
na etapa atual de nossas vidas.
O
maior inimigo de todo o processo de reflexão acima citado
é o medo sem sombra de dúvida. Todos desejam garantia e estabilidade,
sendo que a ansiedade revela muitas vezes a necessidade de
continuar buscando. Infelizmente quase todos desejam aniquilar
a prova máxima de sua insatisfação ou infelicidade, que no
caso é a ansiedade. Assim como a febre das academias ou cirurgias
plásticas, se deseja também em nossa sociedade uma "estética"
para a expressão dos sentimentos, e na mesma não há nenhum
espaço infelizmente para o autêntico, e talvez este seja um
dos mais terríveis problemas emocionais deste milênio.
Arrisco
até a noção de que o imenso crescimento da ansiedade em nossa
era corre paralela com a mentira e falta de sintonia com as
emoções alheias. Como disse acima, procura-se a plasticidade
e futilidade, e as coisas sérias vão sendo deixadas de lado.
Temos
de admitir o fato da nossa dificuldade em buscarmos novas
saídas ou o pavor do novo. Muitas vezes não desejamos nos
utilizar de nosso potencial, e este é um dos aspectos psíquicos
sombrios que temos de conviver quase que diariamente. A ansiedade
neste aspecto nada mais é do que a incapacidade de se lidar
com o processo do tempo. Embora biologicamente saibamos que
não o temos de sobra, psiquicamente preferimos a constância
de uma perturbação ou infelicidade, com o objetivo de encobrirmos
nosso total despreparo frente a morte ou qualquer tipo de
perda, e apesar do conceito citado ser mais do que óbvio,
é muito mais fácil o sofrimento rotineiro ao invés da angústia
profunda perante o desconhecido.
O
confronto com nosso imenso vazio existencial simplesmente
é "pânico", e preferimos os atos banais que atuamos diariamente.
Qualquer escola de psicologia sempre apregoou sobre a resistência
perante as mudanças. Nosso psiquismo é ou se tornou gregário
ou conservador, e este é um fato de que não podemos omitir
em hipótese alguma. Assim como determinados historiadores
conservadores sempre apontaram que as revoluções só nos brindaram
com mortes ou destrutividade, nossa mente segue o mesmo raciocínio,
temendo sempre o fracasso perante uma nova experiência.
A
história coletiva e pessoal serve para a manutenção da estrutura
social e rotina do indivíduo, e a ansiedade é praticamente
o único agente subversivo que pode abalar o sistema citado.
A essência da filosofia é a certeza de que na maioria das
vezes o pensamento é meramente uma amostra colhida do contexto
social onde se vive, e a ansiedade nos chama para a responsabilidade
individual da aceitação ou não da meta de vida que adotamos.
Sobe
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