BÜNDCHENMANIA
Por Maria Luiza Curti
18, Julho/2001
1,79 cm de
altura, 52 quilos e um rosto lindo, lindo... essa é a nossa
top model Gisele Bündchen que arrasou no último
dia do São Paulo Fashion Week.
Gisele pertence àquele pequeno
grupo de pessoas que julgamos, hoje em dia, abençoadas por
Deus. São as magras naturais, que podem se esfalfar de comer
pizzas, macarronadas e tomar imensos e superenfeitados sorvetes
que a balança se recusa a marcar um miligrama a mais.
Digo que são abençoadas,
hoje em dia, porque nem sempre se festejou essa magreza natural.
Seu sucesso me fez lembrar uma amiga de minha mãe que conheci
lá pelos anos 50, com um rosto tão ou mais belo e
medidas muito próximas às da Gisele e que vivia tomando
toneladas de Deca Durabolim (um remédio para engordar, muito
usado naqueles anos) que não lhe trazia um grama de resultado.
Lamentava e amaldiçoava sua sina.
Quando ouço os aplausos que
as top models recebem, lembro que a única coisa que naquele
tempo ela recebia eram delicados apelidos, assim como: "vara-pau",
"vara-de-mudar-estrelas", "espicho", "pau-de-coçar-a-lua",
"fio-de-linha", "pau-de-virar-tripa" e outras
amabilidades. Hoje, penso que seu nascimento foi um erro temporal.
É um pequeno número
de top models que têm a sorte de serem magras naturalmente
como a Gisele e outras do mundo fashion. A maioria mantém
aquela magreza esquálida à força, à
custa de muita fome e renúncias. Muitas mentem dizendo não
fazer dieta e que comem de tudo, outras partem para o caminho das
anfetaminas e outras drogas para não sentirem fome. Não
raro desembocam em distúrbios alimentares, desenvolvendo
anorexia e bulimia, doenças que tem taxa de mortalidade entre
15 a 20%.
A anorexia nervosa é um
mal em que a pessoa pára de comer e mesmo em extrema magreza
se pedir para que desenhe a si mesma, ela desenha uma pessoa gorda.
Já na bulimia a pessoa tem um descontrole alimentar em que
come exageradamente e depois provoca o vômito e abusa de laxantes
e diuréticos. Há históricos de pessoas que
tomam vinagre e até detergente na obsessão de se livrarem
da gordura ingerida.
Quando, nos anos 60 apareceu a
Twiggy com suas olheiras escuras e sua magreza doentia, todos levaram
um susto e poucas foram as que a imitaram. Foi só no início
dos anos 90 que a inglesa Kate Moss através da mídia
começou a influenciar as adolescentes, passando a ser o tipo
ideal de beleza, levando-as a adoecerem de inanição
e a uma malhação desenfreada e compulsiva pelo mundo
todo. Estudos sinalizam que esses distúrbios podem conter
fatores genéticos e emocionais com históricos de problemas
de ordem familiar ou individual, que vão desde pais perfeccionistas
à auto flagelação cuja recusa aos alimentos
é o sintoma de um conflito que reflete uma imagem corporal
deformada.
Mas, não há dúvida
que esse padrão de beleza esquelético tem influenciado
significativamente no comportamento de meninas, principalmente entre
as idades de 11 a 18 anos como desencadeante desses males. Aqui
no Brasil uma em 250 adolescentes apresenta o distúrbio;
nos EUA, uma em cada 100. Na Argentina, adquiriu caráter
epidêmico, com 10 em cada 100 meninas.
Aquela magreza de passarela é
inadequada aos viventes comuns, pois estão 23% abaixo da
média. São muitas as aspirantes a top models que procuram
imitar La Bündchen. Em 1999, a revista Veja disse: "A
cada ano desembarcam em Nova York cerca de 300 meninas loucas para
se tornarem uma Gisele Bündchen. Quase todas se desiludem".
Hoje, com seu sucesso na vida profissional e pessoal o número
deve estar muito maior.
Uma coisa interessante é
que enquanto as meninas se deformam visualmente para imitar as top
models e tornarem-se falsas magras, quando as vêem em passarelas,
o comentário que geralmente os rapazes fazem é: "Esquisitas!
Eu prefiro com mais carne para pegar".
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