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      O olho d`água

         Adriana Murin
         Equipe Domínio Feminino
         29, Abril/2002

 

Nem só de dores vivem as mães. Lembrar-se da frase de Lígia Fagundes Teles, em a Disciplina do Amor, quando ela olhava o fio de mel, dourado, que escorria da boca do filho, referindo-se à babinha do filho exausto, adormecido no colo, é para qualquer mãe ler e reler.

Olhar para a boca de um filhote e ver o sorriso se abrindo, expondo a gengiva ainda despovoada de dentinhos, é comovedor. Olhar perdido tentando apreender e a buscar expressões dos nossos rostos. Ele todo, todo tempo, uma imagem acústica. Imagem e mensagem. Entretanto mãe e mulher não devem ser lidas com mesmo significado porque,

parir não é sinônimo de maternidade. Nenhuma mulher tem "de" ser parideira, nenhuma mulher tem "de" ser mãe. Nem toda mulher que pariu é mãe e nem toda mãe pariu biológicamente.

Maternidade é uma vocação como outra qualquer e não se deve presumir maior ou menor competência usando a maternidade como parâmetro para a feminilidade. Maternidade, verdadeiramente, é para quem quer e sabe receber; para quem sabe dar. É para quem sabe da responsabilidade de que poderá estar preparando um ser humano feliz ou infeliz, no futuro.

O cortinado de luxo, o berço os rolos protetores, o preço do pediatra famoso, a auxiliar de enfermagem paga a peso de ouro, as grifes das roupinhas de enxoval, tudo isso faz parte da festa, do open-house, dos cubanos, para impressionar os amigos. É gostoso, mas está tão longe de dizer alguma coisa de verdadeira e importante!

O pediatra, que deve ser sensível à criança, ter experiência ( do interior do País ou de hospital público, de plantão de emergência hospitalar, de preferência. Esses são os bons mesmo ). Mas o pediatra tem livrinhos e você, mãe, é quem conhece os diversos choros do seu filho, é quem vai praticando a pediatria juntamente com a maternidade. Para ser pediatra não precisa ter vocação materna, até porque os homens ainda são maioria na profissão. Não será o pediatra quem irá afugentar o choro sofrido do seu bebê, nem será a enfermeira (auxiliar de enfermagem ) quem irá sofrer com as ameaças de perda. Os amigos que fumaram os cubanos, menos ainda. Se vier a faltar qualquer pequena coisa para seu filho, ninguém vai estar nem aí.

Os rolinhos protetores, do berço, podem ser improvisados, assim o todo o resto.

O que não poderá ser improvisado é seu total senso de responsabilidade, seu afeto, seu equilíbrio emocional. A partir da maternidade toda mulher descobre a total solidão inevitável, mas que só aparece em função de carregarmos as dores dos filhos. Descobre-se para a realidade da vida, do mundo. Fica cagona e forte, dona do mundo, ao mesmo tempo. Verdadeiro paradoxo. É aqui que nem os filhos, tão pouco os maridos, os homens, entendem nossas lágrimas. A fonte, inicialmente um olhinho d`água, com passar dos anos, enquanto os filhos crescem, torna-se rios caudalosos.

É preciso, também, parar com essa coisa de pensar que, as mulheres que "têm marido " são felizardas" porque têm quem as ajude na educação dos filhos. Ledo engano. Esse equívoco é tão comum e tão antigo, como a maneira machista de educarmos nossos filhos homens e mulheres, mas nós mulheres não nos conformamos. Para educar os filhos, tanto faz ter marido por perto ou distante. Dá tudo na mesma. Quem vai ficar rouca de tanto repetir falas, vai ser você, quem vai ser sempre chamada de exigente, vai ser você e quem vai fazer o futuro dos seus filhos e alargar o leito do seu rio de lágrimas, vai ser você. Educar filhos com marido ao lado não significa que ele vá participar como nós desejaríamos que fosse a participação deles. Há uma tese que defende que é preciso que deixemos o marido, o pai, "assumir seu espaço". Só que ele não sabe que espaço é este porque suas mães jamais lhes ensinaram ou a sociedade se encarregou de apagar o que ele aprendeu, ou simplesmente não quer assumir. A despeito de tanta evolução de costumes, para nós ainda prevalece a cultura do público e do privado.

O marido pode passar, os filhos ficam. Existe ex-marido mas não existe ex-mãe ou ex-filho, nem ex-pai.

Você mulher-mãe de primeira viagem, pode alterar a herança maldita:

...se eu sofri e ainda estou viva, ela ( a mulher do seu filho ) também pode sofrer. Ou seja, vai pagar o mesmo preço.

Faça isto mudar. Eduque seu filho para ser co-responsável no educar seus futuros filhos, eduque sua filha para entender que mulheres não são vacas parideiras, nem todo casal deseja ter filho nem toda mãe é maternal como deveria ser. Maternal será, por vocação.

 

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