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Atenções para com a
maternidade não-biológica

 

Maria da Penha Vieira
22, Janeiro/1998

 

Psicologia demais pode atrapalhar a mulher-natura tanto quanto o desconhecimento; por isso deixe que a natureza do seu instinto feminino tenha a vez e a fala maternal.

O desejo de ter um filho adotivo raramente nasce do desejo puro e simples da maternidade. Lastimavelmente advém da impossibilidade de gerar biologicamente. O primeiro filho de um casal sem problemas, naturalmente é gerar seus filhos biológicos. No passado, as mulheres que não se casavam as " solteironas" costumavam adotar sobrinhos. Nesse mesmo tempo, o adotar significava " criar" como empregados domésticos. Eram baratos e não tinham nenhuma exigência. Um quadro um tanto escravo, pois além de não receberem nenhum dos cuidados que requer uma criança, tanto afetiva como materialmente, não recebiam sequer remuneração pelo trabalho.

Ainda hoje, persiste uma atitude e comportamento estigmatizantes por parte da sociedade, como um todo, além de elaboradas teorias pouco fundamentadas na qual o filho adotivo aparece quase sempre como criança sintomática ( o antigo " criança problemática ). Esse imaginário em muito contribui para o estigma fazendo com que muitos pais não-biológicos ainda prefiram cometer o errro imperdoável de negar ao filho a própria identidade.

Filhos não-biológicos..se não tê-los como sabê-los?

Um tanto parafraseando Vinícius de Moraes.

Se alguma mulher pensa que deseja " criar um filho adotivo", ela com certeza, não está qualificada para esta qualidade de maternidade. E, em desistindo estará fazendo um bem enorme a alguma criança e a si mesma.

Cria-se bichos, animais: galinhas, cães e outros.

Filhos, educa-se, ama-se!

O medo de que o filho não os ame verdadeiramente, o medo de vê-lo rejeitado pelos familiares e por toda a sociedade sempre são os argumentos da negação da identidade do filho. É verdade que o medo de não ser amados como pensam que seriam amados pelo filho biológico existe, é verdadeiro ( o medo sentido ) tanto quanto representa de perigo para o filho. Só que é apenas uma insegurança dos pais que não podem se passar por biológicos e mentem sem se preocupar com a gravidade da situação num futuro aterrador para o filho que irá, possivelmente, alimentar o imaginário já existente. Alimentará esse imaginário na medida em que o filho emocional e psicologicamente afetado pela revelação da sua identidade de maneira repentina e por vezes cruel, como sempre ocorre.

Se o casal estiver seguro quanto a capacidade de assumir responsabilidades com o amor, não há porque assustar-se. Não há nada que caracterize a maternidade não-biológica a não ser o fato de que ela não é biológica. Essa é adiferença que não conta em nada. Não agrega nenhum valor, por incrível que pareça. Pais saudáveis psiquica e emocionalmente não saberão fazer diferença entre os filhos que tiverem biologicamente ou não. Nem os filhos.

Mas, para conferir a veracidade desse sentimento os pais não-biológicos precisariam tê-los, também, biologicamente. Curioso é ver pais nos consultórios de pediatras responderem sobre casos de doenças na família, como alergia, por exemplo, e os pais não-biológicos responderem como se fossem biológicos. Se isso já lhe aconteceu, esteja certa de que você é verdadeiramente mãe.

Se você pensa em ser mãe não-biológica, precisa estar muito segura da sua vocação maternal. Se o desejo vem imediatamente à uma frustração de gravidez não levada a termo, dê um bom distanciamento no tempo. Se você e/ou seu marido estão fazendo escolha de exata aparência de cor e sexo, precisa pensar mais ainda. Você poderia garantir que se fosse um filho biológico, seu filho não seria portador de alguma deficiência ou doença degenerativa ? Ou é melhor desistir de arriscar a vida de uma criança que por mais pobre que venha a ser ao menos não terá que conviver com o sentimento de rejeição. Ainda que você pense que ele jamais terá conhecimento de que houve um modelo para decidir a escolha, estará cometendo um grande equívoco. Um dia ele saberá. Sempre existe a figura de alguém cruel.

 

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