A
herança maldita
Suzana
Bertioga
Domínio
Feminino
29,
Abril/2002
Curioso
é ver como em pleno século I do Terceiro
Milênio, a cultura do parir permanece fossilizada.
Com certeza nós mulheres alimentamos essa fossilização.
As perguntas — " já casou?" "Já
encomendou o baby ( agora a onda é baby,
para os mais fashions )?" — feitas a uma
mulher ou casal, continuam as mesmas. Ser mãe
nada tem de sofrer no Paraíso. Os homens acharam
que nosso ego iria ficar do tamanho que convinha aos
interesses deles. Do nosso lado, nós mulheres
parece que desejávamos que todas amargassem a
mesma porção.
Casal
com alguns anos de casados vivem essa cobrança
de forma desmedida. Chega a atingir o limite da chatice
quase insuportável. A pergunta-cobrança
vem sempre de mulheres. Até porque os homens,
em geral, são mais distanciados do assunto e
menos curiosos a cerda da vida alheia. Hoje, muitos
casais que optam por não ter filhos, nada mais
natural, que é seguir aquilo que se deseja e
se pode desejar. Se nenhum dos indivíduos que
compõem o casal deseja filhos, por que deveriam
seguir padrões fora dos seus? Uma mulher que
não deseja ter filhos deve ser respeitada tanto
quanto a que deseja. Mas essas que não apresentam
desejo em serem mães, que não concordam
com essa coisa de mulher ter "de" ser mãe,
tem mais é que assumir que pode, mas não
quer.
Mas
o que ainda observamos é a cobrança e
pior, as mulheres que apresentam dificuldades para engravidar,
ao se sentirem cobradas, passam a dizer que "não
está na hora, ainda" ou que "não
querem filhos" ou..."já passei dos
quarenta, agora não dá mais" isto
acontecendo mesmo com mulheres que optaram por não
ter filhos, ainda que os possa ter.
As
respostas para escaparem da pecha de "anormais"
são muitas. Para aquelas que desejam e não
conseguem conceber ou levar a gravidez a termo, essa
vivência continuada gera um grau de ansiedade
que leva ao círculo vicioso. Não engravida
porque é ansiosa e é ansiosa porque não
engravida. Vivem se submetendo a baterias de exames
infindáveis. Sucessivas tentativas de inseminações
etc.
Essa
cobrança vindo de outra mulher não é
compreensível em nossos dias ocidentais. Nas
culturas onde gerar filhos é imprescindível
para a valorização feminina, a curiosidade
das outras mulheres, vem mais no sentido de fuxicaria,
no sentido de valorizar aquela que pergunta, porque
tem filho. Nos homens, dessas mesmas culturas, é
garantia de perpetuação econômica
e espiritual. Explicam-se.
Mas,
em um país como o Brasil, onde o índice
de crianças desamparadas, mães solteiras
sem condições para alimentar ou educar
seus filhos é absurdamente alto, essas mães
deserdadas ou sem preparo e/ou vocação,
desejam encontrar uma mãe para eles, põe
por terra todas as desculpas das frustrações
daquelas que sofrem pela não-realização
da maternidade. Principalmente onde a cultura do tribal
sucessório, não explica nem justifica
um casal entrando em desespero pela ausência de
filhos. Sem contar o importante: onde o Estado é
irresponsável, uma mãe ensandecida que
mata seus próprios filhos.
Àquela
que deseja mesmo ter filhos, que vá e busque
seu filho que a espera em algum lugar. Que não
seja esta a desculpa para deixar de ter filhos, se você
tem vocação e está preparada. Se
você pensa em distinção de qualidade
maternal, sua vocação pode ser várias
outras e não a de mãe .
Um
filho não-biológico, tem a mesma capacidade
de canalizar nossos sentimentos maternais. O problema
é saber se a mulher que deseja ser mãe
tem vocação, verdadeiramente. Do contrário,
o filho não-biológico que se apresentava
sem perspectivas terá uma vida marcada de problemas
emocionais, afetivos muito piores. Neste caso, é
melhor que a mulher sem vocação fique
longe de uma criança e continue sem filhos, assumindo
sem culpas a ausência desse desejo. Do mesmo modo,
o filho biológico, se "desejado", estaria
fadado ao desamparo afetivo e emocional.
Não dizem que Deus
escreve certo por linhas tortas?
Ou seremos nós que
lemos torto?