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Dedicada ao maridos

Quando o "desamor" é só por conta da nossa idealização.

Um equívoco possível.

Muitas de nós não se dão conta de que, ao elegermos o homem da nossa relação conjugal — portanto marido, seja no papel oficial ou não, o valor da relação é a mesma, assim como a qualidade do amor que independe da corroboração legal —, levamos conosco uma idealização conjugal pronta, inconscientemente estabelecida.

Criamos e alimentamos expectativas idealizadas nos esquecendo da possibilidade — e todas possibilidades do mundo — de que ele não seja capaz de não apenas não dar-se conta, bem como de não suportar e importar-se.

Lá se vai "o pobre coitado", sem o menor conhecimento das nossas expectativas idealizadas projetadas nele. Muito tempo pode-se viver uma relação idealizada sem que tenhamos a menor consciência disso e, o marido menos ainda. Os anos vão se passando e o que chamamos de desgaste, pode partir exatamente da não-descoberta dessa idealização cobrada, invariavelmente.

Essa extensão por conta do patrimônio afetivo ampliado.

Aquele homem que conhecemos já há alguns anos, por desconhecer a eleição de companheiro ideal, torna-se vítima do fardo, tanto quanto nós, vítimas de um sofrimento medonho enquanto não vem a descoberta.

No princípio éramos apenas uma mulher-amor para o marido. Com o passar do tempo agregamos a nós, indivíduos, filhos, coisas, objetos como extensão de nós mesmas. Além dos animais de estimação e dos amigos favoritos.

Após casadas, nos extendemos aos móveis e utensílios. O sofá se transforma em extensão afetiva, o vaso Ming, os cristais Saint Louis, os quadros, as colchas de cama, os jogos de lençóis. A mulher-amor vai crescendo, melhor dizendo, vai inchando, até atingir o peso das paredes e de toda a casa. O marido não percebe o alastramento, tanto quanto nós não percebemos a idealização.

O amor, as atenções e gentilezas do início da relação, tudo vai raleando. Todo amor, atenção e gentileza que nos eram oferecidos somente a nós, mulher do tamanho que ele conheceu, tornam-se mínimos para atender à mulher expandida. Se o marido não oferece cuidados à manutenção da casa, do sofá, dos animais e, principalmente dos filhos — como nós entendemos —, temos a sensação de que todo sentimento dele em relação a nós diminuiu. Dificilmente nos vem à mente que ficamos grande e pesada demais para ele que, sequer sabe que não temos mais o mesmo tamanho. Ele, não sabe que deveria aumentar todos os sentimentos para cobrir nossos agregados.

Não raramente se pode ver uma amiga ou conhecida dizer: ah, se meu marido fosse como o teu, assim, que cuida das crianças, se preocupa com os bichinhos da casa.. .ah!

Ah, se meu marido fosse habilidoso e interessando em ver a casa bem cuidada!. Ah, quem me dera!

Para uma dessa, a ficha ainda não caiu, tadinha!

Por não nos darmos conta de que o marido foi idealizado, depois que nos tornamos largas demais, claro que as atenções que antes eram apenas para nós, não foram extendidas também, às pessoas e objetos aos quais nos somamos e nos quais projetamos nossa afeição.

A idealização do marido companheiríssimo, cavalheiríssimo, amantíssimo, como era objeto do nosso desejo de que assim fosse, revelou o desapontamento. Desapontamento e frustração maior, é descobrir que fomos enganadas pelo nosso desejo de viver "um cartão postal". Seria pedir demais que ele amasse a tudo que amamos; pesado demais querê-los cavalheirissímos, amantíssimos, elegantésimos. É fardo muito pesado. Um marido melhor do que o marido de qualquer outra. Quanto mais, mais valorizadas nos sentiríamos.

Enquanto a ficha não cai, separação e o divórcio se mostram tentadores e oferecem possibilidades de nos libertarem da realidade que tivemos necessidade de mascarar e a "infelicidade de descobrir". Seria mesmo uma solução ? Se considerarmos os riscos de continuarmos idealizando as relações, será apenas candidatar-se à repetição dos fatos. Mudaria a bosta mas, a mosca seria a mesma, se não mudássemos nós.

Vale mais a reflexão sobre o porquê da necessidade de tanta idealização, maior aprofundamento do que é da nossa competência gerenciar. Administrar as nossas afetividades extras que direcionamos sem que perguntemos a eles se desejam participar.

Deixá-los escolher se desejam ou não aceitar nosso mundo individual. Nós mulheres somos capazes de abarcarmos o mundo deles, as extensões deles, mas a recíproca quase nunca é verdadeira.

Tudo bem, seu rei pode até já estar nu, mas viva seu rei!

Em 15/03/2001

Por Suzana Bertioga

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