Você
tem certeza de que sabe amar ?
Carlos
Henrique Barrim
barrim@ufrj.com.br
Há
os que: Amam loucamente mas não sabem amar. Amam um pouco
mas sabem amar. Não amam mas sabem amar. Amam e sabem amar.
Sabem de amor mas não sabem amar. Sabem amar mas não sabem
de amor. Amam e sabem de amor, mas não sabem amar. Amam
e não sabem de amor, nem sabem amar. Amam e não sabem de
amor, mas sabem amar. Não amam, sabem de amor e não sabem
amar. Não amam, não sabem de amor e não sabem amar. Amam,
sabem de amor e sabem amar. E por aí começa a confusão da
relação amorosa.
Seria
simples se tudo se resumisse a: "Eu te amo. Você me ama?"
- "Sim, te amo." Seriam felizes para o resto da vida, mas,
quando tal diálogo acontece e duas pessoas percebem que
se amam, a dúvida e a confusão não terminam. Começam! Não
está disposto na lei da vida que duas pessoas que se amam,
sabem amar. Que uma delas não saiba, e olha a relação rolando
pela ribanceira! O normal é as duas não saberem. O raro
é as duas saberem, escassos exemplos de relação em que a
maturidade não interfere na intensidade. O habitual é um
saber e agüentar o rojão pela outra . Amar quase sempre
atrapalha a sabedoria do amor. Porque amar é um sentimento
de necessidades nem sempre atendidas, de carência compensada,
doação exercida ou entrega salvadora. E isso é intenso demais
para coabitar com a sabedoria do amor. Saber amar!
Quanta gente
prefere viver com alguém que sabe amar, mesmo que não o
ame! Quanto amor pode brotar da relação com quem sabe amar
! Quem sabe amar, pode até realizar o milagre de acabar
recebendo o amor de quem não o ama, ou ama e não sabe, porque
quem sabe amar conhece a linguagem sutil do que está adormecido
no outro, em estado de conto de fadas, carência, infância,
flor ou adivinhação. Sabe amar quem sabe o outro sem deixar
de ser quem é. Saber amar é conhecer o amor como forma de
arte. Amor é apenas um sentimento. Mas saber amar é uma
criação, uma estética do amor. Saber amar tanto é a flor
na hora certa, como o presente fora de hora ou a compreensão
do desamor, do cansaço e dúvida passageira. Mas é, com segurança
absoluta, o olhar fundo do sentimento, o carinho preciso,
a mão firme, a pele dialogando de igual para igual, gritando
ou sussurrando conforme a hora; é a temperatura da paz recobrada.
Saber amar, não é a aceitação passiva do outro.
É a existência
ativa do amor latente, real ou adivinhado. Saber amar, implica
conhecer virtudes que o amor agudo não sabe: esperar, deixar
fluir, não invadir as dúvidas, não abafar nem impedir (ainda
que com carinho) que a outra parte ejete à tona a angústia
ou a dor. Quem ama desama junto. Quem sabe amar suporta
esse desamor, se passageiro, é claro, porque quem sabe amar
conhece a medida exata dos orgulhosos que valorizam o amor.
Nada é pior que a desistência de quem sabe amar, do que
o ferimento ou a indiferença provocados em quem sabe amar.
Quem ama tolera ser maltratado. Quem sabe amar, jamais.
Este jamais permanecerá com quem maltrata porque quer ser
maltratado. Quem ama, quando cansa, pode voltar amar. Quem
sabe amar, quando desliga é para sempre. É mais fácil
afrontar a quem ama (um estado no qual todos ficamos meio
sem caráter) do que a quem sabe amar. Este conhece tanto
a importância de seu sentimento, que quando o retira, machucado,
incompreendido ou ferido de morte, é para sempre. Quem ama
é mais inocente do que quem sabe amar. Mas quem sabe amar
é capaz de maldades maiores, a partir do momento em que
desiste. Desiste de saber amar, porque pode até continuar
amando.
Cuidado com
quem ama ! Mas cuidado maior com quem sabe amar ! Quem perde
um amor perde muito menos do que quem perde alguém que sabe
amar. Saber amar não é depender. Não é ser servil. Não é
viver agradando. Não é fazer o que o outro quer. Saber amar
é ter as reações certas, de reação e crítica; é ocupar todo
o espaço e no tempo do sentimento e da emoção do outro.
Saber amar é aquela parte que, partindo do amor, procura
(até encontrar) a parte do outro que um dia saberá amar.
E a encontrando tem paciência, afeto e tolerância com ela.
A menos que descubra que ela não merece. Porque saber amar
é também ter a coragem das renúncias, bravura que raramente
tem quem apenas ama.
Colaboração:
Carlos Henrique Barrim - Universitário - 20 anos
Sobe