Se virmos dez documentários de animais
(a indústria da informação-espetáculo descobriu um filão
fantástico e lucrativo especialmente quando trata de
acasalamento) teremos em quaisquer espécies e circunstâncias,
fêmeas nervosas espreitando e machos desarvorados saindo
na porrada para delas desfrutar, mesmo com o risco de
perderem as tripas. Mais: alcatéias e rebanhos, grupos
e aliados de sangue têm sempre um líder. E esse é o
que encara os inimigos. As fêmeas se escafedem, o sujeito
vai pro pau. Macho é bicho burro. E nós?
É por aí, com as
deslumbrantes variações culturais
inventadas para nos diferenciar dos reles quadrúpedes
e outros que tais, de ameba a peixe, de crocodilo a elefante.
Como "civilizados", não é de bom tom crescer na pancada
sobre a galera se queremos uma fêmea, esteja propícia
ou não; usamos outros artifícios. Basta ver no trânsito.
É coisa rara, dificílima de se ver, uma mulher segurando
o carro na embreagem na ladeira, sair cantando pneus,
cortar pela direita ou entrando na raça na contramão pela
esquerda (nada que ver com o Presidente, por favor), estacionar
quase no cavalo-de-pau, acelerar parada para intimidar
(no ronco, feito macho) o motorista visinho, dirigir perigosamente
no extremo da faixa de tolerância dos limites de velocidade
(sai caro, podem crer) e outras desnecessidades tão exuberantes
quanto estúpidas.
Se ele fura um pneu,
já sai arregaçando a manga, aquele ar de fera antes do
ataque, guerreiro, prático, imbatível na lida bruta. Saltam
logo o macaco, o estepe, a chave, ele arremete contra
o equipamento murcho, um átimo e volta, a cara iluminada
e as mãos sujas e, se com ela, aquele ar de esperto e
insubstituível. Elas? São mais sutis, sensíveis e... inteligentes.
Basta uma carinha triste, desconsolada, e já estará ao
seu lado o bicho burro, muito mais disposto que se o carro
fosse dele. Se pifou e tem de empurrar, o espetáculo é
ainda mais primoroso. Ela se aboleta dirigindo faceiramente,
e o camarada (ou os, depende) se refrega atrás, empurrando.
Sendo capaz, ainda conserta de graça.
É só liberar a memória,
e teremos infinitos exemplos no mesmo estilo. São, de
verdade poderosas. Sabem que são. Deixam para nós o que
for perigoso, sujo, pesado e até mesmo fatal. Tudo pela
graça e pela sedução, quando não pelo instinto. Podemos
protestar, espernear à vontade e nos rebelar, mas não
resistimos a tal magia, muitas vezes (e quase sempre)
conscientemente. A nossa condescendência, como as infrações
de trânsito, sempre custou caro. Muito caro. Por isso,
começaram a "ajudar a pagar as contas", gostaram da brincadeira
e conquistaram amplos espaços para uma bela independência
econômica, porém marcada por forte atavismo, o da sedução,
junto ao de assegurar a alimentação da prole, emblematicamente
simbolizado no uso das bolsas e sacolas. Já olharam bem
nas ruas? Macho que é macho não carrega essas tranqueiras...
É por isso que meu
avô, o anarquista italiano Hectore Zamprogna, me dizia
quando eu era bem menino: "- Filho, nunca briga com a
mulher. Se perder, você perde e, se ganhar, também perde."
Ou ainda: "- Nunca discuta com sua mulher. Escute tudo,
concorde com tudo, depois faz aquilo que tem de fazer
como acha que deve ser feito. Se der certo diz que ela
é um gênio e agradeça o mais comovido que puder. Se der
errado, bota a culpa nela, bem feito por ir atrás de conversa
de mulher. Nos dois casos, ela ficará uma seda!". O pior
é que funciona...
Palavra de macho!