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   Bicho Burro

 

 

   Caio Martins
   Assessor de Imprensa
   da Prefeitura de São Caetano do Sul
   27, Maio/2004

 

Se virmos dez documentários de animais (a indústria da informação-espetáculo descobriu um filão fantástico e lucrativo especialmente quando trata de acasalamento) teremos em quaisquer espécies e circunstâncias, fêmeas nervosas espreitando e machos desarvorados saindo na porrada para delas desfrutar, mesmo com o risco de perderem as tripas. Mais: alcatéias e rebanhos, grupos e aliados de sangue têm sempre um líder. E esse é o que encara os inimigos. As fêmeas se escafedem, o sujeito vai pro pau. Macho é bicho burro. E nós?

É por aí, com as deslumbrantes variações culturais inventadas para nos diferenciar dos reles quadrúpedes e outros que tais, de ameba a peixe, de crocodilo a elefante. Como "civilizados", não é de bom tom crescer na pancada sobre a galera se queremos uma fêmea, esteja propícia ou não; usamos outros artifícios. Basta ver no trânsito. É coisa rara, dificílima de se ver, uma mulher segurando o carro na embreagem na ladeira, sair cantando pneus, cortar pela direita ou entrando na raça na contramão pela esquerda (nada que ver com o Presidente, por favor), estacionar quase no cavalo-de-pau, acelerar parada para intimidar (no ronco, feito macho) o motorista visinho, dirigir perigosamente no extremo da faixa de tolerância dos limites de velocidade (sai caro, podem crer) e outras desnecessidades tão exuberantes quanto estúpidas.

Se ele fura um pneu, já sai arregaçando a manga, aquele ar de fera antes do ataque, guerreiro, prático, imbatível na lida bruta. Saltam logo o macaco, o estepe, a chave, ele arremete contra o equipamento murcho, um átimo e volta, a cara iluminada e as mãos sujas e, se com ela, aquele ar de esperto e insubstituível. Elas? São mais sutis, sensíveis e... inteligentes. Basta uma carinha triste, desconsolada, e já estará ao seu lado o bicho burro, muito mais disposto que se o carro fosse dele. Se pifou e tem de empurrar, o espetáculo é ainda mais primoroso. Ela se aboleta dirigindo faceiramente, e o camarada (ou os, depende) se refrega atrás, empurrando. Sendo capaz, ainda conserta de graça.

É só liberar a memória, e teremos infinitos exemplos no mesmo estilo. São, de verdade poderosas. Sabem que são. Deixam para nós o que for perigoso, sujo, pesado e até mesmo fatal. Tudo pela graça e pela sedução, quando não pelo instinto. Podemos protestar, espernear à vontade e nos rebelar, mas não resistimos a tal magia, muitas vezes (e quase sempre) conscientemente. A nossa condescendência, como as infrações de trânsito, sempre custou caro. Muito caro. Por isso, começaram a "ajudar a pagar as contas", gostaram da brincadeira e conquistaram amplos espaços para uma bela independência econômica, porém marcada por forte atavismo, o da sedução, junto ao de assegurar a alimentação da prole, emblematicamente simbolizado no uso das bolsas e sacolas. Já olharam bem nas ruas? Macho que é macho não carrega essas tranqueiras...

É por isso que meu avô, o anarquista italiano Hectore Zamprogna, me dizia quando eu era bem menino: "- Filho, nunca briga com a mulher. Se perder, você perde e, se ganhar, também perde." Ou ainda: "- Nunca discuta com sua mulher. Escute tudo, concorde com tudo, depois faz aquilo que tem de fazer como acha que deve ser feito. Se der certo diz que ela é um gênio e agradeça o mais comovido que puder. Se der errado, bota a culpa nela, bem feito por ir atrás de conversa de mulher. Nos dois casos, ela ficará uma seda!". O pior é que funciona...
Palavra de macho!

 

Sobe

 

 

 

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