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O futebol das mulheres

Por Luciana Molini
18, Julho/2001

 
 
Foto: Caio Martins  

Quem sabe, o nesmo sol que se pôs para Bündchen não jogará uma réstea, mínima, em Denise?

 

Os meninos sonham com fama e dinheiro como jogadores de futebol. Já as meninas pensam em alcançar a fama e a riqueza, sendo Top Model à la Bündchen. A menina pobre, de interior, como a Bündchen, pode estar com os dias contados. Já, já, vão inventar mais do que já existe, mais do que é necessário: talento, vocação e beleza, sendo esta última qualidade, o resultado ditado pelo poder econômico que vem dos países industrializados, protegendo sua(s) etnia(s) e impondo-a aos mercados dependentes.

O menino pobre que sonha em ser jogador de futebol, por enquanto pode sonhar e até chegar lá. Entretanto, o caminho para obrigá-lo a freqüentar uma escolinha de futebol e depois um farculdade, não está longe. Essa coisa está dando muito dinheiro e neguinho já viu.

As indústrias estão de olho, atentas para criar necessidades e lançar seus produtos. As meninas e suas famílias não têm como imaginar nada disso. A menina que sonha em ganhar um dinheirinho para ajudar a família, para projetar-se na media não sabe quais são as diferenças entre modelo de passarela e modelo fotográficos. Modelos fotográficos para anúncios ( produtos ) ou revistas eróticas e/ou pornográficas.

E como diz Caio Martins, jornalista-fotógrafo-idealista, — Vira carne de açougue na mão de escroques donos de falsas agências de modelos.

Vira carne de açougue, até porque outras profissões, camufladas, fazem uso do vocábulo com outra conotação. Modelos de sauna, de casa de massagens etc.

O sonho de ser modelo é, para a jovem e menina pobre, o mesmo que ser jogador de futebol para o menino pobre e sua família.

Domínio Feminino tem um exemplo para ilustrar: a jovem e bela Denise, adolescente da periferia de São Caetano do Sul, SP, precisa ser descoberta.

Um irmão foi encaminhado para o futebol pelo jornalista e fotógrafo, Caio Martins, que apela para alguma agência séria, que ofereça uma oportunidade para Denise. — Se isso acontecer, já terei pago metade dos meus pecados, como idealista —. Assim Caio resume seu compromisso com sua responsabilidade social. Mas antes, Caio Martins tentou com muita argumentação junto à jovem bem como junto à mãe de Denise, o mundo de ilusões que cerca a profissão de modelo. De nada adiantou. Caio, então resolveu fotografá-la e aqui está Denise e seu sonho. Mais do que fotografar, Caio Martins saiu pedindo por uma oportunidade para Denise. Continua pedindo. E Denise, continua sonhando.

Quem sabe, o sol que se pôs para Bündchen não jogará uma réstea, mínima, em Denise?

 

Depois do preâmbulo:

 

O fenômeno que ocorre, principalmente nos países pobres, como o Brasil, onde a falta de oportunidade profissional, o difícil acesso à educação, a priorização do "canudo de papel" ( Martinho da Vila), herança do regime militar, ganhou dos cursos técnicos bem mais adequados à uma economia que se preparava para sair no nanismo. Ganhou tanto que, a extinção das escolas politécnicas gerou um grande prejuízo em muitos sentidos.

Enquanto se cursava as escolas técnicas, havia tempo para amadurecer o sonho do que se queria ser quando o jovem crescesse. Seguir ou não os cursos superiores? E as vantagens de se conseguir emprego com maior facilidade, através de mão de obra qualificada. Do alto de alguma cabeça tresloucada, que viu engenheiras pós-graduadas apertando porcas e parafusos, alimentando altos-fornos nas siderurgias. Um mínimo.

Um curso técnico para especialização em vendedor de frios, em turismo e outras áreas de atuação, na Alemanha toma, na maioria das vezes, um tempo de três anos de estudos. Cá, no Brasil, isso é o tempo de um "curso universitário", para algumas áreas. Atentem para o absurdo. Lá, são esses profissionais que sustentam o comércio e as indústrias.

Em breve, para que alguém de talento e vocação possa candidatar-se a escrever um livro vai ter de provar que fez curso faculdade de escritor.

Não se pode negar a necessidade do conhecimento técnico, pelo menos, mas há que se prover instrumentos não-atrelados, unicamente, ao poder aquisitivo da população, jovem, principalmente.

 

Sobe

 

                    

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