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Fico
observando a minha volta, sobrinhos, filhos de amigos,
jovens casais de namorados pelas ruas, nos shoppings
e já assisti a dúzias de cenas que me fez querer dizer
alguma coisa sobre o assunto namoro e brigas de namorados.
Outro
dia, enquanto aguardava uma vaga em um estacionamento
de um shopping fui atraída pela voz de uma jovem falando
ao celular. O carro praticamente ao lado do meu. A mocinha
não se fazia entender para alguém do outro lado da linha.
Após aguçar meus ouvidos de "tia", espichando bem o
pescoço ( bem que eu merecia ter tido um torcicolo )
e as "oiças" fui me concentrado até não ouvir
mais nada além da conversa. Preparava-me para a espera
da vaga abrindo meu embrulhinho com duas cocadas bem
douradas que havia comprado na "baiana" da
orla da praia e me deliciava com o gostinho do coco
açucarado se dissolvendo na saliva.
A
altura da voz da jovem mulher estava a meu favor, conspirando
contra meus princípios de nunca ouvir conversas alheias.
Cada vez mais alta até gritar enlouquecida, desfazer-se
em gesticulações desmedidas, ora abanando as duas mãos
ora com o dedo em riste. Bom, ela está no viva voz.
Para encurtar o caminho, entendi que estava se dedicando
a torturar o namorado. "...nunca faz o que eu digo!
Olha eu aqui, te esperando...é sempre assim. Ocupado,
com o quê?! ...é...vive ocupado...não...não continua.
Fiquei esperando no teu escritório...e olha que eu tinha
avisado que ia lá...te dei outra chance marcando aqui
no shopping e no que deu, heim, ainda no escritório.
Não
sei o que ele estava falando, mas pela resposta ele
pedia para que ela fosse para um bar ou coisa assim.
A resposta dela, já histérica "....e quanto de trânsito
vou pegar até lá a essa hora, tem noção ?!!!". Vou ficar
bebendo sozinha até cair porque você vai levar um ano
pra aparecer. Não, não vou a lugar algum. Vou ficar
aqui esperando você, ou você vem ou não precisa se incomodar
nunca mais, ameaçou. O interessante está sendo relembrar
a frase: '...nunca faz o que eu digo".
Fiquei
pensando no coitado, sentindo-se culpado por estar causando
tanta infelicidade, tentando se livrar do computador,
do telefone, do chefe, fazendo tudo mal feito e preocupado
com aquela maluca. Imaginei a cena com algum colegas
ouvindo. Bem feito para ele! Via-se que a moça era de
pegar no pé, de atanazar as idéias de qualquer homem
que não obedecesse ao gosto dela. Ela havia dado alguma
ordem que o mancebo não cumpriu à risca. Pelo tanto
e pelo tempo em que ele esteve aturando tudo aquilo,
pude deduzir que deveria gostar muito ou ser um prisioneiro
da neurose dela. Sugerimos a leitura do artigo da psicólogoga
Maria Luiza Curti, Culpa:
para quê serve?.
Por
tanto tempo ou o tempo foi generoso comigo que terminei
de saborear as cocadas, recordar meus tempos de namoro
jovem com meu marido. Quantas vezes parávamos em locais
mais idiotas do mundo só para nos lambuzarmos de sorvete
de casquinha de biscoito. Eu acabava o meu e ficava
feito cachorrinho esperando a casquinha que ele não
gostava porque dizia que aquilo era de plástico. Dizia
isso só para se divertir e nós ríamos juntos feito crianças.
Depois ele segurava a casquinha para que eu fosse mordendo
enquanto desfiávamos uma conversa sem-fim. Gostávamos
tanto de hambúrgueres do MacDonalds quanto de cocadas
compradas no calçadão da praia nos fins
de semana, quando algumas horas do dia e outras poucas
da noite eram só para simples diversão e encontro com
amigos. Durante a semana, trabalho e estudo, para os
dois. Um ou outro telefonema: saudades, saudades, te
amo, desliga você primeiro.... Tudo sem máximas, somente
muita espera pelo final de semana seguinte.
Como
consegui uma vaga atrás do meu carro, fiz ré, estacionei
e perdi o resto da história. Mas o que ouvi era mais
do que suficiente, juntando com o tanto de outras situações
que já presenciei. O resto sabia de cor. No caso dessa
moça do estacionamento pensei que ela parecia que adotava
máximas de vida inquebrantáveis, parâmetros cheios de
enganos que geram atitudes e comportamentos sujeitos
a infelicitarem suas vidas. A máxima dela poderia ser:
nunca permitir que o namorado se atrase para nenhum
encontro, nunca permitir que ele não cumpra o que ficou
estabelecido, não importando se ele poderia ou não atende-la.
Se a máxima não-cumprida ao pé da letra não infelicitava
de todo, com, certeza, raros seriam os momentos de paz
e prazer, entre ela e o coitado do namorado.
Por
que tanta briga ?
Quando
o homem ou a mulher tenta a "domesticação" do seu par,
por imposição de personalidade, acaba por ferir a si
mesmo e ao outro.
Quanto
às imposições, elas são empregadas de várias maneiras,
de forma sutil ou na pata-de-elefante. Na base da chantagem,
do excesso de críticas, ou da ameaça direta. Chantageando
acabar o namoro é a mais comum e a mais cruel. Se hoje
a chantagem é ameaçar acabar o namoro, amanhã, se separada,
a mulher vai ameaçar proibir o pai de ver o filho ou
coisa no gênero.
O
que ninguém observa é que aí está uma forma de aprendizado
da violência entre casais. Aparentemente o que se chama
de "briguinha de casal" muitas vezes não é briguinha,
tamanho é o peso das agressões, transvestidas de explicação
- "brigamos porque nos amamos muito"!. E não é tão-somente
briguinha porque naqueles casos em que elas se repetem
com muita freqüência, desde o início do namoro, sempre
foram brigas para valer. Brigas que tornam-se torturantes
para ambos, ou, mais para o que sofre a tortura do que
para o que a pratica. Não é uma coisa tão-inocente e
de acordo com a freqüência, caracteriza-se em uma relação
doentia, neurótica.
Inicialmente
as brigas vão se encorpando ao passar de simples amuo
para palavras ásperas. Com a repetição passam à alteração
do tom de voz. Xingamentos e palavrões. Desrespeito
total até que chega a inexorável hora do estapeamento.
Em sua maioria, estão assim os jovens casais de namorados.
A relação sado-masoquista que se revela ao abrir feridas
para lambê-las depois. De um lado o sadismo do ferir,
do outro o masoquista que exibe a ferida para ser lambida.
Quando
ocorre de um não se enquadrar no perfil de masoquista,
a primeira briga já serve como vacina ou para criar
calo. A segunda, já não dói tanto quanto a primeira.
As seguintes só servem para preparar um do par para
o descontentamento, para a insatisfação e até que chega
a hora de ver-se livre da tortura das brigas. O fim
do namoro ganha significado de caminho para a liberdade
e para a paz.
Nas
motivações para as brigas
sempre se lança
mão de explicações e justificativas fáceis, esfumaçamento
dos motivos bem distante dos verdadeiros que é culpar
o outro. E o que é verdadeiro? Possivelmente, nesses
casos, no casal, um do par tende à dominação, tende
ao controle das situações, tende à imposição de suas
vontades. Se o outro é excessivamente passivo, tudo
vai ficar bem, e poderão chegar até ao casamento neurótico.
Considerando-se que o outro não seja excessivamente
passivo, nem ao menos passivo, a rota de colisão é matematicamente
certa. Verdadeiro é que, um, mais do que o outro não
sabe lidar com a frustração de ver sua vontade não atendida.
Todos
esses motivos podem estar passando pelo ciúme, pelo
egocentrismo, sentimento de inferioridade, tudo que
sinaliza para a insegurança, para a falta de maturidade
emocional gerada pela carência afetiva, experiência
de vida. E o outro que agüente o tranco.
Por
dentro dessas questões de inseguranças correm nos subterrâneos,
outras: diferenças de valores, diferenças intelectuais,
culturais, sociais, econômicas, financeiras, diferenças
de idade, diferenças de educação, diferenças de vivências,
tudo ao mesmo tempo e mal administrados. Muitos e variados
desníveis. Difícil aqui é que um do par saiba fazer
a leitura correta, de maneira reflexiva.
Personalidade
e temperamento são resultados, e, quando o casal apresenta
o mesmo denominador, os mesmos traços de personalidade
e temperamento além de não conseguir, cada qual sozinho,
administrar seus problemas, aí, não tem lugar para fugir.
É admitir a total incompatibilidade e bye. Vai doer,
mas é melhor não insistir, porque a cada dia a relação
será mais amargurada, mais doente.
Mas,
para valer mesmo
é o fato de que
o jovem casal está queimando sua etapa de enamoramento.
Está suprimindo a fase de descobertas de forma lenta,
numa lentidão natural. Todos os dias acham que precisam
se ver, ficar colados um no outro, chicletando. A vida
marital é um veneno para essa fase da vida e pela própria
experiência marital precoce, deixa de ser "fase de namoro".
Comer a cocada antes do almoço. Ao mesmo tempo que descobrem
as qualidades um do outro, antecipadamente, descobrem
as imperfeições e se aborrecem com elas porque os defeitos
são muito mais ampliáveis e mais sentidos do que as
qualidades.
Namorados
de hoje já dormem e acordam juntos, se telefonam várias
vezes ao dia. Não há vida conjunta que suporte. O ideal
seria que os namorados seguissem suas vidas, com suas
ocupações, vivendo seu individual, sem invasões que
comprometessem essa etapa da vida a dois. A namorada
muitas vezes já vai levando, aos poucos, algumas peças
de primeira necessidade para a muda e acaba por esquecer
na casa do namorado. Depois vai levando "coisas que
podem ficar aqui" para uma emergência. E assim, vai
colando por imposição.
Pensando
bem, o pessoal fica tão colado que nem há tempo
para se sentir saudades. O distanciamento físico aumenta
o desejo. Ninguém se lembra de raciocinar nessa direção.
O que cola mais sufoca e depois vai reclamar que o outro
não liga, não sente saudades. Pudera.
Nas
meninas, esse chicletar não desperta nenhuma idéia de
que a família do sujeito está sendo violentada, invadida.
Toda a família se ressente com presença de um estranho,
com tanta continuidade, que perde toda sua privacidade.
Todos da família precisam ter cuidados para falarem
das coisas que só dizem respeito à família. O simples
ato do pai ou da mãe ter que repreender uma filha ou
filho na frente da namorada do irmão já é um desconforto
geral.
Que
os namorados experimentem diminuir a freqüência dos
encontros e vejam como é muito mais gostoso quando a
expectativa funciona como adrenalina, aumentando o desejo
da presença do outro. Uma boa fórmula de fortalecimento
e renovação da convivência.
Alguns
poucos meses de namoro nos tempos atuais, equivalem
a vários anos de vida conjugal nas gerações anteriores.
Casados, os namorados atuais logo cedo partirão para
outras experiências.
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