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"Pilriteiro,
dás filritos...
Por que não dás
cousa boa?
Cada um dá o que
tem Conforme a sua pessoa."
(Eça de Queiroz)
Nossos
tempos assistiram a proliferação de idéias vesgas, hábeis
em enganar, que ainda são difundidas com a maior naturalidade
pela solércia especializada. Nossa geração, por exemplo, teve
a memória abarrotada com coisas, que não ousou cultivar na
prática, mas pelo menos ouvimos e lemos os clássicos – muitas
vezes em suas línguas originais. A dos nossos filhos, pior
ainda, coitados, foi embaralhada pelas improvisações dos materialistas
vermelhos, vendendo a noção de um Deus esperto e velhaco.
As escolas, principalmente as universidades, foram muito eficientes
em ensinar ideologia, com se fosse a religião válida. A instrução
dos netos, observamos boquiabertos, segue ensinando que fomos
todos enganados e que, agora, somos todos apenas os vencidos
da vida, vítimas da gulodice capitalista e das promessas maquiavélicas
do liberalismo, mediante uma nova versão imperialista: a criação
satânica da globalização...
Enfrentamos
anos e anos de nacionalismos e totalitarismos exacerbados,
levamos diversos desdobramentos de uma guerra mundial pela
tromba e quando pensávamos adentrar um século de novíssima
era de liberdade, paz e de conhecimento, acordamos com a fúria
de arautos de uma nova era de burrices socialistas, não levando
em mínima consideração o perigo da reedição dos gulags, advinda
de uma hegemonia ideológica boçal , forçada pela covardia
moral e pelas canalhices do oportunismo politiqueiro.
Pior do
que qualquer avalanche de bombas, a ameaça filosófica dos
retardados da História pretende infiltrar-se nos cérebros
imaturos, ainda contaminados com as rebarbas das fundições
totalitárias que desmoronaram com o Muro de Berlim. Por incrível
que pareça, ainda perdura a difusão do universo oblíquo dos
sofistas gregos, cujo exemplo clássico é a estória do homem
que levava ao mercado uma cabra a cabresto, cuja dialética
ganhou superfície e extensão nos Brasis gazeteiros, em prejuízo
da profundidade a respeito de cada coisa ou de todas as coisas.
Facilmente provarão, que a retórica da ignorância em ação,
oferecerá um discurso mais longo, atrevido e útil aos seus
desígnios;
1º)
a cabra ia ao mercado puxada pelo homem;
2º)
a cabra ia ao mercado puxada pela corda;
3º)
a cabra era levada pela corda e não pelo homem;
4º)
nem o homem, nem a corda levavam-na: ia o animal para que
a corda não lhe judiasse ou ferisse o pescoço ao ser tracionada
pelo homem;
5º)
nada disso – explicarão, que o dinheiro, a idéia de lucro
no cérebro do bípede é que conduzia o homem, tracionando
a corda e arrastando a pobre cabra ao mercado para que fosse
sacrificada pelo infame consumismo da economia liberal,
etc. etc...
O assunto
do momento internacional, portanto, será torcido para o lado
dos que se consideram vencidos pela vida, procurando a glória
pela morte via estagnação globalizada. Os que preferem morrer
apenas vegetando nos sofismas, hão de torcer os fatos com
aquela intolerância jaculatória típica da intriga, com a dialética
do universo oblíquo e, sempre que possível, usando o Meio
Ambiente e Deus como espantalhos.
Porém,
os abençoados, afinal, serão os de todas as crenças que sentem
como Renan (La Vie de Jesus): "C'est l'idée d'un Dieu père
dont on entend la voix dans le calme de la conscience et le
silence du coeur". :
(
* ) Jorge E. M. Geisel é advogado.
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