O
QUE É DINHEIRO?
Angela
Riore
25,
Maio/2001
Desculpem.
Isto é pergunta que se faça? Todo mundo
sabe o que é dinheiro. Ou não? Claro, quem
não conhece moeda, notas, cheques? Alguns afortunados
até as têm no bolso. Não é
com dinheiro que vamos ás compras, adquirimos bens
e serviços e pagamos nossas dívidas? Se
é, então todos sabemos o que é dinheiro.
Afinal, quem se preocupa em definir dinheiro? Dinheiro
é dinheiro e ponto final.
Parece,
mas não é tão simples assim. Existem
muitas definições de dinheiro, sendo algumas
mais ou menos complexas e outras bastante abrangentes
e, até mesmo filosóficas. Vamos a algumas
delas ditadas por expoentes da vida acadêmica e
renomados economistas:
"dinheiro
é o moderno meio de troca e a unidade-padrão
no qual são expressos os preços e as dívidas
"
( Prof.
Paul Samuelson)
"dinheiro
é qualquer coisa que serve como meio de troca em
uma sociedade "
( Profs:
Roger Chislon e Marilu McCarthy ).
Finalmente,
dinheiro é tudo aquilo que permite, que se compre
ou se venda alguma coisa.
Pergunta-se
então: o que nos importa definições
e conceitos de dinheiro ?
Importa-nos
porque, é o maior ou menor volume de dinheiro
em circulação na economia que irá
impactar os preços para maior ou menor, o comportamento
desta mesma economia e, em conseqüência ,
nossas vidas . Ë porque, deste volume de dinheiro
maior ou menor seja em nosso bolso ou
seja nos bancos, que irá depender o valor real
do nosso salário, do qual depende nosso padrão
de vida e a nossa capacidade de poupar. Muito dinheiro
em circulação, principalmente quando associado
a baixa produção de mercadorias, significa
inflação, que nada mais é do que
uma alta persistente nos preços. E esta alta
de preços significa a desvalorização
do poder de compra do dinheiro.
Em
nosso país, onde por quase 100 anos convivemos
com a inflação, nunca existiu muito respeito
pelo dinheiro. Todos precisavam dele, mas nunca o trataram
com a devida seriedade. Os governos emitiam o quanto queriam
ou precisavam, sem medir suas conseqüências.
Os bancos estaduais forneciam créditos baseados
em recursos que quase nunca dispunham, criando assim dinheiro
e gerando mais inflação. Era um círculo
vicioso e irresponsável pois, quem pagava a conta
éramos todos nós. Na verdade passamos anos
a fio carregando "papel pintado " no bolso,
sem nenhum poder de compra e com as respeitáveis
assinaturas do Ministro da Fazenda e do Presidente do
Banco Central do Brasil..
Vale
citar John Kenneth Galbraith em seu livro "A Era
da Incerteza ":
'....o
dinheiro é uma coisa curiosa. Ele disputa com
o amor, a primazia de dar ao homem o maior prazer. E
rivaliza com a morte na condição de ser
sua maior fonte de ansiedade e angústia . Em
toda a história , ele tem oprimido praticamente
todas as pessoas de duas maneiras: ou é abundante
e muito instável, ou então é estável
e muito escasso'.
E conclui com sua conhecida ironia:
'...todavia,
para muitos, tem havido um terceiro motivo de aflição:
para estes, o dinheiro tem sido ao mesmo tempo tão
instável quanto escasso'.
Realmente,
é muito difícil abstrair a idéia
do dinheiro, pois é com ele que satisfazemos as
nossas necessidades mínimas de sobrevivência.
Mas nem sempre foi assim, e vamos tentar demonstrar adiante
como funcionava antigamente e de como evoluíram
até nossos dias.
No
início, funcionava á base de trocas, mercadoria
por mercadoria. O conhecido escambo, ainda hoje praticado
nas regiões mais pobres do Brasil e que na era
da Internet , já virou negócio de bilhões
de dólares, com multinacionais atuando promovendo
troca de mercadorias , produtos e serviços entre
empresas a nível mundial. É a globalização
do escambo.
Depois
surgiram alguns produtos como fator intermediário
da troca. O primeiro, segundo alguns estudiosos, teria
sido o gado, daí a palavra pecúnia (dinheiro)
que vem do latim pecus(gado), bem como o uso do sal como
moeda e daí advir a palavra salário.
A
mercadoria como fator intermediário de troca não
foi recurso somente dos povos antigos e primitivos. Segundo
John K. Galbraith em seu livro Moeda, de onde veio e para
onde foi, em algumas colônias inglesas da América
o fumo chegou a ser moeda legal na Virgínia,
nos idos de 1642, sobrevivendo como tal por dois séculos,
o mesmo acontecendo em Maryland por um século e
meio.
No
Brasil, em 1600. Carne, couro, açúcar e
algodão substituíam a moeda escassa. Depois
vieram a prata e o ouro.
Após
as mercadorias, surgiram as moedas cunhadas, inventadas
pelos gregos, mas desenvolvidas primeiramente pelos italianos
e em seguida pelos holandeses e ingleses. O papel-moeda
parece ter sido uma invenção norte-americana.
A
moeda cunhada acabou sendo substituída, em grande
parte, pelo papel-moeda, assim como este está sendo
substituído, paulatinamente, por cheques, cartões
de crédito, débito etc. Afinal , ela tinha
imensas vantagens sobre o sistema de troca de mercadorias
então vigente, já que: era portátil,
padronizada e tinha um valor intrínseco, isto é,
seu poder de compra era equivalente ao valor do material
com que fora fabricada, sendo assim estável. Entretanto,
surgiram os "espertinhos " ( como é antigo
esse problema hein!), e o valor intrínseco deixou
de ser realmente equivalente. Começaram a aparecer
moedas com pesos diferentes ( Lembram-se certamente do
quilo de 900 gramas do Plano cruzado) já que elas
eram cunhadas em empresas particulares que deveriam seguir
algumas normas, respeitando principalmente o peso, o que
não estava acontecendo.
Diante
do problema o Parlamento de Amsterdã publicou em
1606 um manual para negociantes, enumerando 341 moedas
de prata e 505 de ouro. Em 1609 os comerciantes de Amsterdã
criaram um banco público, cuja finalidade principal
era pesar as moedas e substituir as abaixo do peso real
que deveriam ter, por outras que expressassem o valor
exato do metal nela contido. Cobravam por isto, um valor
equivalente ao custo da cunhagem da nova moeda acrescidos
dos custos administrativos. Certamente, com a boa aceitação
e credibilidade das moedas com o símbolo do Banco
de Amsterdã, os holandeses lançaram as bases
dos bancos de hoje.
Conta
ainda J. K. Galbraith nesta mesma obra, de onde veio e
para onde foi a curiosa história do papel-moeda
que, segundo ele, teve sua origem nos Estados Unidos por
volta de 1690. Sabe-se que, já por esta época
alguns bancos europeus e até firmas joalheiras
operavam com recibos em troca de moedas. Os recibos eram
passados como prova de que havia um valor equivalente
de moeda de boa qualidade depositados nos cofres do banco
ou da joalheria, em nome do seu portador. Estes recibos
circulavam como papel-moeda, sem ter até então,
as características e a amplitude que viria a adquirir
o papel-moeda.
Baseando-se
em vários historiadores foi que Galbraith indicou
o ano de 1690 como sendo o da criação do
papel-moeda que deu origem ao dólar norte-americano.
Em
1690, Sir William Philips reuniu e liderou uma expedição
de soldados não-regulares de Massachusetts contra
Quebec. O pagamento destes soldados seria feito com base
na pilhagem da fortaleza a ser atacada e conquistada.
Mas aconteceu algo não previsto. A fortaleza resistiu
bravamente e não se rendeu. Como então pagar
aos soldados e evitar uma rebelião ? Sir William
Philips teve então a genial idéia de pagá-los
com notas, a serem trocadas depois por ouro ou prata,
que dizia ele aos seus soldados, já estavam a caminho
em alto – mar. Mas como seriam estas notas ? Qual seu
tamanho e o que diriam ? Como conseguir tanto papel?
A
solução encontrada foi imprimir as promessas
de pagamento com seus respectivos valores em cartas de
baralho, que passaram assim a ter valor de dinheiro.
O
governo francês desaprovou tal iniciativa, mas achou-a
tão criativa que em 1711 fez uma emissão
de 100 libras em espadas e paus e de 50
libras em copas e ouros.
Abstraindo-se
o fato curioso acima relatado, o que se deduz , afinal,
é que o dinheiro nada mais é que uma mera
convenção. Aceitamos recebe-lo por um determinado
valor porque sabemos que poderemos repassá-lo a
outros por esse mesmo e determinado valor. No entanto,
quando os governos emitem e colocam em circulação
uma quantidade excessiva de dinheiro , ele perde o valor
e passamos a aceitá-lo somente como uma proteção
contra sua desvalorização. Esta proteção
pode ser "juros " ou uma fórmula de correção
da perda do poder de compra do dinheiro. Nós brasileiros,
criativos como sempre, criamos a fórmula da correção
monetária e deu no que deu .
Para
evitar e controlar as emissões futuras excessivas
, os governos criaram os bancos centrais que tem, entre
outras atribuições, esta função.
O
papel-moeda substituiu a moeda cunhada em sua capacidade
de adquirir mercadorias, bens e serviços em maior
volume ou seja pela facilidade de portabilidade. Entretanto,
para que um papel tenha o valor de moeda ( dinheiro) é
necessário que ele tenha algumas condições
e características básicas, já que
o papel-moeda não tem um valor intrínseco,
e sendo assim, não vale pelo que representa fisicamente.
Necessita então, ter a garantia de um governo,
de uma autoridade , representada pelo Banco Central do
país.
O
papel-moeda tem as seguintes características básicas:
1
— É uma unidade de troca que expressa os preços
nas transações efetuadas e para isto, precisa
ter um valor constante.
2
— É uma reserva de valor com a qual você
compra bens, mercadorias e serviços. Para isto,
o dinheiro ( moeda ou papel-moeda) deve ter: liquidez,
valor constante, aceitação geral e credibilidade.
Finalizando, dinheiro é qualquer coisa com a qual
se pode comprar ou vender bens, mercadorias e serviços,
desde que tenham liquidez imediata, ou seja, possam ser
vendidos imediatamente. Considerem como dinheiro, por
exemplo ( perdoem-me os economistas, pelo descaso acadêmico
) títulos: ações,
depósitos em caderneta de poupança e conta-corrente,
aplicações em CDB, Fundos de Investimentos,
pedras preciosas (diamantes, esmeraldas, etc.) metais
preciosos ( ouro, prata, etc.).