A
poeira do desabamento das torres gêmeas ainda não
tinha se dissipado, quando um outro ícone americano
começou a ruir, dessa vez não por ação
de terroristas muçulmanos mas pela fragilidade
das leis dos homens frente ao lado ruim da natureza humana
que está sempre buscando formas de dar volta nos
bobos de todo mundo.
Em síntese, a história é a seguinte.
ENRON é a sétima corporação
privada nos Estados Unidos (faturamento superior a 100
bilhões de dólares, PIB da Noruega) e a
maior empresa do mundo na área de energia. Tem
20 mil empregados na empresa-matriz e 3500 subsidiárias
espalhadas pelo mundo. A empresa ainda não tinha
25 anos. Cresceu no bojo da desregulamentação
do setor energético e com a filosofia, concepções
e cacoetes das empresas da chamada nova economia.
Parêntesis.
Entre essas concepções a de valorizar o
"capital intelectual" em detrimento dos ativos
reais. Trocando em miúdos, sustenta-se que esse
negócio de propriedades é papo furado, coisa
do capitalismo de nossos avós. A onda agora é
o talento e o conhecimento das pessoas. Este é
o capital que importa, segundo eles. Fecha parêntesis.
No início de Outubro de 2001, executivos da ENRON
visitaram agências de classificação
de crédito para falar dos resultados da empresa
no terceiro trimestre. Nessas conversas, informaram que
o patrimônio líquido da empresa (ativos menos
passivos) havia sofrido no período um baque de
1,2 bilhão de dólares. Esse baque ocorrera
segundo os executivos da empresa devido
a "transações com outras sociedades
comerciais". Em suma explicaram eles
maus negócios, trapalhadas , admitiam eles,
mas coisas que acontecem em qualquer empresa e nas melhores
famílias, não é verdade?
Mas os problemas da ENRON não eram resultantes
apenas de maus negócios e de apostas erradas. Não
eram só pacientes dessa enfermaria. Fizeram muita
bobagem, sim. Mostraram grande incompetência em
negócios feitos na Índia, no Brasil e na
Europa. Compraram gato por lebre a torto e a direito.
Bateram de frente com governos. Outro parêntesis.
Inacreditável que com tanto "capital intelectual"
dentro de casa tenham feito tanta besteira. Fecha parêntesis.
A questão maior, entretanto, era o mega esqueleto
que a organização escondia em seus armários.
Esse, era de arrepiar.
Anatomia
do esqueleto. A ENRON montou em poucos anos uma
extensa e complexa rede de subsidiárias ("sociedades
comerciais") que atuavam nas mais diversas áreas
da economia mundial. Tais subsidiárias, dirigidas
pelos próprios altos executivos da empresa, tinham
vida própria e operavam como se independentes fossem.
A organização da rede e os vínculos
pessoais existentes entre as empresas possibilitavam a
construção de qualquer tipo de arranjo contábil
e fiscal.
Dentro
de um regime de total conflitos de interesses, promíscuo,
e através de acordos de cavaleiros, a quadrilha
enfiava os prejuízos na contabilidade das empresas-parceiras,
protegendo assim os resultados da empresa-mãe e
engordando fictíciamente o valor das ações
da ENRON. A empresa operava dentro do modelo de
conflito de interesses que os analistas chamam de "engenharia
financeira no fio da navalha". Tudo escondido dos
acionistas, dos empregados, do governo americano, etc.
E com o "nada consta" das auditorias!
No
início de Dezembro, a ENRON entrou com um
pedido de concordata, o maior pedido desse tipo já
feito. Devia 50 bilhões de dólares. A ação
da empresa, que chegou a 90 dólares em 2000, fechou
em dezembro de 2001 a 26 centavos de dólar, arruinando
investidores que confiaram na empresa e detonando o fundo
de previdência dos funcionários.
De lá pra cá, todo dia aparece um pedaço
do esqueleto.
Descobriu-se que, no último ano,
já prevendo o desastre, os principais dirigentes
venderam em torno de 1 bilhão de dólares
de ações da empresa. Enquanto se livravam
do mico, campanhas internas estimulavam os funcionários
a continuar investindo suas economias na massa falida.
Descobriu-se
que, em outubro, já com o banzé formado,
um dos auditores da Arthur Andersen mandou dar
sumiço em grande parte na documentação
sobre a empresa e suas trapalhadas. Queima de arquivo
literalmente.
Descobriu-se
que a ENRON foi o maior contribuinte na campanha
dos republicanos e particularmente de George W. Bush
e que vários colaboradores do atual governo tiveram
alguma ligação no passado com a empresa.
Até agora não se descobriu nada de ilegal,
mas o estreito relacionamento e o tamanho da contribuição
é excelente material para ser aproveitado pelos
democratas justo no momento em que a popularidade de Bush
está nas nuvens.
Ficou-se
sabendo que, em junho, analistas da Standard & Poor’s
alertaram a empresa que ela deveria se preocupar com o
baixo desempenho de seus ativos internacionais. Mas surpreendentemente
manteve as classificações de crédito
com base na aparente disposição da empresa
em rifa-los.
Vários
bancos Citbank, J.P.Morgan, Royal Bank of Scotland,
Credit Lyonnais, ABN AMRO, Barclays, Deutsche Bank, Societé
Generale, etc – tem enormes papagaios pendurados.
A pergunta que rola na praça é como foi
que esses gigantes entraram nessa fria. Além disto,
a falência da ENRON deixou no ar a preocupação
quanto à existência de mais riscos no mercado
de crédito do que se supõe. A desconfiança
é geral. Calcula-se que, nos últimos seis
anos, investidores perderam perto de 200 bilhões
de dólares em razão de falhas em procedimentos
de auditoria.
O
caso está longe de acabar. Não se sabe o
que vai acontecer e pode aparecer. Muita água ainda
vai rolar debaixo da ponte. Entretanto, duas coisas são
certas: Primeiro, que o sistema e a legislação
têm enormes furos. Estão longe de estar à
prova de maldades e de funcionar como uma proteção
para a sociedade. O lado ruim da natureza humana continua
ganhando de goleada. Segundo, muitas instituições
vão sair dessa história com suas imagens
profundamente abaladas. Além, claro, da empresa
falida, agências controladoras, agências de
crédito, empresas de auditoria, seguradoras, bancos,
conselhos fiscais, consultores, políticos, advogados,
analistas de mercado, contadores, lobistas. Vai sobrar
pra todo mundo. E, finalmente, o sistema como um todo.
Enfim, muito trabalho para os comunicadores.Chegou a hora
da nossa rapaziada mostrar o seu valor.
Roberto de Castro Neves, www.imagemempresarial.com