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     O Escabroso caso Enron

         Roberto Castro Neves*
         06, Julho/2002

 

Se a sua atividade se relaciona de alguma forma com comunicação empresarial, você não pode deixar de acompanhar o Caso ENRON. Aliás, qualquer que seja a sua atividade — empresário, professor, advogado, auditor, investidor, funcionário público, dona-de-casa —, recomendo que procure conhecer essa encrenca que certamente vai constituir-se num marco dentro da história do capitalismo moderno. O caso tem ensinamentos para todo mundo e é um prato cheio para quem lida com comunicação empresarial.

A poeira do desabamento das torres gêmeas ainda não tinha se dissipado, quando um outro ícone americano começou a ruir, dessa vez não por ação de terroristas muçulmanos mas pela fragilidade das leis dos homens frente ao lado ruim da natureza humana que está sempre buscando formas de dar volta nos bobos de todo mundo.


Em síntese, a história é a seguinte. ENRON é a sétima corporação privada nos Estados Unidos (faturamento superior a 100 bilhões de dólares, PIB da Noruega) e a maior empresa do mundo na área de energia. Tem 20 mil empregados na empresa-matriz e 3500 subsidiárias espalhadas pelo mundo. A empresa ainda não tinha 25 anos. Cresceu no bojo da desregulamentação do setor energético e com a filosofia, concepções e cacoetes das empresas da chamada nova economia.

Parêntesis. Entre essas concepções a de valorizar o "capital intelectual" em detrimento dos ativos reais. Trocando em miúdos, sustenta-se que esse negócio de propriedades é papo furado, coisa do capitalismo de nossos avós. A onda agora é o talento e o conhecimento das pessoas. Este é o capital que importa, segundo eles. Fecha parêntesis.


No início de Outubro de 2001, executivos da ENRON visitaram agências de classificação de crédito para falar dos resultados da empresa no terceiro trimestre. Nessas conversas, informaram que o patrimônio líquido da empresa (ativos menos passivos) havia sofrido no período um baque de 1,2 bilhão de dólares. Esse baque ocorrera — segundo os executivos da empresa — devido a "transações com outras sociedades comerciais". Em suma — explicaram eles — maus negócios, trapalhadas —, admitiam eles, mas coisas que acontecem em qualquer empresa e nas melhores famílias, não é verdade?


Mas os problemas da ENRON não eram resultantes apenas de maus negócios e de apostas erradas. Não eram só pacientes dessa enfermaria. Fizeram muita bobagem, sim. Mostraram grande incompetência em negócios feitos na Índia, no Brasil e na Europa. Compraram gato por lebre a torto e a direito. Bateram de frente com governos. Outro parêntesis. Inacreditável que com tanto "capital intelectual" dentro de casa tenham feito tanta besteira. Fecha parêntesis. A questão maior, entretanto, era o mega esqueleto que a organização escondia em seus armários. Esse, era de arrepiar.

Anatomia do esqueleto. A ENRON montou em poucos anos uma extensa e complexa rede de subsidiárias ("sociedades comerciais") que atuavam nas mais diversas áreas da economia mundial. Tais subsidiárias, dirigidas pelos próprios altos executivos da empresa, tinham vida própria e operavam como se independentes fossem. A organização da rede e os vínculos pessoais existentes entre as empresas possibilitavam a construção de qualquer tipo de arranjo contábil e fiscal.

Dentro de um regime de total conflitos de interesses, promíscuo, e através de acordos de cavaleiros, a quadrilha enfiava os prejuízos na contabilidade das empresas-parceiras, protegendo assim os resultados da empresa-mãe e engordando fictíciamente o valor das ações da ENRON. A empresa operava dentro do modelo de conflito de interesses que os analistas chamam de "engenharia financeira no fio da navalha". Tudo escondido dos acionistas, dos empregados, do governo americano, etc. E com o "nada consta" das auditorias!

No início de Dezembro, a ENRON entrou com um pedido de concordata, o maior pedido desse tipo já feito. Devia 50 bilhões de dólares. A ação da empresa, que chegou a 90 dólares em 2000, fechou em dezembro de 2001 a 26 centavos de dólar, arruinando investidores que confiaram na empresa e detonando o fundo de previdência dos funcionários.


De lá pra cá, todo dia aparece um pedaço do esqueleto.


   Descobriu-se que, no último ano, já prevendo o desastre, os principais dirigentes venderam em torno de 1 bilhão de dólares de ações da empresa. Enquanto se livravam do mico, campanhas internas estimulavam os funcionários a continuar investindo suas economias na massa falida.

  Descobriu-se que, em outubro, já com o banzé formado, um dos auditores da Arthur Andersen mandou dar sumiço em grande parte na documentação sobre a empresa e suas trapalhadas. Queima de arquivo literalmente.

  Descobriu-se que a ENRON foi o maior contribuinte na campanha dos republicanos e particularmente de George W. Bush e que vários colaboradores do atual governo tiveram alguma ligação no passado com a empresa. Até agora não se descobriu nada de ilegal, mas o estreito relacionamento e o tamanho da contribuição é excelente material para ser aproveitado pelos democratas justo no momento em que a popularidade de Bush está nas nuvens.

Ficou-se sabendo que, em junho, analistas da Standard & Poor’s alertaram a empresa que ela deveria se preocupar com o baixo desempenho de seus ativos internacionais. Mas surpreendentemente manteve as classificações de crédito com base na aparente disposição da empresa em rifa-los.

Vários bancos — Citbank, J.P.Morgan, Royal Bank of Scotland, Credit Lyonnais, ABN AMRO, Barclays, Deutsche Bank, Societé Generale, etc – tem enormes papagaios pendurados. A pergunta que rola na praça é como foi que esses gigantes entraram nessa fria. Além disto, a falência da ENRON deixou no ar a preocupação quanto à existência de mais riscos no mercado de crédito do que se supõe. A desconfiança é geral. Calcula-se que, nos últimos seis anos, investidores perderam perto de 200 bilhões de dólares em razão de falhas em procedimentos de auditoria.

O caso está longe de acabar. Não se sabe o que vai acontecer e pode aparecer. Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte. Entretanto, duas coisas são certas: Primeiro, que o sistema e a legislação têm enormes furos. Estão longe de estar à prova de maldades e de funcionar como uma proteção para a sociedade. O lado ruim da natureza humana continua ganhando de goleada. Segundo, muitas instituições vão sair dessa história com suas imagens profundamente abaladas. Além, claro, da empresa falida, agências controladoras, agências de crédito, empresas de auditoria, seguradoras, bancos, conselhos fiscais, consultores, políticos, advogados, analistas de mercado, contadores, lobistas. Vai sobrar pra todo mundo. E, finalmente, o sistema como um todo. Enfim, muito trabalho para os comunicadores.Chegou a hora da nossa rapaziada mostrar o seu valor.


Roberto de Castro Neves, www.imagemempresarial.com

 

 

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