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Data
venia, RP pra quê?
Roberto
de Castro Neves
Publicado
no Domínio Feminino
01,
Setembro/2001
As
bruxas andam soltas na empresa. Houve aquela confusão
com os clientes que resultou em várias cartas de
reclamação aos jornais. Depois, na esteira
dessas reclamações, uma jornalista escreveu
uma série de matérias espinafrando a empresa.
Teve até um político espiroqueta que andou
tirando partido da questão dizendo coisas absurdas
sobre o caso. Agora, dirigentes de uma ONG querem falar
com o presidente. No meio disto tudo, muito "disse-me-disse"
entre os empregados, a galera parece desmotivada e a produtividade
caiu. Para completar, as vendas desabaram no semestre. E
desabaram feio.
Este
quadro geral surge na reunião de diretoria. Na realidade,
o tema não fazia parte da pauta da reunião até
porque o tal desagradável episódio com os clientes
em si era tido já por todos como "águas
passadas". A grande vedete da reunião era, sim,
o medíocre resultado de vendas do semestre que, para
desespero do diretor financeiro, já mandara para o
espaço, seis meses antes, o objetivo anual da empresa.
Interessante é que o quadro geral acima descrito não
foi apresentado por ninguém pronto e acabado. Ele foi
surgindo pouco a pouco na medida que cada diretor comentava
onde seus calos doíam. Cada elemento desse cenário
– a insistência da mídia, a queda no índice
de satisfação dos clientes, o clima de bode
na organização, etc – ia sendo apresentado um
a um como fatos independentes, sem relação entre
eles, e muito menos entre eles e o episódio passado.
Mas acabou sendo consensual que a coisa toda estava muito
estranha. E, pela primeira vez, em anos, numa reunião
de diretoria, a culpa de todos os problemas não sobrava
para o Governo e sua política econômica.
"Deveríamos
contratar alguém para fazer um trabalhinho de Relações
Públicas" - arrisca timidamente um dos diretores.
A
sugestão não é nova. Volta e meia ela
ressurge e é sumariamente derrubada. Como sempre, o
diretor financeiro diz que não há dinheiro e
lembra os gastos maciços em propaganda. O de marketing
torce o nariz. RH desconversa com um "não sei
se é por aí". E o diretor jurídico
pergunta: "Data venia, RP, prá quê?"
Como nenhum dos presentes sabe responder a indagação,
a solução vem por acordo de lideranças:
talvez no ano que vem. Pronto! É a senha para todos
voltarem à "realidade dos negócios".
Momento seguinte, começa o desfile dos centenários
concursos para estimular vendas e de outros tantos velhos
conhecidos programas de redução de despesas,
das viagens internacionais ao cafezinho, passando, é
claro, pelo enxugamento dos efetivos.
Tenho certeza
de que você já viu este filme.
Infelizmente
é assim. O caminho a ser percorrido entre o relacionamento
desses fenômenos "estranhos" – as bruxas soltas
- e a necessidade de um "trabalhinho" de RP
é longo. Aliás, muitas empresas nem este trecho
percorrem. Perdem clientes, bons funcionários, quebram
mas não se rendem a "essas coisas de americano".
Outras, de postergação em postergação,
vão consumindo suas preciosas energias tapando o sol
com a peneira.
Um
dia, porta arrombada, moral no chão, dá-se o
salto qualitativo:
"Precisamos
de um trabalho de um RP. [Aleluia!] Contratemos um
assessor de imprensa".
Bem,
"aleluia" em termos. Saltamos de uma situação
em que se ignorava a necessidade de serviços de RP
para outro estágio em que se desconhece ainda o que
vem a ser RP, seu alcance, suas tecnologias, fundamentos.
No
Brasil, " assessoria de imprensa" é uma espécie
de "entry level" da atividade de RP.
O positivo é que as empresas podem, sem saber, estar
plantando dentro delas a semente da atividade no seu sentido
global. É claro que esses coitados vão pagar
todos os seus pecados no processo entre a semente e o fruto.
Cedo vão descobrir que, na verdade, foram contratados
para dar um urgente cala-boca naquela jornalista encrenqueira.
Seus préstimos também serão solicitados
para conseguir colocar, na primeira página, as declarações
inteligentes do presidente da empresa e, nas colunas sociais,
notinhas simpáticas sobre ele e sua adorável
família. E vão frustrar aqueles que os contrataram
se a tal jornalista resistir aos seus encantos, almoços,
jantares, brindes, propostas indecentes, etc e continuar pegando
no pé da empresa, agora com a credibilidade de quem
tem acesso a uma fonte mais confiável.
Esses
hoje denominados "assessores de imprensa" terão
prestado um grande serviço se, apesar de tudo, conseguirem
vender o peixe de que clientes, funcionários, acionistas,
imprensa, autoridades, políticos, sindicatos, ongs,
opinião pública em geral e outras tribos fazem
parte de um mesmo eco-sistema que precisa ser olhado e tratado
como um todo. E mais: que profissional para tratar dessas
coisas chama-se Relações Públicas.
Aqui e na China.
Quem
é Roberto de Castro Neves
Nossos
agradecimentos ao Dr. Roberto de Castro Neves pela autorização.
Sobe
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