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Explicando
"Maria Eugênia"

Maria Luiza Curti
luizacurti@dominiofeminino.com.br
Maria Luiza Curti é psicóloga e webjornalista
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
22, Abril, 2002


Muita gente se espantou e se emocionou quando, de repente, Kleber (“Bambam”) 24 anos, participante do “reality show”, Big Brother Brasil, começou a andar pela “casa” desesperado e chorando, procurando por Maria Eugênia.

André, outro participante, disse no “confessionário”, que a presença de Maria Eugênia só foi percebida quando saiu.

Mas, quem é essa Maria Eugênia que ninguém havia percebido antes?

Kleber com a ajuda de Sérgio construiu, com pedaços de madeira e vários objetos da “casa”, uma boneca tipo palito, a quem deu o nome de Maria Eugênia. Essa boneca passou a ser sua companheira, mas ninguém lhe deu muita importância. Uma vez, quando jogava na quadra, Kleber sentiu dores nas costas. Foi filmado, deitado no chão, tendo ao lado Maria Eugênia.

Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que contribuiu grandemente com pesquisas e trabalhos na área infantil, em um artigo publicado em 1953: “Objetos Transacionais e Fenômenos Transacionais”, introduziu o conceito de “objeto transacional”. No início da vida, mãe e bebê estão muito próximos. À medida que ele cresce e se estiver em ambiente favorável, a separação mãe-bebê vai acontecendo gradual e suavemente.

A volta da mãe a seu trabalho, a ida para a escola maternal, etc... pode ser sentido como uma ruptura com seu mundinho costumeiro e por isso, assustador. É natural que a nova e desconhecida situação suscite medos, ansiedades, insegurança e sentimento de abandono.

Algumas crianças elegem um cobertorzinho, uma fralda, um travesseiro ou qualquer outra coisa que não gostam que lavem e que serve de apoio em momento de ansiedade e aflição.

Esse objeto eleito é externo, não tem nada a ver com o objeto interno, tanto é que, com a nova situação adaptada, o objeto vai perdendo o significado e paulatinamente vai sendo deixado, sem traumas. Entretanto, numa idade posterior, em situação angustiante e de privação, a necessidade de um objeto específico pode reaparecer. É o que parece ter ocorrido com Kleber.

“Bambam”, apelido que lhe deram lá, estava em um ambiente estranho e altamente estressante por ser um local de competição onde todos recebiam tarefas, que testavam as capacidades dos participantes, de relacionamento e de vencer.

No princípio a “casa” contava com 12 competidores que se acotovelavam, cada qual tentando conquistar seu espaço. Houve brigas, críticas, armações, sem falar no fato incômodo, de se saberem vistos por todos os lados, sem tréguas. O clima era tenso o tempo todo.

Mas, se todos estavam enfrentando o mesmo clima, por que cada participante não construiu sua “maria eugênia”?

A construção de defesas depende muito de aspectos particulares da personalidade de cada um. Todos tinham as suas defesas organizadas, mas a do Kleber se fez notar, quando a tiraram...

A equipe de produção sempre colocou e tirou coisas de dentro da “casa” e disseram que por engano levaram a boneca. Quando “Bambam” percebeu que tiraram o objeto que lhe dava suporte emocional, pois representava uma ponte de segurança, até que saísse da “casa”, desabou. Só tranqüilizou quando lhe devolveram Maria Eugênia.

Bem... depois de todos “paredões” possíveis e imagináveis, “Bambam” com o “coração espumando” de felicidade, dividiu o prêmio com seu objeto transacional, Maria Eugênia. “Faz parte!”

Maria Luiza Curti
luizacurti@dominiofeminino.com.br

Maria Luiza Curti é psicóloga e webjornalista
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br

 

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