Tive um tio-avô
que se chamava Gumercindo. Tenho uma tia chamada Anacleta, outra
Orlanda, duas Anésias, e, claro, uma Maria, quem não? Houve também
um tio José Hilário, este era bem engraçado. Havia também um Messias,
que sempre trazia novidades.
Tenho um amigo,
baiano, de nome Jecinácio. Seus irmãos: Jecinélson, Jecilene,
Jecinílson, Jecinira, Jecivaldo, Jecinaldo... e um inexplicável
Francisco! Promessa, talvez, ou descuido...
Afora José, João,
Paulo, Pedro e outros poucos que são nomes permanentes no meio
cristão, não vejo ninguém mais colocando esses nomes antigos nas
crianças. Ataíde, por exemplo, ou Agenor, ou ainda Henriqueta.
Aliás, Henriqueta sempre me pareceu nome de professora, daquelas
que não dão trégua, de régua em punho e birote na cabeça. Hoje
seria presa ou, no mínimo, processada por maus tratos aos anjinhos.
Hoje só vemos
Rodrigos, Marcelos, Thiagos, Mateus, Danielas, Diegos, Ricardos,
Tábatas, Dimitras, Andressas, Ingrids, Paulas e ainda algumas
Patrícias e Mônicas. Sandra, Rogéria, Shirley, certa época foram
nomes de travesti. Hoje os travecas usam: Naomi, Sharon, Andressa...
Ainda há quem
bote o nome do filho usando uma contração dos nomes do pai e da
mãe, me parece o caso de Denílson: Denise e Nílson. Já vi exageros:
Roberto e Sueli - e o pobre do filho é a desgraçada vítima dessa
união: Roberli. Evidentemente, há nomes que não combinam com crianças:
Alexandre Magno, por exemplo, o sujeito tem que crescer e aparecer
para fazer jus a um nome desses. Um pequeno cagão não pode jamais
ser chamado assim!
Também não dá
para chamar uma pobre criança de Antenor, Nabucodonosor, ou Alcebíades.
Quem tem nome desses vai ser Nenê pelo resto da vida.
Na minha geração
ainda vemos muitos Robertos, Mários, Albertos, Jorges, Válter...
Mas, nas novas, esses nomes estão sumindo. Há os clássicos: Júlio,
Ivan, César, Víctor, Alexandre, Marcos, que resistem bravamente
ao tempo. Teobaldo e Rodolfo, porém, não se encontram mais, a
não ser nos casos de herança do nome do pai, como se dá também
com Agildo, mas acaba virando Júnior... ou, nalguns casos, Gigi,
para extremo desgosto do pai.
Mais algumas
gerações e, quando nos referirmos aos avós, vamos ter: Vó Daniela,
vô Tiago, vó Monique, vô Diego ... acho que vai ficar um tanto
esquisito. Ainda sou pelo vô Joaquim, Juca ou Quim, para os íntimos.
Vó Alberta, ou Berta. Soa mais distinto, é uma questão de respeito
para com os avós.
A próxima fase
dos nomes é um mistério, não sabemos se haverá um retorno aos
antigos ou novos nomes surgirão. Já tivemos uma fase áurea do
nome composto: João Roberto, Jorge Pedro e João Pedro - que acabam
virando Jotapê -, Luís Henrique, Maria Cláudia, Ana Paula, Fernando
Henrique ( xô!)... E vai por aí. Houve também a fase da brasilidade:
Juracy, Iracy, Jacy, Ubiratã, Iara... Os novos talvez sejam simples
onomatopéias, ruídos chineses - Tchum, Splash, Psiu - ou apenas
sílabas - Tó, Té, Dé, Di, Ma, Pa, Rê, Bi - coisas assim...
Solução prática
seria numerar todo mundo, como no exército. O sargentão truculento
gritava: -160!!! - era eu, que chegava sempre atrasado à formatura,
e tomava guarda de castigo!
Haveria, certamente,
problemas com alguns números - o treze ninguém ia querer, o vinte
e quatro nem pensar! Pelo menos, enquanto não se soubesse a tendência
exata do moleque...
Pode ser também
que voltemos à época dos nomes de artistas ou personalidades de
relevo, respeitado o habitual analfabetismo cartorário: Arnoldo
Chuarzenéguer da Silva, Bill Clíntão de Oliveira, Franque Sinatra
dos Santos, Rachel Uélche Ferreira, Charon Estone da Costa, Leididai
da Silva, Daiana de Moraes, Jõe Vayne da Cunha, Cunegundes Roquefeler
de Sousa... Incluindo até mesmo alguns legitimamente nacionais,
tais como: Gustavo Kuerten de Sousa, Ayrton Senna Camargo, Chitãozinho
Pereira e, quem sabe, um Xororó de Almeida...
Do meu lado tenho
uns parentes caipiras que colocaram nomes imponentes nos filhos:
Washington e Anderson. Depois, não conseguiam pronunciá-los. Então
simplificaram: Washington virou logicamente Chitão, e Anderson
virou Dérso. Havia mais um irmão, o Demócrates, que, pela mesma
razão, quase virou Demo. Só não aconteceu porque o padre interveio
e disse que excomungaria os pais e o menino, caso adotassem o
tal apelido.
Acabou conhecido
como Gringo, influência dos filmes de banguebangue italianos,
os chamados western-spaghetti, que eram um grande sucesso na época.
Wilson Morais
wmorais@iconet.com.br
Edição nº19 - 07/01/00.
Fonte: http://www.navedapalavra.com.br/manchetes040800.htm