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          Não Matar
          Pai e Mãe

             Fale com Maria Luiza Curti
             22, Novembro, 2002

 

 

                        O crime em que a adolescente de 19 anos, Suzane Louise von Richthofen é uma das pessoas envolvidas, chocou profundamente a sociedade. O espanto indignado das pessoas centra o foco principalmente sobre ela, por vários motivos, dos quais três deles são os principais: sua relação direta com os assassinados, pai e mãe; sua condição econômica e social e, será isso um sinal dos tempos?

                        Um amigo, católico, aturdido, falou: “Será que com essa onda atual, está se precisando acrescentar nos Dez Mandamentos, um mais explicito, Não Matar Pai e Mãe?

                        Não é uma “onda atual”, nem “sinais dos tempos”. Se tivermos paciência e tempo para remexer na história do mundo, encontraremos inúmeros relatos de agressões e assassinatos de pai e mãe pelos filhos. O que ocorreu chocou, mas não é novidade.

                        O Código de Hamurabi, o mais antigo código editado, numa data próxima a 1930 a.C., preconizava no seu artigo 195, “Se um filho espanca seu pai se lhe deverão decepar as mãos”, ora, se a lei existia é porque havia o costume.

                        Na mitologia grega Édipo mata seu pai; Electra convence seu irmão, Orestes, a matar sua mãe. Na história real, também dá para constatar que é pontilhada de matricídios e parricídios. Eu disse “pontilhada” porque não é a regra, é exceção e nem é normal para a civilização que isso aconteça. Talvez a diferença mais relevante é a  mídia globalizada que possuímos hoje, difundindo tais eventos de forma massiva.

                        Voltando para o crime de Suzane, existem outros aqui no Brasil, com o caso concluído ou em andamento na justiça, porém, o que causa a perplexidade da população é que sempre que acontece, é com pessoas de um nível social mais baixo ou em famílias desestruturadas e não nas condições dos von Richthofen.

                        A família de Suzane, era, aparentemente, o que a sociedade considera uma família estruturada social e economicamente e, era também, um modelo a ser seguido para que não acontecesse o que acabou acontecendo.

                        Diante do que ocorreu, que pais que não olharam para seus filhos e, pelo menos por um lampejo de segundos, não se perguntaram, “será?”.

                        De várias pessoas já vieram a indagação: “Mas, se a mãe era psiquiatra, como não percebeu que isso poderia acontecer?”. Ninguém pode prever um desfecho desse. Ela, como psiquiatra, deve ter detectado sinais, mas, antes de tudo, era mãe e os pais naturalmente se recusam a admitir que um produto seu, seu filho, possa vir a atentar contra eles.

                        Outra coisa, sempre que a imprensa pede o parecer de psicólogos, psicanalistas ou psiquiatras em casos como esse ou semelhantes, as pessoas caem em cima furiosas, dizendo que o objetivo desses profissionais é inimputar ou atenuar a pena dos culpados.

                        Não é nada disso.

                        O acusado será inimputável ou terá sua pena atenuada somente quando, depois de devidamente designados pelo juiz, psicólogos e psiquiatras, submetem o acusado a exames, entrevistas e baterias de testes e, só após fechar um diagnóstico, é que será emitido um laudo com o parecer de que aquela pessoa é portadora de doença mental grave e portanto, tem comprometido um elemento valorativo: a intencionalidade, isto é, as possibilidades de escolha, de reflexão e de decisão. E o juiz poderá acatar ou não esse laudo.

                        Quando um profissional do comportamento é chamado pela imprensa para falar sobre casos como esse ou outros que envolvam a conduta humana, ele está se pronunciando no geral, fazendo ilações com base em centenas de casos análogos exaustivamente estudados e, evitando fazer juízo de valor sobre aquele caso em particular.

                        Os motivos e razões reais que levaram Suzane a cometer atos que indignaram a sociedade ainda estão sendo investigados pela justiça que, creio, possivelmente, também designará, profissionais da área do comportamento para checar os caminhos psíquicos que ela trilhou para chegar a tal desfecho, pois, admito, sem originalidade alguma, cada caso é um caso. Pode não ser inusitada essa conclusão, mas sem dúvida, esses caminhos emocionais estruturantes contêm a identidade de cada um.

                        O caso Suzane, hoje (15/11), ainda não está encerrado. As investigações ainda estão em andamento, muita coisa ainda poderá vir à tona. Ficar fazendo conjecturas e tirando conclusões de informações desencontradas que aparecem na mídia (uns dizendo que “Suzane é de uma frieza impressionante”, outros dizendo que “Suzane está arrependida e chorando sem parar”), é no mínimo irresponsável.

                        O que temos hoje é: uma adolescente bonita, com uma situação econômica privilegiada e uma família que, aparentemente, era estruturada, um irmão de 15 anos que, também, aparentemente, não tem nada a ver com o fato dessa irmã, alegando um amor contrariado, tramou durante dois meses com mais duas pessoas, o assassinato dos pais, dias depois comemorou seu aniversário com festinha e deixou todo um país estarrecido.

                        Por enquanto é só, embora lamentável, trágico e mórbido.

 

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