O crime em que a adolescente de 19 anos, Suzane
Louise von Richthofen é uma das pessoas
envolvidas, chocou profundamente a sociedade. O espanto indignado
das pessoas centra o foco principalmente sobre ela, por vários
motivos, dos quais três deles são os principais: sua relação direta
com os assassinados, pai e mãe; sua condição econômica e social
e, será isso um sinal dos tempos?
Um amigo, católico, aturdido, falou: “Será que com essa
onda atual, está se precisando acrescentar nos Dez Mandamentos,
um mais explicito, Não Matar Pai e Mãe?
Não é uma “onda atual”, nem “sinais dos
tempos”. Se tivermos paciência e tempo para remexer na história
do mundo, encontraremos inúmeros relatos de agressões e assassinatos
de pai e mãe pelos filhos. O que ocorreu chocou, mas não é novidade.
O Código de Hamurabi, o mais
antigo código editado, numa data próxima a 1930 a.C., preconizava
no seu artigo 195, “Se um filho espanca seu pai se lhe deverão
decepar as mãos”, ora, se a lei existia é porque havia o
costume.
Na mitologia grega Édipo mata seu pai; Electra convence
seu irmão, Orestes, a matar sua mãe. Na história real, também
dá para constatar que é pontilhada de matricídios e parricídios.
Eu disse “pontilhada” porque não é a regra, é exceção
e nem é normal para a civilização que isso aconteça. Talvez a
diferença mais relevante é a mídia
globalizada que possuímos hoje, difundindo tais eventos de forma
massiva.
Voltando para o crime de Suzane,
existem outros aqui no Brasil, com o caso concluído ou em andamento
na justiça, porém, o que causa a perplexidade da população é que
sempre que acontece, é com pessoas de um nível social mais baixo
ou em famílias desestruturadas e não nas condições dos von Richthofen.
A família de Suzane, era, aparentemente,
o que a sociedade considera uma família estruturada social e economicamente
e, era também, um modelo a ser seguido para que não acontecesse
o que acabou acontecendo.
Diante do que ocorreu, que pais que não olharam para seus
filhos e, pelo menos por um lampejo de segundos, não se perguntaram,
“será?”.
De várias pessoas já vieram a
indagação: “Mas, se a mãe era psiquiatra, como não percebeu
que isso poderia acontecer?”. Ninguém pode prever um desfecho
desse. Ela, como psiquiatra, deve ter detectado sinais, mas, antes
de tudo, era mãe e os pais naturalmente se recusam a admitir que
um produto seu, seu filho, possa vir a atentar contra eles.
Outra coisa, sempre que a imprensa pede o parecer de psicólogos,
psicanalistas ou psiquiatras em casos como esse ou semelhantes,
as pessoas caem em cima furiosas, dizendo que o objetivo desses
profissionais é inimputar ou atenuar a pena dos culpados.
Não é nada disso.
O acusado será inimputável ou terá sua pena atenuada somente
quando, depois de devidamente designados pelo juiz, psicólogos
e psiquiatras, submetem o acusado a exames, entrevistas e baterias
de testes e, só após fechar um diagnóstico, é que será emitido
um laudo com o parecer de que aquela pessoa é portadora
de doença mental grave e portanto, tem comprometido um elemento
valorativo: a intencionalidade, isto é, as possibilidades de escolha,
de reflexão e de decisão. E o juiz poderá acatar ou não esse laudo.
Quando um profissional do comportamento é chamado pela
imprensa para falar sobre casos como esse ou outros que envolvam
a conduta humana, ele está se pronunciando no geral, fazendo ilações
com base em centenas de casos análogos exaustivamente estudados
e, evitando fazer juízo de valor sobre aquele caso em particular.
Os motivos e razões reais que levaram Suzane
a cometer atos que indignaram a sociedade ainda estão sendo investigados
pela justiça que, creio, possivelmente, também designará, profissionais
da área do comportamento para checar os caminhos psíquicos que
ela trilhou para chegar a tal desfecho, pois, admito, sem originalidade
alguma, cada caso é um caso. Pode não ser inusitada essa conclusão,
mas sem dúvida, esses caminhos emocionais estruturantes contêm
a identidade de cada um.
O caso Suzane,
hoje (15/11), ainda não está encerrado. As investigações ainda
estão em andamento, muita coisa ainda poderá vir à tona. Ficar
fazendo conjecturas e tirando conclusões de informações desencontradas
que aparecem na mídia (uns dizendo que “Suzane
é de uma frieza impressionante”, outros dizendo que “Suzane
está arrependida e chorando sem parar”), é no mínimo irresponsável.
O que temos hoje é: uma adolescente bonita, com uma situação
econômica privilegiada e uma família que, aparentemente, era estruturada,
um irmão de 15 anos que, também, aparentemente, não tem nada a
ver com o fato dessa irmã, alegando um amor contrariado, tramou
durante dois meses com mais duas pessoas, o assassinato dos pais,
dias depois comemorou seu aniversário com festinha e deixou todo
um país estarrecido.
Por enquanto é só, embora lamentável, trágico e mórbido.