. Marina
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Lições
de Semiótica (Frô)
Sentada em frente
à TV, procurando, de todas as maneiras, chamar minha atenção,
parte para o ataque:
— Essa música é de
beijar. Quer ver como daqui a pouco eles vão se beijar, mãe?
Abandonei as provas
— que mais pareciam pão e vinho bíblicos — e, curiosa, passei
a examinar a cena: dois adolescentes, aparentemente sem nenhum
vínculo amoroso, conversavam tranqüilamente... de repente um beijo!
— Não disse?
Fiquei pasma e confirmei:
é, você disse... Disse eu, ainda boquiaberta e, tentando entender
o que se passava, pergunto-lhe:
— Eles são namorados,
Marina?
— Não, não eram,
mas agora vão ser! Como é que essa pequena fez essas leituras?
Deuses! Voltei às provas, enquanto ela, com um ar de quem sabe
tudo, me sorriu condescendente. *****
No dia seguinte,
desce esbaforida da perua escolar, dá-me um beijo, os olhinhos
brilhando e as mãozinhas ágeis me mostravam um lindo envelope:
— Mãe, recebi uma
carta de amor! Um pouco assustada com a precocidade da missiva
— envolvida por um papel de seda em tom lilás, recheado de florzinhas
que decoravam as bordas — resolvi apostar no meu lado otimista
e concluí: ainda bem que aos quatro anos, elas ainda compartilham
as cartas de amor...
— Mesmo, filha? E
quem é que está lhe escrevendo declarações de amor?
— É carta de amor,
mãe, carta. É da Jéssica, não é linda?
— É sim, muito delicada,
respondi, enquanto abria o volumoso invólucro misterioso. Mas,
para minha surpresa, não havia nada escrito, além de umas garatujas
que tentavam, com tortuosidade tamanha, registrar o nome da remetente.
— Uai, Marina! Mas
aqui não está escrito nada... só o nome da Jéssica e muito mal
escrito! A propósito, quantos anos ela tem?
— Já caiu os dentes,
mãe, responde-me e emenda: Como não está escrito nada? Você não
sabe ler? Fiquei atônita, em primeiro lugar, nunca havia visto
precisão tamanha para definir o fim da primeira infância "já caiu
os dentes" e, em segundo, que diabos de presunção era aquela?
— Como? Me respeite,
guria! Isso lá é jeito de falar com a sua mãe?
— Ah! Mãe, você tá
ceguinha? Não viu, não? É uma carta de amor, mãe!
E, num tom bem professoral,
passa a traduzir o conteúdo:
— Veja, mãe, tem
um coração, ela pintou flores... ela escreveu para mim: M-a-r-i-n-a--
e-u -- t-e-- a-m-o!... Fez tudo com amor, carinho e capricho!
Humpf! Você não entende, mãe?!! Vencida pelos argumentos precisos,
convencida de que preciso aprender novos signos e sinais, respondi
envergonhada:
— Claro, meu anjo,
agora entendi... Quietinha no meu canto, descobri que se fazia
urgente reciclar minha linguagem amorosa...
Via
e-mail: Maria Oliveira